Cinematerapia®
Entendendo Conflitos
23

23

(The Number 23, 2007)[1]

 

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Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps

 

Este era para ser o terceiro filme que escolhemos para este site. Tinhámos 3 dramas e 2 comédias =32 = 23 ao contrário. Acho que era um sinal para incluírmos este filme no site com urgência. Se vocês gostarem é sinal de que o número estava certo.

Jim (ou Jimmy) Carrey se consagrou em Hollywood através das comedias chamadas “pastelão”, e seu maior talento era a grande habilidade de fazer caretas. Sua semelhança física com o lendário Jerry Lewis o tornaram agradável aos olhos da antiga geração, ao mesmo tempo que a temática se seus filmes eram direcionadas para os novos adolescentes da América.

Inúmeros “zeros” acrescidos ao seu cachê, Carrey passou a fazer filmes mais “complexos”, ou, como dizem alguns críticos, com “algum conteúdo”. Começando com o filosófico “O Show de Truman” (The Truman Show, 1998) até o mais recente “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (Eterrnal Sunshine Of The Spotless Mind, 2004 ), temos agora mais um filme, dele, que pode ser analisado sob o ponto de vista psi. 23 nos apresenta um enredo, em primeira pessoa, de um belíssimo caso de psicose, em clássica progressão.

Carrey interpreta dois personagens. Walter Sparrow na vida real e Fingerling, em sua imaginação. Tem uma pacata e simples vida, até que alguma coisa ou algo (fator desencadeante) desperta um quadro “estranho”.

Sempre que você conversar com alguém que teve contato com pacientes com estes quadros, vai perceber que eles sempre mencionam que a pessoa comecou a “ficar estranha”. Ela não muda de um dia para outro. Não “dorme bem e acorda diferente”. É por isso que é importante, em casos histórico familiar, ficarem atentos a alguns sinais iniciais, pois pesquisam apontam para grande influência genética em alguns casos.

Um dos pontos interessantes é notar o início do seu “delírio”. Como estamos falando com de uma Psicose, de novo, um Ego bem fragilizado, que “corta” com a realidade para viver em um surto. Isso que dizer, em termos mais gerais e simples, que a “nossa” realidade é muito angustiando e gera sofrimento a estas pessoas. Esse processo está longe de ser algo consciente. Como seu Ego é bastante fragilizado, semelhante ao de uma criança no inicio do desenvolvimento psíquico, lá naquelas tão faladas “fases” descritas brilhantemente por Freud, esse nosso “mundo” amedronta esta pessoa. Para fugir desse sofrimento, ele “corta” com a nossa realidade e recria uma outra, baseada em suas fantasias infantis

Apesar dos delírios serem um corte, eles expressam algo deste inconsciente, e por isso, conseguimos ter expressões através da arte, demonstrando que o inconsciente, onde temos a criatividade, consegui ser expresso. Voce já parou para pensar que muitos artistas eram tido como “loucos” em sua época? O que diferencia então um “louco de um gênio”? A aplicabilidade de suas idéias? Da Vinci era um louco ou um gênio? Ele criou projetos de coisas que aparentemente eram absurdas, mas que se mostraram muito aplicáveis anos depois. Um surto psicótico expressa muitas coisas contidas no inconsciente e que não temos acesso em todo o momento, apenas em surtos, análise, sonhos, etc. Assim, nesses surtos existe muito do que chamamos de criatividade, pois é no inconsciente freudiano que ela reside, remeterá a constante discussão no que tange a potência pulsional em seu pólo de criação.

Voltando então aos sintomas deste quadro, acreditamos serem muito  importantes os relatos destes pacientes, que devem ser entendidos pelo profissional. Vale ressaltar que em Psicopatologia existe uma grande diferença entre Sinais e Sintomas e que a maneira como são descritos os sintomas é de grande importância para o entendimento do quadro clínico.

Muitos perguntam como lidar com um surto na clínica. Confrontar, contestar, racionalizar ou usar da nossa  realidade para a contrapor ou isso não é uma indicação técnica? Se você assim o fizer, correrá o risco deste paciente abandonar o acompanhamento e nunca mais retornar.

Existem casos nos quais os pacientes já foram atendidos e medicados por um psiquiatra, mas a medicação ainda não fez efeito ou aquele profissional está adequando a melhor medicação. Nesses, e em outros casos, é preciso “Viajar na maionese”. Sim, com quem relata um surto, você tem que embarcar na história dele e resgatar o saudável. Todo surto ou corte com a realidade possui um ponto saudável a partir do qual é possível sim fazer um resgate. O surto também pode ser entendido como uma tentativa de se ater a nossa realidade, de uma maneira que ela se torne suportável a este Ego. Por maior que seja o corte há uma pequena parte que se mantêm em contato com a realidade e o trabalho psicoterápico está em identificar que parte é essa e iniciar o trabalho por ali. Para isso, você precisa entender, catalogar e identificar esse sintoma....não basta embarcar, tem que saber “mapear”. De qualquer forma o objetivo último será o de aumentar essa porção do ego e torná-lo capaz de lidar com o teste de realidade sem sucumbir.

Porém, não estamos vendo o mesmo quadro que o do filme.

Muitos se confundiram com este filme, acreditando que poderia ser um caso de Esquizofrenia Paranóide, como  no filme” Uma Mente Brilhante”. Muitos confundem a Esquizofrenia Paranóide com a Paranóia (Freud), também chamada da Transtorno Delirante.  Uma dica simples e que pode ajudar no diagnostico diferencial está relacionada com a análise das “funções do Ego”. Os Delírios (surtos) mais “bizarros” estão relacionados com a Esquizofrenia, afinal, um Ego mais fragilizado, com defesas mais antigas, em uma fase lá no início.

No caso de Sparrow temos um delírio não bizarro. Ele começa a incomodar a vida, mas o sintoma vai consumindo aos poucos o paciente. Com certeza alguém já se sentiu assim. Na clínica, trabalhamos muito com a “reação” que o paciente provoca em “nós”(contra-transferência) e isso facilita a entender o psiquismo dele. É por isso que Psicólogos clínicos continuam sempre fazendo terapia e supervisão.

Ao ver Sparrow na televisão, sentiu qualquer reação negativa? É normal. Além de um bom ator, boa maquiagem e boa iluminação, ele tem “algo estranho” que incomoda a todos.

Diferentemente do Esquizofrênico, que se não tratado terá consequências sociais negativas, o paciente com Paranóia consegue até manter um nível de vida Social e suas funções intelectuais. Sparrow escolhe um tipo de vida pacato, longe de todos. Aqueles “excêntricos” da vida e das novelas.

Vale ressaltar que todos esses quadros, se bem acompanhados por um psiquiatra e com acompanhamento psicológico têm total condições de viver uma vida tranquila como qualquer outra pessoa. Grande parte do problema ainda reside no preconceito.

Aí voce fica confuso com o filme, pois “do nada” ele muda radicalmente. Ninguém consegue entender o que aconteceu...Tudo desencadeado por um simples livro, com uma idéia obsessiva pelo número 23 e suas combinações, como se uma maldição se abatesse sobre a realidade, controlada e conduzida por este numero mágico.

Reparem que nos surto dele não é tão simples assim, e nos deixa confuso. Sim, confuso porque ele também lembra aquele personagem do Jack Nicholson em “Melhor Impossível” (TOC). Mas tem diferenças sim.

Ao longo do filme as cenas se sobrepõem podendo haver confusão de quem é quem... se estamos assistindo a uma cena da realidade ou uma da ficção de Fingerling. Seus delírios de traição (em relação a sua esposa e um amigo da família) começam a se mesclar com a imaginação da ficção. Um exemplo clássico de Delírio de ciúmes[2]. Se entendermos que o “ciúmes[3]” é um sentimento complexo, que envolve tanto o pensamento quanto os sentimentos, podemos perceber que como as funções do Ego de Sparrow estão totalmente afetadas, este ciúmes é decorrente deste quadro patológico, ou seja, totalmente irreal, traz no fundo uma defesa contra os componentes homoeróticos de sua libido.

Quem quiser entender melhor sobre a psicodinâmica desses quadros, uma boa dica de leitura seria o que Freud escreveu em seu caso clássico chamado Schroeber, ali nesse texto, ele demonstrará toda a construção do delírio e os impulso presentes em uma formação de compromisso entre desejo e defesa que remeterão ao conjunto da libido, ao jogo das pulsões em busca da descarga.

        Utilizando como base a Psicologia de Orientação Analítica (POA), com os conceitos de Psicopatologia e Psicodinâmica, fica fácil perceber que estamos lidando com um caso de Psicose. Há presença de confusão alucinatória (recriada a partir de suas fantasias e desejos) e Egossintonia (ausência de consciência do estado mórbido).  Suas funções do Ego de Sensopercepção, Pensamento, Linguagem, Conduta e Afeto estão alteradas, apesar de sua Inteligência permanecer intacta.

        Com essas informações, já podemos suspeitar de um caso de paranóia (DSM-IV-TR / 297.1 – Transtorno Delirante). Verificando o DSM-IV-TR, percebe-se que Walter satisfaz todos os critérios de diagnostico, recebendo a classificação do tipo PERSECUTÓRIO, onde a maldição do número 23 o persegue por toda a vida, não importando a lógica real temporal. Acredita que sua vida, e dos demais, é regida por esse número, que está sempre atrás dele, prestes a destruir sua vida. Há presença constante desta ameaça.

        Os delírios do paranóide são mais “estruturados”[4] do que os delírios de um Esquizofrênico Paranóide[5]. Tanto que, sua esposa Agatha e seu filho Robin, passam a vivenciar seu delírio, acreditando, pelo menos no início, em sua obsessão gerada pelo livro.  A estruturação do delírio chega a convencer aos menos despreparados, dado o nível de organização existente. Na atuação clínica, podemos referenciar em Lacan, que contribuiu para a diferenciação entre estes dois psicodiagnósticos quando identifica a crença delirante destes pacientes.[6]

        Através destes delírios, Sparrow re-constrói seu mundo, ou seja, sua tentativa, não é “apenas” uma fuga da realidade, mas uma tentativa de reconstruí-la através da projeção ou ainda de sucessivas identificações projetivas.

As causas do transtorno de Walter podem ser explicadas de acordo com a abordagem utilizada, indo desde Freud (uma fantasia de desejo homossexual reprimido) até Kaplan (fator estressor significativo). A relação de Walter com suas figuras parentais não nos é apresentada com clareza, o que nos permite apenas inferir alguns comportamentos sobre seus pais, como um pai possivelmente autoritário, ocupando local de grande importância no psiquismo da criança, literalmente “roubando a cena” da figura materna, nesses primeiros e importantes anos de vida. (Vide Caso Schreber[7]).  Assim como Freud escrevera, os sintomas do Paranóide são frutos da negação e repressão de impulsos homossexuais dirigidos a figura paterna.

É fácil nos deixarmos levar pela sua obsessão pelo número 23, e a partir daí pensar em um psicodiagnostico de Neurose Obsessiva. Entretanto, vemos nitidamente ao longo do filme que sua obsessão passa a fazer parte de um surto psicótico, mais completo e mais estruturado, havendo vivencia total dessa sintomatologia, o que já nos remete novamente a psicose. Devemos lembrar também, que assim como uma obsessão, o surto psicótico é uma tentativa de “esquecer” algo, mas apenas com um desdobramento diferenciado.

Ao terminar de ler este texto, anote as horas, + o dia, + a sua idade,  e faça uma combinação aleatória. Se você conseguir chegar ao valor 23, ou algum dos seus múltiplos ou inversões, isso é um “sinal” de que você precisa assistir a esse filme. (risos)

 

Sugestão de leitura:

ELZIRIK, Cláudio, Psicoterapia de orientação analítica: teoria e prática. Porto Alegre: Artes Médicas;1989.

FREUD, Sigmund. Notas Psicanalíticas sobre um Relato Autobiográfico de um Caso de Paranóia. (1911). Obras completas, Ed. Imago: Rio de Janeiro, 1996

FENICHEL, O. Teoria psicanalítica das neuroses. 10 ed. São Paulo: Atheneu, 2004.

 

Sugestão de atividade:

        Para alunos mais avançados na graduação, ou alunos de pos-graduação, trabalhe com os diagnosticos diferencias de Transtorno Delirante, Esquizofrenia Paranóide e Transtorno Obsessivo Compulsivo.  Realize uma aula de estudo dirigido, onde 3 grupos de alunos estudarão os 3 quadros distintos e tentarão identificar os critérios de diagnostico.

        Outra atividade que pode auxiliar no aprendizado é a criação e dramatização de casos. Divida a turma em grupos, e com base na sintomatologia e psicodinâmica dos casos, elaborem casos clinicos, com posteriores dramatizações. Supervisione as atividades para que os sintomas fiquem bem nítidos para os demais alunos.

        Para alunos no meio do curso, foque a atenção nas alterações das funções do Ego, usando como apoio o material didático da disciplina de Psicopatologia.

 

 



[1] Publicado originalmente na Revista Psiquê Ciência e Vida – Editora Escala

[2] ADALGALARRONDO, P. Psicopatologia e Smiologia dos Transtornos Mentais.Artmed:POA, 2004.

[3] WHITE, G. Some correlates of romantic jealousy. Journal of Personality, n 49, 1981.

[4] GABBARD, G. Psiquiatria Psicodinâmica na Prática Clínica. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992.

[5] KAPLAN, H, SADOCK, B.  Compêndio de psiquiatria dinâmica. Porto Alegre :Artes Médicas, 1994.

[6] LACAN, J. O seminário. As psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

[7] FREUD, Sigmund. Notas Psicanalíticas sobre um Relato Autobiográfico de um Caso de Paranóia. (1911). Obras completas, Ed. Imago: Rio de Janeiro, 1996