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Valente
A Vida é Bela
Jean Charles
Gran Torino
Encontro Marcado
Duro Aprendizado
Infância Roubada
Charles Chaplin
A Educação de Charles Banks
Amor em Tempo de Cólera
A Letra Escarlate
Amor por contrato (The Joneses, 2010)

Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps


“Quem tem a sorte de nascer personagem viva pode rir até da morte.
Não morre mais! Morrerá o homem, o escritor, instrumento da criação;
a criatura não morre jamais!”
( Luigi Pirandello “Seis personagens a procura de um autor)


    Com uma estréia no Brasil apenas no final de 2010, “Amor por Contrato” não foi um grande sucesso de billheteria. Apesar de contar com David Duchovny e Demmi Moore, não houve grandes comentários sobre o filme, que traz possibilidades de reflexões bem importantes. Veremos também no papel de seus filhos Mick (Ben Hollingsworth) e Jenn (Amber Heard), e ainda outros importantes personagens como , Gary Cole (Larry Symonds), Glenne Headly (Summer Symonds), Lauren Hutton (KC), Chris Williams (Billy), Christine Evangelista (Naomi Madsen), dentre outros. Dirigido por Derrick Borte.
 
  Logo no início do filme não será incomum se o espectador se incomodar com algo nas cenas. Até que se dissipe este incômodo e fique claro o motivo, é possível até irritar-se com tanta “perfeição familiar”. Resgatando na história americana, o pós-guerra trouxe uma necessidade de afirmação do “estilo de vida americano”. A família perfeita com pai, mãe e um casal de filhos, vivendo o sonho americano de consumo, que se propagou pelo mundo inteiro. Esta fantasia ainda existe nos dias de hoje, por mais que pesquisas apontem para novas formas familiares, tendo mulheres à sua frente. A composição perfeita do retrato tem mais laços afetivos do que na vida real poderemos ver. Tanta perfeição, que irrita, e que deve ser oriunda da nítida “falsidade” que existe nesses vínculo de afeto distinto.

  
 Sem dúvidas o filme aborda como caminho principal uma pretensa crítica ao consumismo desenfreado e a compra de marcas como símbolo de status e felicidade. Bem direto, mostra logo de cara sua intenção, diz a que veio, abordando um fenômeno tão conhecido das sociedades capitalistas. No transcorrer do filme vai deixando pontos diversos para outras tantas reflexões, poderíamos pensar logo de partida no conceito de família nuclear como centro que carrega a estrutura social que forma as relações de mercado, no próprio casamento pelo viés do patrimônio e composição dos laços econômicos, e despido de toda sua carga romântica. A família Jones tem uma tarefa bastante específica, um marketing de marcas que é levado ao cotidiano e intimidade dos laços que vão formando em seu novo bairro. Interessante logo ao começo do filme, quando sua supervisora ao criticar o desempenho do pai, Steve(David Duchovny), diz a ele que é preciso encontrar seu “instinto assassino”, levando a ver o mundo das vendas como algo que paira em um vácuo da ética. A mãe, Kate(Demi Moore) traz ao espectador uma boa reflexão do papel central da mulher atual nas relações econômicas de base, ela é a “boss” da célula de propaganda formada por essa família. Todos eles contratados da empresa de propaganda denominada de LifeImage.  A direção desse filme, a primeira de Derrick Borte, escolhe o caminho de uma crítica direta, poucas metáforas, construindo um discurso bem concreto de crítica, a muito do que todos nós conhecemos, em alguma medida, em nossa vida corriqueira.


    Durante os últimos anos a palavra “Marketing” assumiu grande importância no vocabulário social. Marketing coletivo, político, social, pessoal. Vender é o lema dessa sociedade neoliberal, onde “ser é ter”. Vender, e SE vender  faz-se necessário, como prática quase que de sobrevivência. O filme traz uma crítica semi-velada a esse comportamento compulsivo e  consumista da sociedade atual, ao mesmo tempo que participa de tal, divulgando algumas marcas. É o criticar algo e fazê-lo ao mesmo tempo, como necessidade de produção de algo rentável.  Essa prática de marketing presente ao filme nos remete ao  treinamento do pai, de ser despertado para o que vence nessa guerra comercial, uma atuação direta e agressiva.

    Não se vende um produto, se vende um estilo de vida, uma forma de comportamento compulsivo com base em valores que são subjetivos, e ao mesmo tempo, bem concretos. Ter um produto significa ter supostos valores ”morais e sociais” atrelados a ele.

    Não há nessa família nenhuma construção de afeto e de alguma maneira a competição entre eles está dada pelo índice em vendas que cada um vai incentivando, naquilo que chamam de “onda” de consumo, fomentada por eles via a inveja de seus novos conhecidos, quer sejam os vizinhos ou colegas de escolas dos filhos Mick (Ben Hollingsworth) e Jenn (Amber Heard). Não vendem diretamente algum produto, mas sim uma “tendência” que é dada pela própria imagem de “bem sucedidos” que impõem em seu novo meio ambiente, mostram-se a ele, felizes e realizados.  Um real totalmente virtual, inclusive pelas fotos espalhadas pela casa, absolutamente perfeitas e lindas, assim como a própria casa, que faz suspirar a muitos de nós, os espectadores dessa grande publicidade, de alguma maneira nos colocamos no lugar desse entorno que tentam “animar”.

    Podemos verificar os fenômenos dos vínculos familiares, e a família nuclear como a grande célula de sustentação das relações de consumo, uma crítica direta que pode ser mais elaborada via muitas das correntes que postulam, por exemplo, que existiria na abordagem da psicanálise, uma defesa do centro das relações capitalistas. Ao modelo do Édipo, a filha Jenn, bastante fixada em relações com homens mais maduros, chega a tentar seduzir seu “pai” emprestado, sofrendo diretamente a interdição da mãe, Kate, que proíbe essa investida. Ela desliza então o desejo, envolvendo-se mais adiante com um dos vizinhos, homem casado e muito mais velho do que ela. Cai em uma história de sedução, para ser abandonada mais adiante bem no estilo “Beleza Americana”, iniciação de uma jovem, onde a relação com a figura paterna ocupa um laço frouxo, no centro de sua formação de vínculos. Ao desencantar-se chama a família, mesmo que emprestada, e mesmo que virtual, ela servirá ali como o abraço “continenti” que necessitará, e seus pais em função, cumprem ao que se espera deles, acolhem e cuidam, desvio da meta de venda, dado pela necessidade humana intrínseca de refazer vínculos e laços afetivos. Steve vai então cada vez mais balançando em sentimentos antagônicos, um forte afeto sendo construído a partir dessas relações inicialmente virtualizadas, que tomam no cotidiano as cores dos vínculos calcados na construção de intimidade e história, mesmo que suas premissas sejam fantasiosas e pretendam outra meta.

    Aos poucos essa família propaganda vai criando verdadeiras ondas de consumo na comunidade emergente na qual foram inseridos, tudo isso sob a batuta firme dos gráficos apresentados por KC a poderosa supervisora, que estimula as estratégias de inserção de produtos, até que se vêem frente a questões éticas tais como a qual público tal produto foca, mesmo que contenha em si a proibição, como a bebida alcóolica que é passada de uma forma que obviamente chama o público juvenil para seu uso. O consumo de produtos como meta a ser atingida começa a esbarrar nas relações que vão construindo pelo caminho, teremos no falso pai, Steve, algum traço de um questionamento ético em relação as ações que empreendem, até mesmo por um inesperado afeto que se ergue entre ele e Kate, sua esposa na farsa engendrada.

    Caberá aqui a pergunta do quanto somos, muitas vezes, cabides de propaganda de alguns produtos, de quantas horas de trabalho gastamos para dizer ao mundo que trabalhamos com sucesso e retorno financeiro? Isso faz lembrar algumas manchetes de jornais que chocaram ao mundo quando lemos sobre sujeitos que frente a derrota financeira, súbita falência, atacam a si mesmos identificados então com o fracasso, algumas vezes pelo próprio ato de “assassinato” contra si mesmos, atacam o que oprime,  apontando para o que diz Freud em seu magistral texto sobre  luto e melancolia, onde o suicídio é traduzido por um ato violento contra um objeto introjetado, minando inclusive a forte corrente das pulsões de auto-conservação.

    Freud nos diz em seu texto “Psicologia dos Grupos e Análise do Ego” que  “Os sentimentos de um grupo são sempre muito simples e muito exagerados, de maneira que não conhece a dúvida nem a incerteza”. Neste filme esse aspecto nos é apresentado de maneira bastante evidente, principalmente perto de seu desfecho. O grupo social e suas marcas de prestígio ficam acima de outros aspectos mais importantes, até mesmo da importância da vida.  Os fatos que essa inserção de publicidade irá desencadear acabam por finalizar abruptamente a tarefa dessa célula de propaganda insólita. Esse roteiro do filme, com essa idéia original, nos põe a pensar essa possibilidade como quase um fato provável, talvez porque um pouco de cada um de nós se reconheça na trama do jogo do consumo ao qual somos submetidos e ao mesmo tempo como agentes ativos no cotidiano.

“A idéia é que somos cúmplices da definição que o outro faz de nós. O sistema de relações humanas é o doente”(Pavlovsky, E. – in Questionamos a psicanálise e suas Instituições” - vários autores – organizado por Gregório Baremblitt)

    Aqui podemos pensar nos elementos de contágio e sugestionabilidade, que Freud cita a partir das teses de Le Bon como um forte condutor nas resoluções que parecem individuais, mas que pertencem a ordem dos fenômenos grupais. Esse sentimento de pertencer a determinado grupo é algo que impõe ao sujeito um certo entorpecimento de sua capacidade crítica. Alguns compradores compulsivos podem nos exemplificar muito bem tudo isso, quando narram o impulso ao comprar, e ao sentimento posterior de inutilidade do ato, muitas vezes acompanhado por um certo traço de culpa e vergonha. O objeto tão desejado não cumpre o prometido, deixa mais uma vez exposta a sempre presente constatação da solidão de cada ser, mesmo quando pertence a um determinado grupo social, nenhum produto é capaz de anular a constatação já senso comum de que nascemos e morremos sós, e que nesse meio tempo, talvez possamos pensar como Freud que “... nossa atenção será atraída em primeiro lugar por uma consideração que promete levar-nos da maneira mais direta a uma prova de que os laços libidinais são o que caracteriza um grupo”

    Até que ponto nossos laços sociais constroem um número tão grande de máscaras, algumas delas absolutamente desnecessárias, escolhas amargas que pagamos com alto preço de perda de autonomia e liberdade, algumas delas se colando de tal maneira à face que impossibilitam um questionar e uma potência de transformação.  Esses papéis que vamos aceitando ao longo da vida, investimos libido e depois acabamos prisioneiros em suas manutenções, embora seja a escolha de cada um, perde-se a dimensão da libertação, sempre possível. “Eu quero uma casa no campo...”, mas nossa principal dimensão é constituída pelo tecido social que vamos formando pelo entrelaçado dos afetos, qualquer ameaça de rompimento fala a algo que também é construtor de uma identidade, já nascemos repletos de inscrições, a começar pelo “nome de família”, identidade patrimonial.

    Nossa virtual família do filme aprende na pele que o afeto é um imperativo do sujeito, e em determinado momento do filme, chegamos quase a esquecer que não são uma família como outra qualquer, obviamente também com seus silêncios, não ditos, afastamento emocional e negação. Até mesmo o desconhecimento da homossexualidade de um dos filhos acaba por remeter o espectador a algo que não é ausente em muitas famílias com as quais convivemos, e em muitos aspectos, a de cada um de nós. “O amor por si próprio(narcisístico) conhece uma única barreira; o amor pelos outros, o amor pelos objetos”(Freud, S.). Kate e Steve terão que dar conta disso e pensar no real das relações, naquelas que também inserem os afetos em um campo social.

    Não podemos pensar nesse filme apenas como uma crítica, de alguma forma perceberemos que nem seus formuladores tiveram essa pretensão, sabiam, e de alguma forma deixaram isso inscrito, que estavam “implicados” no objeto da crítica, como apontamos logo ao início desse texto. Na terra do consumo, não podemos pensar em um sujeito não atravessado por tão fortes marcadores sociais, a cena final do filme onde os libertos personagens seguem a estrada no carro símbolo do “sonho de consumo” que nos é apresentado, é quase como uma confissão da consciência da não neutralidade frente aos fatos cinematograficamente apresentados.

    Fica ao final a certeza de que estamos todos ali de alguma maneira, e de que em algum momento, o que é realmente importante se perde um pouco em nossas vidas. O que sentimos que somos e o que representamos, pairam em um espaço de dúvida. Nossas máscaras e papéis nos pertencem, são concamitentemente,  prisão e escolha, amadas e repudiadas. Amadurecer, algumas vezes, é olhar-se ao espelho e não saber mais o que é a face e o que é a máscara, nessa mistura subjetiva que constitui um sujeito em seu psiquismo inscrito em sua cultura. Amar a máscara, amar aquilo que supomos ser a face. Alguns quedam prisioneiros e viciados em suas mais virtuais máscaras. Mas nossos personagens, Kate e Steve, escolhem pagar pra ver, e realizar a viagem.


“...Depus a máscara, e tornei a pô-la.
Assim é melhor. 
Assim sem a máscara.
E volto à personalidade como a um términus de linha”.
(Depus a Máscara –[Álvaro de Campos]Fernando Pessoa)
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