O filme Abraços Partidos traz o traço impecável das obras de Pedro Almodóvar, que coloca as relações humanas explícitas na película de forma objetiva, enaltecendo que somos vilões e mocinhos de nós mesmos
E estréia mais um filme do diretor Pedro Almodóvar, trazendo em seu elenco principal sua atriz mais querida, segundo relatam fontes da imprensa internacional, Penélope Cruz (Lena). Veremos também o ator Lluís Homar (Mateo Blanco / Harry Caine), que ganha pela segunda vez, papel relevante num filme desse diretor, José Luis Gómez (empresário Ernesto), Blanca Portillo (Judit García), Tamar Novas (Diego) e Rubén Ochandiano (Ray X).
Sentimos no decorrer do filme o traçado bem característico desse diretor que vai enredando os personagens como quem constrói um belo traçado de tricot, vamos entendendo suas ligações e vínculos conforme a história vai sendo contada, um entrelaçado de amores, dores, obsessões, culpa, dominação, abnegação, lutos, mágoas, resiliência e esperança. Mais uma vez, nos veremos às voltas com os densos e muito humanos personagens construídos por Almodóvar, repletos de passionalidade, tanto quando amam como quando odeiam, tanto em sua dedicação como em sua capacidade dominação.
Podemos de duas formas diferentes reconhecer a dominação presente de maneiras totalmente opostas, uma pela força e domínio, representada no empresário Ernesto e outra por uma total dedicação e abnegação, representada na personagem Judit. Ares de resiliência e esperança nos chegam na voz da juventude do personagem Diego. O tom da paixão fica representado pelos personagens de Penélope Cruz e Lluís Homar.
As sempre presente cores fortes e escuras que Almodóvar imprime em suas películas transporta-nos e convida para a imersão em um estado próximo ao devaneio ou mesmo de um sonho. A sensação que imprime é a de um motor que vai aquecendo até estar em sua máxima potência, sendo impossível despregar os olhos da tela a partir de um determinado momento do filme.
O universo feminino mais uma vez muito presente no toque desse diretor, começa apresentando uma personagem sem importância maior na construção do filme representada por Kira Miró que, por isso mesmo, sublinhará o aspecto que Almodóvar dará a ela. O sexo casual, sem maiores conseqüências, que mereceria um longo debate.
Como sempre, o diretor não nos dará respostas, mas planta com muita habilidade importantes perguntas. Abre-se a porta do apartamento de Harry Cayne e vemos entrar aquela que, de certa maneira, nos contará o filme, a personagem Judit. Em cena é a própria imagem da devoção feminina, ao mesmo tempo em que representa a ausência de sexualidade ou mesmo de sensualidade.
Almodóvar nos joga frente a uma divisão relatada por Freud em seu texto que faz parte das “Contribuições à Psicologia do Amor”, sexo e afeto, mulher sexual e mulher mãe (cuidadora) e toda a dificuldade que dentro da nossa cultura temos para unir esses aspectos em nossos objetos de investimento (podemos supor que se dá tanto no masculino, quanto no feminino).
Então, logo adiante, seremos apresentados a essa mulher esplendorosa que é Penélope Cruz, que fica ainda mais radiante quando capturada pelas apaixonadas câmeras de Almodóvar. Sua personagem Lena vem resgatar para as mulheres toda a possibilidade de viver e representar de forma inteira o caleidoscópio do ser feminino, mas também nos levará com intensidade a pensar em tudo que ainda pagará a mulher ao escolher fazer isso.
Bem e o mal em nós
A cena da prova das perucas nos transporta com uma beleza deslumbrante para as várias mulheres que cada uma pode ser, nesse universo feminino que teóricos ainda afirmam como o tal “continente negro” que Freud se referiu. Um encantamento vemos nessa fase do filme, o diretor nos aproximará de maneira irresistível a toda a paixão que o olhar de Matteo (Lluís Homar) lança para Lena, paixão que é a liga de Eros nessa trama.
Deixa-nos a pergunta da quantidade que separa paixão da obsessão, no filme apresentada por meio do personagem do empresário Ernesto. Há uma passagem um tanto divertida no filme onde Harry Cayne elabora junto a Diego um roteiro que deveria ser divertido e cômico, remete muito a um filme que recentemente foi a febre de muitos, o discutido “Crepúsculo”, com sua continuação o “Lua Nova”.
Almodóvar nos faz refletir no quanto estaremos nos remetendo ao amor que perde a noção de quantidade e que traz sublinhado os traços da destruição do objeto, do risco, como escrevemos em nosso recente artigo sobre esse outro filme.
Em “Abraços Partidos” nos vemos inseridos em nosso cotidiano, quando se há um tom novelístico, uma impossibilidade de apreender o que seja o vilão e o mocinho. Nos vemos entendendo o que cada um ali nos traz de bem e mal, bom e mau, amor ou destruição, como é tudo que marca os vínculos que constroem a vida de cada um de nós. Reduzir qualquer um dos personagens que nos são apresentados ao bem ou ao mal não nos dará a completa dimensão do que Almodóvar nos apresenta com eles, o drama humano nas duas tarefas que Freud descreveu como nossas maiores fontes de investimento(e sofrimento): amor e trabalho.
“Imagens são a base do trabalho dele” — nos diz o assistente sobre o cineasta Mateo (Lluís Homar), que é nesse tempo do filme o cego Harry Caine, homem personagem que Matteo assumirá desde o acidente. Aos poucos e de forma onde o tempo é traçado mais pela importância dos fatos dentro do olhar de cada personagem, vamos conhecendo a sucessão da história de cada um e que é atravessada por cada uma dos outros.
Esses fragmentos se juntam na história de Lena e Matteo, sob o olhar atento do filho de Ernesto, Ray (Rubén Ochandiano), que os segue a pedido do pai com uma câmera filmando cada detalhe da construção do filme, que Lena é a protagonista e Matteo o diretor, com a desculpa de um make-off. A necessidade de Ray quanto a uma aceitação paterna também traçará o fio que conduz essa trama e seu desfecho . Ray o filho do empresário que cresce distante do pai e alimentado em mágoas por sua mãe, uma mulher ressentida pelo abandono sofrido, e que em sua postura, nos leva a pensar em algo que hoje se nomeia de “alienação parental”, onde via acusações se torna praticamente inviável a relação filho e pai. Ray vai ao encontro dessa possibilidade de resgate atendendo ao louco pedido de seu pai, que faz dele o olhar perseguidor em relação a Lena, de certa forma Ray atende a sua curiosidade em relação a mulher que roubou o coração paterno, seguindo-a obsessivamente como modelo a ser imitado e atacado ao mesmo tempo. Dentro dessa tentativa de aproximação com o pai, vai-se evidenciando para nós a forte ambivalência que atravessa o olhar de Ray para Ernesto, tanto que o desfecho do filme nos será dado pelas lentes de Ray em sua filmagem obsessiva, gravando assim, os momentos finais de Lena e Matteo. Não deixará de ser uma bela vingança contra seu pai, um Édipo que fura não os seus próprios olhos, mas os do pai traidor. Que seu olhar queime no amor de Lena por Matteo, será a maldição de Ernesto.
As cenas onde Ernesto contrata uma leitora de lábios para ver o que falam Lena e Matteo nos provoca um riso angustiado, nos remetendo aos momentos em que cada um já se viu em algum momento da vida: tomado pelo monstro do ciúme fora do controle, esse cômico da posse do objeto que quase todo sujeito se depara um dia e escolhe o que fazer com isso, adoecer como Ernesto ou voltar seus conteúdos de luto para uma elaboração e vivência de alteridade. Relações que podem ser tocadas mais por Eros que pela destruição de Thanatos em seu espelho narcisista. Porém, no filme, Lena e Ernesto nos apresentarão à realidade tão conhecida por muitas mulheres em todo planeta, a violência, a posse do outro como um objeto total.
Sabemos que o fim de todo organismo vivo é a morte, mesmo que Eros impere, e o filme nos colocará frente a isso. Judit nos contará tudo que vai construir o fio lógico dessa trama, aquilo que vemos nos caminhos analíticos como o “isso” que precisa ser dito, ser representado, ser nomeado de alguma maneira. E dentro dessa perspectiva descobrimos um pai e um filho, Matteo e Diego, unidos antes de tudo pelos laços da afinidade, pelas identificações construídas pela proximidade mais importante que os laços sanguíneos.
Ao final do filme, recuperadas as filmagens originais, filho e pai finalmente revelados um para o outro por Judit, resgatam e completam a obra, recuperam imagens, falas, risos e segredos. A vida nesse filme brinda em seu encerramento, “viver é bom...nas curvas da estrada...”. A dor também move a potência da criação e devolve vida à vida, sangue nas veias, imagens aos olhos e corações em abraços inteiros.