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O Adversário

(L'Adversaire, 2002)

Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps

 

 

Sinopse (clique aqui)

Trailer(clique aqui)

 

Direção: Nicole Garcia. Roteiro: Frédéric Bélier-Garcia, Jacques Fieschi e Nicole Garcia, baseado em livro de Emmanuel Carrère

 

Esse filme foi baseado em uma história verídica  acontecida na França no ano de 1993, narrada por Emmanuel Carrère.  O livro conta sobre esse personagem narrado no filme como Jean Marc(Jean-Claude Romand) assassinou a mulher, os filhos e os pais, antes de tentar se matar(sobreviveu).

 

Caso complexo que com certeza havia muito de perverso nesse mundinho paralelo que ele criou por mais de 18 anos, passou a viver em seu próprio "Silent Hill" ou sua “Matrix” se pensarmos em outros filmes. O que  poderá nos intrigar também é o fato de todos os elementos que construíram sua mentira estarem, de certa maneira, aceitos pelas pessoas da sua vida, um acordo que nos faz lembrar dos acordos familiares em torno dos dependentes químicos, o chamado de “carrossel da negação”.

 

Perguntas simples como: sua mulher nunca ligou para o seu trabalho? Poderão nos remeter à questão complexa que a mitomania pode trazer contida em si. No filme um policial pergunta, após o trágico acontecimento, ao melhor amigo de Jean Marc como ele poderia em tantos anos não ter percebido tudo, ao que ele responde: "Tavez, eu nunca o tenha escutado direito”.

 

Nosso protagonista Jean-Marc Faure (consistentemente interpretado por Daniel Auteuil), constrói uma vida de respeito e credibilidade, há uma admiração em torno do que supunham ser sua inserção na sociedade. Identificava-se como funcionário médico da OMS (Organização Mundial da Saúde), quando na verdade passava o dia dentro do seu carro, em cafés, mercados e estações de serviço de auto-estradas, enquanto sua família e amigos o acreditavam cercado de prestígio por seu desempenho profissional. Vivia do dinheiro dos seus familiares, principalmente o do sogro, que ele dizia que investia para eles em instituições em Genebra. Sua farsa começa a ser ameaçada porque seu sogro pede parte desse dinheiro para usá-lo. O filme correrá todo em torno de nos apresentar a sua vida como ela era, e depois em todo esforço que empreende ameaçado pela descoberta do seu segredo. Quando chega a uma situação insustentável mata sua família(mulher, dois filhos e os pais) e tenta se matar não alcançando sua intenção.

 

Daniel Auteuil com certeza dá uma consistência à personagem muito impressionante, o filme tem um tempo que para muitos seria lento, mas que particularmente nesse filme nos envolve na angústia que sustenta a trama. O tédio da vida contemporânea, a importância da construção de papel social que permeia nossa existência na atualidade. Os contatos mais íntimos perdem a dimensão de profundidade e passam a existir por algo que poderemos pensar como “um cartão de visita”. Nossa pergunta mais comum: “-O que anda fazendo? Quais são as novidades?”. Se nos aprofundarmos em reflexões acabaremos na resposta do amigo de Jean Marc quando diz: “-Talvez, eu nunca o tenha escutado direito". Essa escuta impossibilitada por aquilo que convencionamos para as relações e naquilo que de certa maneira acreditamos no outro, ou seja, no que queremos ver depositado nesse outro, construtor do nosso afeto.

 

Mas vamos dar uma pausa aqui? Entender um pouco a relação da psicanálise com o conceito no senso comum acerca da construção do conceito “mentira”.

 

Sabemos da existência de um quadro, onde se perde totalmente a dimensão da diferença do que é real, do que é fantasia, naquele que padece dessa dinâmica, ou mais apropriadamente conceituando diríamos dessa economia, conhecida como mitomania, ou seja, uma compulsão a contar pequenas ou complexas “inverdades”.  O sujeito que dela padece não tem o menor controle sobre seus impulsos, mente sobre questões, muitas vezes, aparentemente, sem nenhuma importância. Move essa compulsão uma grande necessidade de ser admirado, apoiada em grave e intenso sentimento inconsciente de menos-valia, onde traços fortemente narcisistas determinarão o impulso para o ato de mentir. Há também a existência de uma compreensão de que essas supostas “mentiras” guardariam sempre traços associativos acerca de mentiras sexuais a que esse sujeito teria sido submetido em sua infância, de certa maneira apontando para uma dinâmica ligada ao que se conhece em psicanálise como lembrança encobridora( cena primária - ligada à visão da cena sexual de seus pais).ª

 

“No entanto, o fato de haver, em algumas fantasias, simulação clara da realidade tanto mostra tentativa de retornar ao mundo objetivo quanto serve aos fins da defesa” (1)

 

Poderemos ainda pensar na característica das “verdades” que um paciente traz para a análise, partindo da suposição que são fantasias ou idéias delirantes, exemplo comum na clínica dessa variação, vem a nós pelos parceiros que desconfiam de seus pares. Como definir o que é delírio de ciúmes, do que está realmente acontecendo e do que se apresenta como algo que é um perigo inconsciente ou ainda uma projeção? Será que cabe ao psicanalista ocupar esse lugar? Como se atua aí com o teste de realidade, fundamental para que se lide com as duplas mensagens envolvidas quase sempre nessas situações? Algumas dessas desconfianças nos chegam com o forte sentimento de que são loucura, o que mais tarde, com um ego mais fortalecido, esse sujeito poderá entender como percepção e entendimento. Isso nos leva a situação inversa que analisávamos antes. Outro exemplo, infelizmente não tão incomum, é o de lidar com sujeitos adotados e que não foram informados sobre isso, que convivem todo tempo com forte sentimento de mentira e engano, tendo na desconfiança seu mote principal que dinamiza seus vínculos. Aí a verdade está oculta até para ele, o discurso manifesto é a mentira que viveu e vive enquanto realidade com grandes conseqüências para sua estrutura de ego.ª

 

No filme fica meio que sublinhada a forma como nosso protagonista investe quase que toda sua energia na manutenção e relação com suas mentiras. Em seu cotidiano mostrado no filme, ele aparecerá sempre com uma “aura” desvitalizada, parece sempre movido por pouquíssima carga afetiva em suas relações mais íntimas. A mentira consome e alimenta toda sua carga em relação à vida. Talvez mais do que convencer aos outros, trabalhe ele para manter essa mentira pra si mesmo, como se ela tomasse em termos de psicodinâmica o lugar do surto, sua parte que tem ligação com a realidade é capturada no sentido de manter a estrutura que sustenta sua ilusão, essa fundamental na alimentação de seus vínculos a partir da construção de um lugar, cuja importância depositará no reconhecimento social do trabalho. Essa é sem dúvida uma questão importante dentro da contemporaneidade, ainda mais em tempos de crise como os de agora, onde a relação com o trabalho se encontra ameaçada constantemente.

 

“Nem toda mentira patológica tem, necessariamente, esta estrutura particular. Ela também pode exprimir, de modo menos específico, as lutas que a pessoa empreende para manter a sua auto-estima” (1)

 

Dentro da questão que constrói o personagem do filme o fator auto-estima aparecerá bastante sublinhado. A mentira trará a construção de uma realidade desejada e investida, no mesmo tempo que, gera angústia por parte do ego, por  saber que se trata de uma ilusão que não se manterá firme após passar pelo chamado do “teste de realidade”.

 

Como já pontuamos anteriormente essa compulsão teoricamente poderá estar muito ligada a questão do conceito de “cena originária” que é também um constructo muito importante dentro do método psicanalítico.

 

“Para além da discussão sobre as partes relativas do real e do fantasmático na cena originária, o que Freud parece ter em vista e querer sustentar, nomeadamente contra Jung, é a idéia de que esta cena pertence ao passado – ontogénico ou filogénico – do indivíduo e constitui um acontecimento que pode ser da ordem do mito, mas que já lá está, antes de qualquer significação introduzida posteriormente.” (2)


Estaria presente a questão da cena primária, entendida como “cena da relação sexual entre os pais, observada ou suposta” (2) e que pertence entre aquilo que Freud nomeou de protofantasias.ª


De alguma maneira essa suposta cena determina todo um curso da construção psíquica de fantasias, que poderão tomar o curso de uma tendência ao ato compulsivo de mentir. Em quantidade, dentro do que se supõe como normalidade, determinará o livre curso de fantasias que alimentam inclusive a passagem pelo Édipo e sua posterior dissolução.

 

De algum forma e em alguma quantidade a ilusão, devaneio ou mentira está presente no curso normal do sujeito desejante, o que diferencia da mentira compulsiva é a quantidade da ligação com a realidade que esse sujeito mantém em suas elaborações.

 

Vemos também, e isso é muito importante, que todo componente agressivo de Jean Marc se liga a qualquer episódio onde suas mentiras poderiam ser descobertas, nesses pontos ele se confronta com sua agressividade, nos remetendo ao quanto essa mentira(ilusão) lhe fornece um sentido de proteção quanto ao mundo externo, poderíamos então fazer um exercício de “esticada” na teoria, tentando não esbarrar no selvagem que pode haver em uma interpretação, e supor que de alguma maneira sua mentira remete a uma proteção a essa cena primária vista como hostil, como Freud chega a propor que seria assim sentida pela criança por volta dos três anos.

 

Vemos então na elaboração da mentira o mais consistente exemplo da formação de compromisso entre desejo e defesa, no caso desse filme isso fica completamente compreensível, nos parece.

O filme assume uma tensão sempre crescente e começamos a adivinhar nas mentiras de Jean Marc algo bem maior que uma fantasia histérica, começamos a nos defrontar com componentes perversos que constituem sua estrutura. Sabemos que para o perverso a aceitação do outro é algo que os mantém compensados, a ética e a existência desse outro é por eles totalmente desconsiderada. Não há no mundo nada que não pertença a eles, que não possa ser submetido a sua ilusão e vontade, não há castração possível,

 

Finalmente após tentar contornar todas as ameaças ao seu mundo fantasioso que diz quem ele quer que o outro veja nele, frente à possibilidade de denúncia quanto a sua impostura perversa, nosso protagonista ataca e mata suas partes que lhe garantem ser quem é, ou seja, seus vínculos permeados pela sua impostura, realizados em seus familiares. A manutenção da mentira se demonstra como o mais importante ato de sua vida. Já não falamos mais de manejos que todos nós experimentamos como devaneios, ilusões ou sonhos a serem alcançados.

 

 

Analisando a "mentira" dentro deste contexto, poderíamos ser direcionados a um diagnóstico de Síndrome de Munchhausem (chamada também de Pseudologia Fantástica nos manuais de diagnóstico), mas adentrando aos critérios de diagnóstico diferencial, de base psicanalítica, poderemos ver que sua mentira está muito mais relacionada a uma perversão. Estaríamos portanto, diante de um quadro de Transtorno de Personalidade Anti-social ou Narcisita, com a mentira como um sintoma, visto que esta seria uma maneira para alcançar seus objetivos. Estrutura que fica nítida ao longo do filme, com o entendimento sobre os motivos e objetivos finais a serem alcançados com ela. Apenas uma investigação mais detalhada nos daria subsídios para a hipótese diagnóstica final.

 

Denso filme que nos alerta sobre muito do nosso cotidiano, que nos faz pensar em inúmeras vivências e a redimensionar nossas prioridades em relação ao que queremos da vida.

 



1 – Teoria Psicanalítica das Neuroses - Otto Fenichel

2 - Vocabulário da Psicanálise - J.Laplanche e J.-B. Pontalis

 

ª Artigo Coluna Denise Deschamps no site Redepsi – A Psicanálise e a Mentira

 

 

 

Sugestão de atividade.

 

  • Separe a turma em grupos menores(de preferência iguais)
  • Dê o comando para efetuarem um telefone sem fio, repassando a mesma mensagem por três vezes, ao final verificarem a mensagem inicial com a final.
  • Volte a juntar em um único grupo toda a turma, comece em sentidos opostos dois comandos diferentes de mensagem, repasse por duas vezes as duas sentenças.
  • Para cada sentença deixe a pessoa que a iniciou de fora do grupo.
  • Terminada a tarefa cada um diz a sentença que guardou como a certa(as duas)
  • Peça aos dois membros que enunciaram as frases para dizer o que sentem frente ao resultado final do que disseram.
  • Abra a discussão sobre o filme e considerações sobre a mentira e a psicoterapia.
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