A Letra Escarlate(The Scarlet Letter- 1995)
Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps
“Condenada por ter vivido um amor adúltero com o reverendo local, uma mulher é obrigada a usar em sua roupa uma letra vermelha bordada, símbolo de sua vergonha. Com Demi Moore, Gary Oldman e Robert Duvall”.(site adorocinema)
Demi Moore representa nesse filme a convicta personagem Hester Prynne, o ano 1666, local Massachussetts, chega ao novo continente sozinha, enviada por seu marido, Dr Roger Prynne(Robert Duvall), com a incumbência de organizar uma casa para eles. De uma forma bastante emocionante esse filme nos chamou a atenção pela sua análise a respeito do lugar do feminino dentro da sociedade, menos do que retratar a época onde ocorre, fala da sempre permanente luta da mulher frente às imposições repressivas que servem ao seu submetimento e opressão pelo poder masculino, o poder fálico. Assim como nos falará da construção de uma possível coerência e coragem. Nesse filme de forma marcante estará presente o discurso das “bocas de ouro”(Lacan) de Freud.
Abordará a luta de uma corajosa mulher frente ao assumir seu desejo e domínio do pensamento e corpo, luta feminina que encontraremos ainda presente na atualidade, longe, muito longe ainda de estar resolvida. A questão do religioso sempre a sustentar o discurso repressivo também é amplamente contemplada nesse filme.
Apesar de podermos pensar em muitos avanços em termos de conquista do seu lugar social, ainda encontraremos nos dias atuais de forma aberta ou ainda velada, todo um discurso bastante tomado por misoginia e machismo. O lugar da mulher ainda é abordado como o lugar de direitos concedidos, aproximando, muito, sua luta, da luta de outros grupos chamados de “minoria”, como os homossexuais, negros, índios etc. Fica-nos sempre a questão para pensarmos o do porque seriam esses grupos chamados de minoria.
Obviamente que como um filme feito para o circuito comercial teve que usar uma das fórmulas que sempre trazem resultado, então o amor proibido está presente amarrando o enredo, mas se apresenta de uma maneira bela e envolvente, não diminui a capacidade de questionamentos que o filme sublinha.
Todo amor exige coragem para ser vivido, aqui no filme o pedido de coragem aos amantes é feito através de toda uma estrutura arcaica e socialmente primitiva em suas leis e que acaba por castigar terrivelmente nossa protagonista que se atreveu a desejar e ter prazer, tornar isso público e questionar alguns dogmas religiosos afirmando falar com Deus diretamente(aqui, caberia com toda certeza um outro artigo sobre autoridade religiosa, política e poder) .
Grupo de mulheres que se reúne para livres conversas, o que as leva a serem acusadas de bruxaria, antiga marca que se dava à mulher que ousava quebrar o apertado “espartilho moral” ao qual era atrelada e ao diminuto espaço ao qual socialmente estaria confinada. A luta feminina sempre avançou por conta de algumas corajosas mulheres, algumas famosas e outras tantas anônimas e perseguidas em sua vida afetiva e pessoal, de certa forma esse grupo do filme representa isso.
A autora Marie Langer em sua obra intitulada de “Maternidade e Sexo”, nos diz que a mudança da mulher da classe operária se deu no século XIX, enquanto que a das mulheres das classes média e alta só teria se efetuado a partir da Primeira Guerra Mundial, foram chamadas à participação no trabalho fora de sua casa e de certa maneira a um abandono quanto à dependência total alimentada pelo financeiro, em relação aos seus maridos. Ao fim da guerra essas mudanças já teriam se tornado irreversíveis.
Diz Langer:
“Terminou a guerra. Voltaram os homens e se encontraram com uma mulher independente economicamente, consciente de seus valores, de cabelo cortado à “garçonne” e com uma liberdade sexual comparável à do homem. Ao não implicar conseqüências biológicas para ela, o ato sexual corria o risco de converter-se somente em fonte de prazer, de ter perdido transcedência e adquirido autonomia”
No filme, passado muito antes dessas modificações, a gravidez vem a denunciar a existência do desejo em nossa protagonista, sem marido por conta dele ter sido considerado morto pelos índios em sua viagem para o novo continente, a gravidez denuncia o adultério, a marca da sexualidade atuada sem dono.
Demi Moore interpreta de maneira muito marcante toda a convicção da personagem, seu apego à coerência e luta por um lugar onde sua voz seja ouvida, vítima ela de um casamento onde seu pai pagou dívidas de jogo concedendo sua mão ao credor, seu marido a partir disso. Pensamos que a escolha dessa atriz para esse papel foi muito feliz, Demi em sua beleza marcante representa bem a força de Hester, bela, mas sem uma delicadeza por demais enaltecida como traços do feminino, uma beleza de traços fortes e rosto nada delicado, mas um olhar profundo e repleto de vida e uma meiguice adivinhada. Há na beleza de Demi uma força que foge aos padrões mais tradicionais de graciosidade atribuídos ao feminino, marca com isso, com bastante propriedade, toda a força de Hester.
Nossa protagonista não dissimula, é impossível para ela proceder dessa maneira, enfrenta a todos com suas convicções, mas cala o nome do amado diante da ameaça de enforcamento que ele poderia ser vítima caso ela o denunciasse. Os dois viverão a partir disso, seus próprios infernos em vida, ela a perda da liberdade e ele o tormento da culpa. Muito tempo se passará até que ele rompa com o silêncio, denunciando-se como aquele que esteve com Hester, fala a coragem do amor frente a possibilidade da perda.
A cena do encontro amoroso de Hester e o Reverendo, é entremeada pela cena do banho da escrava que fielmente a acompanha em sua trajetória, silenciosas cenas que nos trazem emoções para muito além das palavras, se destacam nesse filme, rara beleza.
Hester dona da sua vida e de seu corpo, traduzindo para cada um de nós a potência que podemos encontrar na mulher que honra sua condição, sem submeter-se ou subjugar-se a leis ou impositivos de um mundo onde o masculino dita inclusive qual seja o caminho da sua singularidade. Hester estimula cada mulher e provoca homens em seu ‘falocentrismo’ ou mesmo em seus traços misóginos ainda tão presentes no mundo atual. Vale dizer que Robert Duval no papel de seu marido, o Dr Roger Prynne, personifica de maneira irretocável todo o jogo autoritário que o masculino pode exercer a partir da simples prerrogativa de ser homem.
Quantas mulheres ainda hoje, século XXI, são perseguidas veladamente ou mesmo abertamente quando ousam desejar de forma distanciada daquilo que o mundo masculino lhes permite? Perseguidas de uma forma ou de outra, encontram sua Hester dentro de si, e fazem novamente a difícil opção, submeter-se ou mudar o mundo, mudando a partir de suas próprias escolhas.
Embora esse artigo tenha a pretensão de ser atemporal, longe de datações ou fatos jornalísticos, não podemos deixar de pensar no episódio recente onde uma aluna de determinada faculdade foi perseguida e quase linchada porque teve a ousadia de ir assistir a aula vestida pra “balada”, pra noite, para encontrar depois seu namorado. Seu vestido curto, suas pernas grossas de fora, seu corpo que falava de desejo e sexualidade, provocaram a mais cruel perseguição contra ela, nada tão diferente do que aconteceu com nossa personagem e sua letra escarlate afixada para lembrar seu erro, xingada e atacada em praça pública.
Mudamos realmente? A mulher já pode se sentir respeitada? Será mesmo?
Vemos em discussões em debates onde o masculino impera ainda o traço marcante do desprezo por aquilo que é construído a partir do discurso da mulher, o chiste revela o desprezo, assim como a divisão que ainda existe marcante para a vida afetiva-sexual a qual os homens mergulham cheios de argumentações para classificar a mulher pra casar(santa) e a mulher para o sexo(a puta ou ainda, a desvalorizada a ser maltradada). Maioria das mulheres alimentará essa mesma divisão, fazendo escolhas insanas, submetendo-se a vontades masculinas aviltantes a sua condição de dignidade de ser.
Homem, tu nasceste de um ventre feminino, nos lembrará a nossa personagem com sua trajetória, onde não defenderá nenhuma idéia mais bem elaborada, mas vive, viverá intensamente, suas convicções e verdades, arriscando tudo em nome de manter, intactos, sua subjetividade e desejo. Linda, admirável, apaixonante Hester!
A cena final do filme traz metáforas maravilhosas. Demi linda em sua atuação discreta, mas nos dando uma certa fantasia de que era muito dela ali que se apresentou na força de sua fala final, que se demonstra de forma tão real como se ela estivesse não dentro de uma tela, mas nos falando ao ouvido, ali bem na nossa frente: Eu sonho com um mundo mais igual, mais desejante e não fragmentado. “Viemos para construir um mundo novo”.
Disposta a partir sozinha, ela e sua filha, se vê feliz ao colocar-se em movimento e sentir ali ao seu lado, seu amor, o Reverendo Arthur Dimmesdale(Gary Oldman) que segue-a em suas convicções e esperanças de uma vivência completa. Pois é, o amor ousa, modifica os mais arraigados costumes, senão não é amor.
Todo o filme é narrado pelas memórias de sua filha o que o torna ainda mais belo, marcante e significativo.
Terminamos esse texto lembrando um outro grande filme, nacional este, que fala sobre uma grande mulher da nossa história recente, Zuzu Angel. Deixamos parte da letra que Chico Buarque fez para ela, mãe e mulher que não abaixou a cabeça nem frente ao gigante armado e assassino que foi a ditadura no Brasil. Mulheres assim nos fazem ter força e garra para acreditar em um mundo mais encontrado em suas vocações de Eros, nós seres de um mesmo planeta, nascidos homem ou mulher, todos de um ventre redondo e feminino.
“Quem é essa mulher
Que canta como dobra um sino?
Queria cantar por meu menino...”
Ou ainda com a fala de uma outra grande mulher que marcou sua época por sua liberdade de viver, por sua paixão pela psicanálise e por sua relação com Sigmund Freud que a chamava de seu “raio de sol”, Lou-Andreas Salomé.
“Ouse, ouse... ouse tudo!!
Não tenha necessidade de nada! Não tente adequar sua vida a modelos, nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém. Acredite: a vida lhe dará poucos presentes. Se você quer uma vida, aprenda... a roubá-la! Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer. Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso: algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!!” |