Título: Comer, Rezar e Amar.(Eat Pray Love, 2010)
"Quatro pés no chão, uma cabeça cheia de folhagem, olhar para o mundo através do coração..." Ketut
Por:
Eduardo J. S. Honorato (CRP 01/14074) - Psicólogo e Psicanalista, pós-graduado em Saúde da Família (UFSC) e Docência Superior (UGF). É Psicólogo Perito em Avaliação de Trânsito e Doutorando em Saúde Pública (Fiocruz), atua em consultório particular e docência em Manaus.
Denise Deschamps – (CRP 05/09021) - Psicóloga com formação em Psicanálise, Socio-Análise e Clínica Infantil – IBRAPSI/RJ. Possui Formação em Psicoterapia de grupos. Atua como Supervisora Clínica em Psicanálise e em consultório particular na cidade do Rio de Janeiro, no bairro do Flamengo.
Filme protagonizado por Julia Roberts e Javier Bardem vem dividindo a platéia, entre aqueles que viram encantamento nessa película e os que viram algo beirando ao tédio, como uma fórmula conhecida de "bons conselhos" ou auto-ajuda. Esse roteiro baseou-se no livro homônimo, auto-biográfico, que fez grande sucesso. Narra de maneira direta a experiência de uma mulher que resolve após uma sucessão de experiências amorosas e com um casamento terminado, iniciar uma grande viagem por um ano, essa viagem refere-se tanto ao deslocamento geográfico, assim como uma viagem interna em busca de desvendar-se em seus mecanismos de repetição. Tema que, por si só, já chama a atenção de uma grande maioria nesses nossos tempos de amores líquidos, relações fast-food, solidão compartilhada, conectividade sem corpo.
Ou você amará, ou odiará. Ou se identificará, ou rejeitará. Com muitos conceitos e fundamentos de diversas religiões o filme tem como protagonista os diálogos, com frases marcantes e situações que nos levam a refletir e quem sabe, a um insight.
Nossa historia já começa com uma metáfora, mostrando a complexidade do psiquismo humano. Avisa de início que somos seres conflitantes e que estamos fadados a neurose. Mesmo nas situações mais adversas, questionamos sempre as mesmas coisas. Essa é a mensagem que Liz nos passa desde o início: complexidade dos relacionamentos. O livro começa com a citação:
"Diga a verdade, diga a verdade, diga a verdade"(Sheryl Louise Moller)
Interessante começar assim esse livro, que depois deu origem a este filme, exatamente em uma contemporaneidade sem verdades absolutas, sem crenças inabaláveis, onde duvidar é nossa maior aquisição e nossa pior praga. Onde a urgência marca como necessidade. Plataforma do desamparo do sujeito inscrito em uma atualidade de afrouxamento das leis que organizam os laços sociais, tempos de mudanças, de reconfigurações. Talvez, possamos pensar nessa solidão do crescimento, que tentamos evitar, mesmo ali, onde ela nos alcança em sua inevitabilidade.
A fantasia do casamento ou relacionamento perfeito e ideal, tão universal e frequente nos consultórios é o ponto de partida do nosso filme. Talvez também o de chegada. É a partir dessa que Liz fará toda a sua viagem. Esta que começa fisicamente para adentrar psiquicamente, ou talvez o contrário. Sabe quando você faz uma faxina ou organiza algo para conseguir entender melhor os seus sentimentos? É isso que ela faz, mas na forma de uma viagem de conhecimento, e auto conhecimento.
Até que ponto o Guru Ketut faz uma previsão ou indicação de caminho a Liz? O que importa é que sabemos o que vai acontecer. Precisamos agora saber quais foram os motivos, os DESEJOS, destes fatos tão importantes na vida de nossa protagonista.
Como muitas mulheres, Liz quer ser mãe. Dilemas sobre idade, momento, carreira sempre são comuns, assim como se escolheram o marido ideal ou correto. Compartilhamos seus primeiros questionamentos, como bem os divide com sua amiga e a solução encontrada nas crenças. Quantas vezes fazemos esse jogo de pedir socorro para nossas angústias! Como se não fossem exatamente elas a bússula que orienta a lei do desejo e possibilidades.
O relacionamento, que antes parecia tão perfeito, repleto de projeções e fantasias, começa a sentir os primeiros abalos das angústias iniciais. É o primeiro a ser afetado pelas suas decisões. Liz percebe que a angústia é forte demais, e se apega ao religioso e reza muito por uma resposta(no livro esse religioso é muito bem explicado e afastado de qualquer dogma). Uma cena linda que mostra como nos apegamos e quão importante a religião pode ser em algumas vidas ou em alguns momentos de profunda crise ou desamparo.
Mas a resposta não chega e é necessário então terminar um relacionamento sem comunicação. Precisou quebrar as poucas fantasias que restavam e passar pelo luto de um divórcio. Precisou se permitir ir em busca de algo que desconhecia: ela mesma. A senha para a partida, o ex marido a liberta, depois de mais de um ano de espera, assina o divórcio, mas não há perdão.
Alguns podem pensar o quão estranho seria o sofrimento dela, visto que “escolheu” essa saída. O divórcio e sua fácil exploração pela literatura de auto-ajuda. Escolha feita no plano da consciência, mas que algo ficou marcado em outros planos. Nossa heroína sofrerá, e muito. Junto com ela nos identificamos em várias cenas ou vários diálogos, tão parecidos com nossa história ou com um momento ou pensamento na vida. Escolha os seus e navegue com ela! A relação com David, outro personagem sedutor, marca com clareza a questão do mesmo objeto com outro nome, a escolha segue a mesma.
Nossa protagonista contrata então, com si mesma, a solidão dos vínculos amorosos, e empreende uma viagem que foi descrita no livro de acordo com o japa malas que é um colar para rezas que os hindus utilizam e que deu origem ao nosso conhecido terço cristão, descrito então em 36 histórias e coincidentemente quando a escritora contava com seus 36 anos. Sua viagem acontecerá em três tempos, passando pela Itália, Índia e Indonésia. Liz Gilbert escritora do livro e personagem em nossa película contará suas descobertas emocionais que traçam reflexões algumas vezes evitadas pela maioria, outras apenas tocadas ou ainda exaustivamente procuradas e nem sempre alcançadas. Sabemos que qualquer viagem de auto-conhecimento é própria, singular, mas também, por outro lado, ir acompanhando o roteiro de outrem, pode levar-nos a abrir portas e possibilidades de aventurarmo-nos em nosso próprio território do estranho em nós, o estrangeiro que nos habita. A platéia vai ao cinema tentar entender Liz Gilbert, dar uma espiada em sua intimidade.
As vezes, tampamos alguns “buracos” com comidas, drogas, trabalho e também PESSOAS. Liz fala sobre como fez isso ao longo da vida, com seus relacionamentos. Vemos nitidamente o seu padrão e para que eles servem. Ela precisará então ficar longe deles para entender ou encarar que realmente é.
Não é possível elaborar um luto de um relacionamento colocando outro no lugar. Liz se envolve em seguida em um outro relacionamento, com David, que a princípio parece superficial. Esta superficialidade se dá pela troca “rasa” de afetos. Você não pode “dar” aquilo que desconhece. Se nossa personagem tem uma busca de auto-conhecimento, mais do que natural que seus relacionamentos fossem assim, escassos de afeto. Mas uma vez a falta de comunicação e o silêncio tomam conta de seu relacionamento, e o distanciamento e separação são inevitáveis.
As religiões e filosofias de vida orientais sao o ponto de partida para sua viagem. Está que só se completará quando conseguir atingir o perdão. Não do outro, mas de sí mesma.
E é isso que o filme nos traz de maneira bastante eficiente, roteiro muito bem adaptado do livro, não perde o tom de confidência íntima que o livro trabalha tão bem. Em um primeiro olhar o filme poderá parecer bastante palatável, leve mesmo, mas ao sentarmo-nos na poltrona e nos deixarmos invadir pela telona, não será muito isso mais que pensaremos, ou melhor, sentiremos. De uma forma generosa toca o espectador cutucando uma certa angústia. Funciona quase que em duas vozes, o filme vai se desenrolando, prendendo a atenção, emocionando, enquanto algo de desconstrutor vai remetendo aos antigos anseios que a maioria foi largando pelo caminho. Isso que Liz quer resgatar, essas suas peças que deixou esquecidas em caixas escondidas, despindo-se das expectativas sociais que sobre ela pairavam. Toca de leve, em duas passagens do filme, remetendo a uma relação com uma mãe de personalidade muito marcante e dominadora. Será preciso retirar essa outra voz, poder ouvir-se, como lembra a ela o Richard do Texas, outro comovente personagem que no livro a autora explica que é o único que está com seu nome verdadeiro citado, com o seu consentimento, porque ele queria mesmo encontrar um jeito de falar ao mundo. Divertido personagem que apelida nossa protagonista de “Sacolão”, o que ali faz todo sentido, a voracidade dela que se apresenta em tudo, e que afinal entende que isso fala dela, e que deve ser fartamente distribuído em sua viagem pela vida, não mais perdendo a dimensão do todo em um único olhar.
É uma personagem cativante, ainda mais interpretada pela beleza diferente de Julia Roberts, que toma pra si novamente o papel principal depois de muitos filmes onde ficou com papéis secundários, tempo esse onde fazia o inverso de sua personagem aqui nesse filme, pois parou para ter e cuidar de seus filhos.
Mas que não fiquemos com a falsa impressão de que esse filme é voltado apenas para o gênero feminino, não mesmo, ele passeia com bastante vigor por questões presentes como vínculos, sujeitos no mundo, expectativas de uma vida plena e emocionalmente satisfatória, o Richard do Texas entra aí nessa história cumprindo uma função super importante nesse aspecto. Assim como Felipe(Javier Bardem) nos traz para questões masculinas de uma busca nem sempre tão facilitada para o homem atual, mundo masculino revirado, modificado pelas novas relações de trabalho que sem dúvida nenhuma interferem nas novas configurações de casal. E é uma delícia que Felipe entre nesse filme com a música brasileira marcando sua sensual presença, emociona.
Vale a pena uma pausa para assistir a essa película, e depois um bom bate papo e troca de “frases”.
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