Cinematerapia®
Entendendo Conflitos
Amor nos Tempo do Cólera

 

Amor nos Tempos do Cólera

(Love in the Time of Cholera, 2007)

 

Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps

 

Sinopse

Trailer  

Filme da obra homônima de Gabriel Garcia Márquez. O  produtor Scott Steindorff levou três anos para convencer o escritor a vender os direitos de adaptação de seu livro para o cinema. Dirigido por Mike Newell (Harry Potter e o Cálice de Fogo) e com  Javier Bardem, Catalina Sandino Moreno, Fernanda Montenegro, John Leguizamo, Benjamin Bratt e Hector Elizondo no elenco.

 

Como em toda obra de Gabriel Garcia Márquez, nessa encontraremos a profundidade com a qual trata as personagens que constrói, residindo a beleza de sua obra, segundo nossa concepção aqui,  em dois aspectos fundamentais:  seu conteúdo histórico político e o entendimento sobre as emoções que saltam aos olhos através de suas incríveis personagens.

 

Obviamente que um filme contém uma narrativa completamente diferente de uma obra literária e por conta disso não encontraremos as viagens interiorizadas que vemos nos personagens de Garcia Márquez quando lemos sua obra. A linguagem de um filme é outra, própria de suas especificidades e possibilidades de recursos. Ela é mais diretiva, impossibilita o imaginar ilimitado que uma obra literária nos disponibiliza em sua existência e narrativa.

 

Para assistir a esse filme temos que ter em conta tais características de uma e outra narrativa. Aqui então, estaremos apenas nos deixando envolver por essa película cinematográfica, abstraindo da magnífica obra literária.

 

O filme nos mostrará uma bela e comovente história de amor e devoção que atravessa toda uma vida de espera. Florentino Ariza (Javier Bardem) e Fermina Daza (Giovanna Mezzogiorno) se apaixonam um pelo outro, quando ainda muito jovens. Um amor que contém uma delicadeza de intenções desde o seu aparecimento, costurado pela poesia.

 

Serão separados, pela ambição do pai de Fermina, o novo rico Lorenzo Daza (John Leguizamo) que a forçará primeiro a se ausentar, mandando-a para a fazenda de sua prima Hildebranda Sanchez (Catalina Sandino Moreno), em lugar distante e de difícil comunicação. Ao retornar estará já totalmente tomada pelas concepções de seu pai e terminará com Florentino e passando a aceitar a aproximação do preferido do seu pai o Juvenal Urbino (Benjamin Bratt) que é um médico que chega para combater a epidemia do cólera. Fermina acabará se casando com Juvernal Urbino e começarão então todas as aventuras e desventuras de Florentino enquanto aguardará silenciosamente um dia poder retomar seu amor por sua doce Fermina. Florentino conhecerá a relação com muitas mulheres que anotará diligentemente em um caderninho. Incapaz de se doar, por ter seu amor permanentemente ocupado por seus laços não desfeitos com Fermina.

 

A cena onde Florentino chora e adoece de amor no colo de sua protetora mãe, Tránsito Ariza(Fernanda Montenegro), é comoventemente bela. Esse filme é um convite para que pensemos no que chamamos de amor e no quanto o poeta Fernando Pessoa esteve certo quando disse que:

Todas as cartas de amor são

  Ridículas.

  Não seriam cartas de amor se não fossem

  Ridículas”.

 

Florentino nos traz o ridículo do amor em toda sua altivez, a convicção da obsessão do amor, não desistindo da espera, do seu sonho de tomar Fermina novamente em seus braços. Não foge da dor inominável da perda, enfrenta-a como um navegante desorientado em mar em tempestade.

A dor da perda do objeto de amor, daquele que em um entrelace entre realidade e projeção se torna o depositário do que J. -D Nasio irá nomear como o organizador das pulsões. "De fato, a ruptura de um laço amoroso provoca um estado de choque semelhante àquele desencadeado por uma violenta agressão física: a homeostase do sistema psíquico é rompida, e o princípio de prazer abolido".( J. -D Nasio – "A Dor de Amar)

Nosso protagonista logo entenderá isso,  no filme  encadeado de maneira quase poética: "O luto não é nada mais que uma lentíssima redistribuição da energia psíquica"(Nasio). Só poderemos nos entregar ao amor, se pudermos lidar com a existência da perda, não como algo onde morremos, mas o próprio caminho que permeia a vida. O que existe a cada passo que damos.

Florentino poderia ser visto apenas como um obsessivo compulsivo frente ao afeto, com certeza caberia essa leitura, mas nos parece que ela não daria conta de toda beleza e força de vida que há nesse personagem que irá para muito além da repetição, do aprisionamento compulsivo.

Nunca estamos tão mal protegidos contra o sofrimento como quando amamos, nunca estamos tão irremediavelmente infelizes como quando perdemos a pessoa amada ou seu amor'(Freud).  Acho essas frases notáveis porque elas dizem claramente o paradoxo incontornável do amor: mesmo sendo uma condição constitutiva da natureza humana, o amor é sempre a premissa insuperável dos nossos sofrimentos. Quanto mais se ama, mais se sofre”.(Nasio)

O chão do amor e dos vínculos nos remete à própria construção freudiana, a toda a complexidade fusional, onde união e desintegração, caminham sempre fusionados.

Essa dor o fará criar, viver aventuras, viagens, descobertas, em sua busca incessante de manter vivo dentro de si, o amor por Fermina. Em nome dessa dor e a partir dela, conquistará toda uma vida plena em fatos e acontecimentos.

Para Florentino a máxima de Freud(in “O Futuro de Uma Ilusão”) se aplicaria à reflexão:

"Meu amor, para mim, é algo valioso, que eu não devo jogar fora sem reflexão. A máxima* me impõe deveres para cujo cumprimento devo estar preparado e disposto a efetuar sacrifícios. Se amo uma pessoa, ela tem de merecer meu amor de alguma maneira. (Não estou levando em consideração o uso que dela posso fazer, nem sua possível significação para mim como objeto sexual...). Ela merecerá meu amor se for de tal modo semelhante a mim, em aspectos importantes, que eu me possa amar nela; merece-lo-á também, se for de tal modo mais perfeita do que eu, que nela possa amar meu ideal de meu próprio eu(self)”.

Florentino não é um homem charmoso, não é bonito, tem jeito e feições desprovidas de maiores atrativos, um certo ar de “bobo” compõe esse personagem tão brilhantemente construído por Javier Bardem. E serão exatamente essas suas características que o farão, ao longo do filme, se tornar um sedutor em relação às mulheres que atravessarão sua vida, inúmeras serão, em busca de algo precioso que ele guarda como uma jóia que está em consignação, penhorada, à espera da devolução.

Gabriel García Márquez teria dito que este é o livro que ele “escreveu com as entranhas”. E o filme não deixa de nos mostrar a profundidade contida nessa afirmação. Embora em alguns momentos nos arranque sorrisos ou ironias, nos faz pensar em amores perdidos e achados ao longo das nossas vidas. A fidelidade de Florentino ao amor que tem, que vai para muito mais além do que seja a Fermina, é uma fidelidade a uma escolha que fez e que passa a ser constituinte desse ser no mundo. Por e através desse amor ele construirá um homem com crenças e buscas, muito bem plantadas. Ensina, por outro lado, que pode investir parte do afeto em outras relações, mas mantendo intocada a relação de objeto que escolhe como a organizadora pulsional de seu aparelho psíquico.

Há um trecho interessante nessa obra de J.-D.Nasio citada aqui nesse texto, onde ele expõe a fala de um analisando frente a perda de sua mãe, talvez ela exemplifique muito bem o que abordamos aqui, diz:

Uma parte dela está desesperadamente viva em mim, e uma parte de mim está sempre morta com ela”.

A possibilidade dessa cronificação da dor afasta qualquer possibilidade de investimento amoroso construtivo e prazeroso. Florentino inverte essa lógica e faz da sua dor seu motor para a vida, passando o tempo enquanto espera Fermina, fará ligações intensas, viverá apaixonadamente aventuras desprendidas em busca de viver a partir dessa dor, não para ela, sem se deixar matar pela ausência, mas injetando vida nessa espera ruidosamente pulsional.

O que teria esse filme a nos ensinar hoje, na modernidade das relações, permeadas por hipocrisia, afastamento, desamparo, isolamento narcisista e desencontros?

Resta então a solidão da modernidade, o afastamento dos vínculos enquanto o caminho do amor e da construção fraterna. Seres solitários ou acompanhados padecem da capa da indiferença e do cinismo afetivo. O luto que a sociedade insiste em ver como algo a ser evitado, algo que queima tanto a visão quanto queima olhar para nossa condição incontornável de sermos seres com uma finitude determinada desde o nascimento. E que tudo na vida obedecerá a esse princípio, diferente disso só trará a estagnação, paralisia e adoecimento. Não há fluoxetina que possa apagar essa tendência que nos funda.

Se, ganhamos algo, com as modificações estruturais que hoje atravessam os vínculos, podemos ver que um deles, será exatamente a possibilidade de erguer o afeto acima das instituições.

Se a tecnologia avança cada mais em seu poder de destrutividade, avançará também em suas possibilidades de união fraterna? Perguntas irrespondíveis, pelo menos por hora. Podemos supor que o embrião dessa união fraterna nasce ali do vínculo que une dois parceiros em busca desse amor, apoiados em suas matrizes que os remeterão ao seu primeiro objeto de amor, igual para ambos, suas mães ou quem exerceu essa função. Dizem que os novos tempos trazem atrelados modelos de união perversa, isso dito naquilo que ela tem de mais cruel, a perversidade como traço. Será mesmo que isso é o que se dá? Ou poderíamos pensar em toda uma proteção perversa em relação a dor que as relações fast-food podem provocar em nossa instável organização pulsional? Fusão e desfusão, Eros e Thanatus, na balança que movimenta o ato da vida. Por outro lado essa instabilidade aponta e remete para a possibilidade de relações criadas e mantidas apenas por fortes laços afetivos, onde normas sociais, não serão mais a grande mortalha do amor. Esperança, tema que a psicanálise em alguns de seus setores tem voltado o seu olhar.*

Ao final do filme com a morte de Juvenal Urbino, após o enfrentamento dos ditames sociais que os manteria ainda separados, pela insistência persistente do nosso impagável personagem Florentino, encontrarão finalmente um os braços do outro, em um amor juvenil que atravessou décadas para finalmente se realizar acima das ordens e regras da sociedade da época. Belo encontro!

Mais do que de amor, esse filme nos fala de ideais, de busca movida pela paixão, fala da construção da vida em seus atos, que só terão sentido, só existirão, a partir da coragem de enfrentar perdas e danos e acreditar profundamente na força do desejo que nos faz ser quem somos, aquele que nos constitui desde antes de usarmos a palavra, a representação, àquilo que nos remeterá ao místico das pulsões.

 

*Artigo publicado no site apsicanálise.com

Obras citadas:

“ A dor de amar” - J.-D.Nasio

“O Futuro de Uma Ilusão” – S. Freud – Obras Completas