A Educação de Charlie Banks ( The Education of Charlie Banks). EUA 2007.
Eduardo J. S. Honorato (CRP 01/14074) - Psicólogo e Psicanalista, pós-graduado em Saude da Familia (UFSC) e Docência Superior (UGF). É Psicólogo Perito em Avaliação de Trânsito e Doutorando em Saúde Pública (Fiocruz), atua em consultorio particular e docência em Manaus.
Denise Deschamps – (CRP 05/09021) - Psicóloga com formação em Psicanálise, Socio-Análise e Clínica Infantil – IBRAPSI/RJ. Possui Formação em Psicoterapia de grupos. Atua como Supervisora Clínica em Psicanálise e em consultório particular na cidade do Rio de Janeiro, no bairro do Flamengo.
Traz no elenco Jesse Eisenberg, Jason Ritter, Eva Amurri, Chris Marquette, Sebastian Stan, Gloria Votsis. Direção de Fred Durst(da banda Limp Bizkit) em estréia de longa metragem, embora já tivesse dirigido todos os clips da banda.
O filme tem uma construção bastante interessante, leva-nos sem uma análise maniqueísta entre o bem e o mal, a conhecermos o fio que entrelaça a formação de uma personalidade. Entramos em contato com nossos lados conhecidos e desconhecidos, nossos freios, nossa permissividade que se irrompe contra as todas as regras sociais.
O personagem Charlie na verdade irá nos apresentar a Mick Leary (Jason Ritter), sedutor e violento, provocando em todos que entram em contato mais íntimo com ele, sentimentos ambivalentes bastante presentes, amor e ódio, fascínio até chegar à aversão, em uma alusão bastante eficiente do funcionamento dos ditames superegoicos em nós, àquilo que dita nossa convivência de maneira civilizada. Charlie representará toda a atração juvenil frente à quebra dessas regras e aos questionamentos quanto quais seriam realmente as que importam para nossa realização frente ao mundo. A sexualidade que irrompe agressivamente na adolescência levando a um questionar profundo quanto às normas a seguir. Qual o limite entre uma adolescência normal e algo que nos levaria à preocupações mais profundas? Onde encontraremos um psiquismo estruturando-se em seu desenvolvimento e onde estaria fragmentando-se e adoecendo?
Isto se mostra presente até mesmo na ambivalência desta relação, que perpassa pela admiração. Em determinados momentos é possível perceber uma relação de “irmão mais velho” entre Charlie e Mick, até que a realidade se mostra rígida e os traços perversos vêm à tona.
Inevitavelmente nos levamos a pensar na possibilidade de um Transtorno de Conduta, tão debatido e mencionado quando o assunto é menores infratores. Influencias do meio e ações necessárias nestes casos nos apontam sempre para o personagem Leary. Teoricamente sabemos que este transtorno pode preceder um Transtorno de Personalidade Anti-social. Nos recusamos, em determinados pontos do filme, a acreditar que isso seja possível, visto que Mick demonstra traços tão “humanos”. Claro que estes são limitados dentro das suas possibilidades de afetos.
O filme lança-nos à atmosfera dos anos 70, faz-nos viver o que a juventude da época trazia enquanto questões existenciais e de amadurecimento, uma verdadeira viagem na história da vida privada. Sem dúvida que foi uma década de revolução de costumes, quebra de regras sociais até então bastante sedimentadas, em uma alusão a algo que remeteria aos modernos debates sobre o afrouxamento da “lei paterna”. Um momento histórico em termos de movimentos sociais, com quebra de paradigmas e questionamentos que deixaram suas marcas até os dias de hoje. O contraste entre a classe alta americana e aquele deixado à margem, se desenvolvendo na hostilidade das ruas do subúrbio se faz presente.
Nesse vácuo de uma revolução de costumes, encontraremos nosso personagem narrador, Charlie, e por outro lado nosso foco que se desvia dele durante o filme e vai para Mick. Dessa forma, essa apresentação deste roteiro coloca-nos frente a questões bem singulares que nos atravessam desde a infância na elaboração e escolha de caminhos. Algumas questões de grupo e adolescência nos remetem novamente a Charlie e sua timidez quase patológica, sempre evitando qualquer contato mais proximal.
Charlie passeia entre a culpa em direções opostas, tanto a de se confrontar com Mick, quanto a de aproximar-se fascinado por seu comportamento. Entre a delação inicial e a amizade que se constrói entre eles por um breve período quando Charlie ingressa na faculdade.Essa aproximação faz-nos pensar em muitas das situações vivenciadas durante a adolescência, onde os ensinamentos familiares confrontam-se muitas vezes com as exigências para ser aceito no grupo onde tentam inserir-se. O contato com comportamentos mais agressivos, sexuais, a entrada da experimentação quanto a substâncias entorpecentes lícitas ou ilícitas, o bullying, os grupos adolescentes e jovens, a transgressão como forma de expressão, tudo isso é uma mistura que encontramos em maior ou menor grau na passagem pela adolescência/juventude.
Um dos pontos positivos deste filme está justamente no aspecto de nos aproximar dessa sedução que a transgressão exerce e levar-nos a pensar onde reside o limite do desvio que gera atos antissociais. O personagem Mick exerce sobre o grupo um fascínio inicial que transporta para a vivência dos questionamentos que já passamos em épocas de desenvolvimento e pelos quais passam a juventude até nossos dias. Hoje, temos uma flexibilidade em comportamentos que na década de 70 era algo bem menos presente, mas se tivemos algumas modificações que podemos enxergar como benéficas, teremos por outro lado, tantas outras que ainda merecem reflexões e aprofundamentos. A mistura de culpa e fascínio que Charlie nos apresentará durante todo o filme, seu embate entre suas crenças éticas, herança de uma moral paterna que aconselha e orienta, e seu fascínio pelo modelo que transgride e que leva à aceitação em determinado grupo.
A maneira de se relacionar e estabelecer vinculo de Mick é tão patológica que chega a convencer aqueles que assistem ao filme, despertando em nós a mesma ambigüidade que desperta nos colegas de aventura. O chamado “bicho papão” de Charlie se defende atacando. Sua história nos mostra os motivos pelos quais sempre se defendeu através da agressividade, não conhece outra forma de relacionamentos.
Ao final do filme, pensamos que nossa análise terá que voltar-se a ele, e vai aqui algum nível de spoiller, mas Charlie ver-se-á confrontado e confortado pela palavra que aparece como “compaixão”, talvez ali em uma dinâmica muito imbuída de certo nível de identificação projetiva. Em nossa análise, diríamos que mais do que compaixão, houve ali, no desfecho entre a relação ambivalente(ou mesmo bivalente) entre Charlie e Mick, um jogo que nos remete a própria ambivalência que temos frente ao sentimento de ódio em relação a algum objeto também amado. A morte sublinha isso de maneira bastante evidente, Freud nos fala disso em seu magistral texto “Luto e Melancolia”. Seremos capazes de apenas amar a um objeto, seremos capazes de apenas odiá-lo? Esse filme e seu desfecho, sem dúvida, nos traga de maneira intensa para esse questionamento.
Quanto ao que versa sobre a construção de uma personalidade anti-social, esse filme representa um estudo bastante ilustrativo, pode e deve ser utilizado para questionamentos que versem sobre o tema. Mick traz em sua trajetória, apesar dos poucos elementos que nos são contados no filme, todos os fatores que estatisticamente apontam para o desenvolvimento desse transtorno de caráter.
Podemos ver, pela época em termos de cronologia, tudo que remete ao estabelecimento de um quadro que poderá ser visto como de comportamento anti-social. Sabemos que antes dos dezoito anos apenas lidamos com fatores que são considerados indicadores e que somente após essa faixa etária um diagnóstico de sujeito anti-social poderá ser colocado. Inferiríamos talvez aqui o quadro mencionado no início, de Transtorno de Conduta. Temos também demonstrado no filme, em torno desse personagem Mick, as variadas características das “mariposas” que costumam serem atraídas pela “luz” desse jogo de sedução proposto pela dinâmica relacional em seu manejo perverso. Ao longo de todo o filme não podemos deixar de identificar toda a psicodinâmica de um perverso, com seus mecanismos de defesa e relação objetal tão característicos.
Resulta, então, como bastante interessante, essa relação complexa que se estabelece entre Charlie Banks e Mick em seu processo de desenvolvimento, vemos como os personagens se tocam desde a infância, coincide o filme com as cenas mais remotas justamente ao período que pensamos como o relativo à construção dos ditames superegóicos, interessante detalhe, sem dúvida. Faz-nos pensar no nível de aceitação individual e social dos impulsos agressivos e sexuais que nos são inerentes.