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A Educação de Charles Banks
Amor em Tempo de Cólera
A Letra Escarlate
Cheri (2009) - Pensando a vida de olho na telona.

Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps

Para iniciarmos nosso texto sobre esse filme, devemos informar que ele não foi uma produção consagrada pela crítica ou pelo público, passou meio despercebido, mas que vale muito ser visto. Sua pouca fama, pensamos não lhe tira em nada o brilho. Mistura um olhar que pode parecer apenas narrativo, mas que visto com mais cuidado, perceberemos que toca em reflexões bastante difíceis e meio que varridas para os cantos das emoções, e sobre as quais falaremos um pouco aqui.

Dirigido e tendo como roteirista os mesmos nomes do filme “Ligações Perigosas”, traz de volta Michelle Pfeiffer, além do elenco composto por Rupert Friend, Kathy Bates, Felicity Jones, Frances Tomelty. Baseado no livro de 1920 da famosa escritora francesa Colette.


“Chéri”(2009), um filme trazendo, bela em seus cinquenta anos, a atriz Michele Pfeiffer, e onde poderemos assistir, muito claramente, segundo nossa concepção, a uma obra de delicada direção, chegando a ser autoral, levando a retomar a questão da assinatura que uma direção pode conter, porque propõe uma leitura bem original da obra de Collete. Sugerimos, dentro da nossa proposta de filme como “dispositivo”, que ele poderá ganhar um contorno maior, se visto depois a outro muito antigo, o clássico “Retrato de Dorian Gray”, que conta com inúmeras refilmagens e que teve sua versão mais famosa até hoje na de 1945. Realizado a partir da obra homônima de Oscar Wilde,  que é considerada uma dos maiores obras em clássicos da literatura universal, estreou nesse mesmo ano de 2009 uma refilmagem dirigida por Oliver Parker que não foi bem aceita pela crítica especializada. Os dois filmes tocam na questão do envelhecimento e trazem o feminino e o masculino frente à mesma questão, mas tocada de forma absolutamente diferente, levam em conjunto a uma reflexão acerca da sociedade na qual vivemos, e não somente a da época ambientada pelas obras, mas a de hoje, onde ser jovem, continuar jovem, torna-se um ideal de todos, todo tempo, meio Dorian Gray, meio Cheri, meio Lea. A beleza que fundaria a noção de ética, transportada por um e outro de maneira absolutamente diversa. Podemos pensar em como “Dorian Gray” teve um quê de visionário no sentido de antecipar uma ordem social no porvir, Oscar Wilde já se propunha a trazer para o debate as questões que envolvem a o que construiria a alteridade, a estética, a arte, tocando no mito de Narciso tão relembrado na atualidade. A aproximação em Fausto, desse pacto diabólico que atravessa a formação do sujeito.  Esse ideal que mais do que nunca tem sua pesada mão lançada sobre o feminino, que se encontrava em ascensão na luta pela isonomia na década de 20 do século XX. Autonomia que ainda hoje pode ser a ela usurpada.

Beleza, amor e juventude formam um amálgama no ideário coletivo. O amor é jovem, a solidão é velha. O charme da meia idade uma qualidade masculina. Procura-se a idade da loba com olhos de coruja.  Amor romântico não rima com rugas, flacidez, desbotamento. Passado o tempo, abre-se mão de muitas coisas, mas a jovem que grita de dentro de todas as mulheres, continua prisioneira e ainda sonha com o príncipe, com o abraço envolvente e o beijo quente. O túnel do tempo inexistente lista vivências passadas, amores perdidos, o tédio existente, só ou acompanhada. O rádio toca uma canção de amor, alimentando a fome, fabricando desejos. A caixa de lápis de cor que são vendidos sem que seja informado que a grande maioria deles, encontra-se quebrado, e que a cada vez que apontado o lápis, cai inútil a cor, e muitas vezes se pinçará a ponta caída, com malabarismos, tentar-se-á colorir o desenho, e somente com muito esforço e habilidade, algo será tocado. Filosoficamente o velho embate entre razão e emoção, às vezes tendo essa última como o esteio da opressão ao feminino. Restam solitários e desiludidos homens e mulheres, como Lea e Cheri.

A Lea, protagonizada por Michelle, falará disso, dessa habilidade feminina de se fazer bela, amada e desejada, poder da mulher cortesã na década de 20. Mas, lembrará também, que o toque do tempo é um senhor cruel, e Chéri será aquele que trará a dura sentença à Lea. No final do filme a fala de que talvez Lea se entristeça por haver nascido tantos anos antes, deixa ao espectador a ilusão de que uns anos a mais em sua certidão, e o amor seria uma possibilidade. Ah Dorian Gray e suas possibilidades, homem que faz laços em torno de sua eterna juventude. Talvez aí remetendo ao poder diabólico do patriarcado. Se à mulher cai com peso a dura mão do tempo, para o homem fica escrita a impossibilidade de amar, seu objeto deverá ter sempre um frescor do novo, aqui na representação da juventude de sua jovem esposa, nova posse, que na vida representa a eterna busca masculina. À mulher sexual, resta a margem, a diversão passageira. Ao Cheri resta a certeza de que o amor não pode existir em sua continuidade, que a vida chama aos deveres onde não cabem as ilusões. Termina ele no suicídio, talvez da própria virilidade, também perda cruel que um dia bate à porta do homem. Desencontros que marcam a busca da fuga da certeza do “Encontro Marcado” com Thanatos, senhor de todos.

O amor como a busca pela felicidade e pela liberdade, marca momentos preciosos, porém sempre inefáveis e efêmeros. Mas se o tomamos como meta quase inalcançável, ao mesmo tempo será sempre como um resumo de tudo que faz com que nos movamos no cotidiano. Freud já colocava como duas principais fontes tanto de prazer como de sofrimento, o amor e o trabalho. Na sublimação, o próprio amor ao trabalho realizado, como vemos na febre incontida da criação artística em todas as suas manifestações. A arte que retrata o sujeito em sua época e vence o tempo como expressão da essência humana.

Nem Lea e nem Cheri guardam em si o amor ao trabalho, ainda vivem em um tempo onde o ambicionado toque da aristocracia era dado pelo ócio, o “dolce far niente”. A burguesia ascendia aos poucos trazendo com ela o valor do dinheiro adquirido pelos próprios esforços. Os burgueses como os capatazes da industrialização. As mulheres tinham lugar definido nessa distribuição de riquezas e Lea vem da margem onde esse feminino, via o uso do corpo, buscava o dinheiro. Por isso mesmo as cruéis marcas do envelhecimento vivenciadas como menos valia a colocam tanto em sua angústia. Sua beleza havia demarcado sua subjetividade e seu lugar social, fortuna feita pelos dotes dados pelos sucessivos amantes. Dura a sentença de que o amor é sempre pago de alguma maneira. Lea do Chéri talvez seja uma personagem bastante contemporânea, porque ao amá-lo, abrirá a carteira, recheada pelo fruto de seu ofício feminino, como é hoje a realidade de muitas mulheres brasileiras ou de uma maneira geral para muitas ocidentais. Existirá mesmo o tal amor romântico, ou será ele apenas o colorido que damos à necessária negociação para formação dos pares? Embora seja um filme pretensamente de amor, é duro em suas colocações.  A mãe do jovem Chéri, interpretada pela brilhante Kate Bates, bate duramente sobre essas teclas, seu humor ferino machuca aos idealistas do amor, não deixa margem para ilusões. Ao final, amor é o enfeite que damos as necessidades oriundas das pulsões querendo uma realização, o corpo invade a cena, mas traz a marca do social nomeando-se de amor, e a partir desse sentir veremos a formação das parcerias, onde mais do que nunca, a civilização faz valer suas normas. Romper barreiras como diferenças de classes sociais, cor da pele, etnia, verniz da cultura, idade etc não torna o amor aquisição nada mais fácil.

Se pensarmos neste sentimento romântico somente a partir do ângulo da racionalidade, veremos que ele mais aprisiona que liberta, muito embora, saibamos que, a euforia da paixão deixe sempre margem para um sentimento de liberdade e ousadia. Nesse sentido que ousamos pensar aqui, talvez Marques de Sade tenha sido mais libertário do que Emile Zola. E ainda, talvez, esse filme noticie como uma carta à Collete, autora do livro, de que o lugar do feminino ainda encontra seus espartilhos quando aprisionado a um ranço do romantismo, atualizado em modelos de parcerias empresariais, otimizadas pelo espetacular dos anos que iniciam esse novo século. Mulher livre para amar à moda antiga, onde a cultura falocêntrica ainda amputa de forma misógina a plenitude de sua expressão.

O fato é que Cheri representa o próprio ideal da juventude, perseguida através dos tempos, em fábulas que contam a busca pelo “elixir”, talvez uma forma de encararmos a questão da finitude da qual temos consciência e que as marcas do envelhecimento são um lembrete incontornável. Essa consciência da morte que marca o sujeito psíquico, essa coragem de viver a vida, mesmo sabendo de sua efemeridade.  Lea leva-nos à reflexão desse desejo que não cessa, cada vez mais trazido ao debate pela longevidade que alcançamos, de forma ainda mais marcante neste passado século XX. Hoje podemos pensar que sempre é tempo de começarmos alguma coisa. Sempre será tempo, até aos acordes finais, para que busquemos em nossa máquina pulsional sentidos para o cotidiano das realizações. Não é mais tema varrido pro esquecimento a sexualidade do sujeito em fase de envelhecimento. A indústria farmacêutica investe em pílulas que produzam no corpo a resposta que sexualidade ativa requer. Pesquisas em fecundação alongam em tempo a possibilidade da concepção.

Quando ao final do filme, Chéri se dá conta, olha, a “mulher velha”, vemos representado na imagem o próprio desinvestimento que todo amor está fadado a viver, seja de que forma for, seja por qual motivo tiver construído seu processo de idealização. A tomada da cena é de uma beleza poética, cuidadosa,  a corajosa Michelle, se debruça envolvida por Lea, muito longe da bruxa má da Branca de Neve. Seu espelho revela, outrossim, uma doce aceitação, uma potente resignação ao tempo, senhor de todos nós.

A marca da impossibilidade da duração da paixão, o lembrete que o que chamamos de amor está fundado em premissas dos laços sociais, hoje, bem menos opressoras, mas ainda assim, marcantes. Terminamos de assistir ao filme com a inevitável pergunta: e se Cheri e Lea permanecessem juntos, qual seria o destino dessa relação? Marcados pela impossibilidade, seguem na desilusão que alguns querem acreditar ser a única via do sujeito. Mas, talvez, seja a hora de perguntarmos se essa concepção de sujeito não teria que dar margem à resignação da alegria, daquela que é possível, da que comemora a vida mesmo com todas as suas impossibilidades. É a temática da alegria que revoluciona, porque traz a marca do possível, daquilo que podemos efetivamente realizar, do afeto que busca o objeto, mas traz em si a essência do ser que busca, da pulsão meta, desviante ou direta, a que efetivamente existe, que não se abraça somente à melancólica perda.

Aprendemos desde cedo que perdemos algo no caminho à alteridade, o primeiro objeto de amor, a tão investida mãe, que é vista pelos olhos dependentes e amorosos do bebê. Crescemos, sem deixar de desejar, aliás, porque desejamos, crescemos. Os laços amorosos renovam-se, começam e findam, a busca se dá enquanto esse ser vivo, vive. Esse filme mostra um pouco dessa busca, e reflete de forma bastante lancinante sobre as perdas que enfrentamos pelo caminho, e da beleza que nele pode estar contida. Toda a ambientação que nos é apresentada é de uma beleza imensa. Lea em sua explosiva presença serve como nota de que “é melhor ser alegre que ser triste...”, mas que também “é preciso um bocado de tristeza...”. Revolucionar-se até o fim, talvez seja a eterna juventude que é possível.

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