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| Cisne Negro (Black Swan – 2010)Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps E lá vem ela, a sociedade espetáculo despida em Nina, vestida de Cisne Negro, e destituída, pacificada, pela ausência de sua ambivalência. A platéia delira, esquece que para chegar à beleza desta cena, o tombo foi inevitável, é preciso conhecer o chão, talvez em seus aspectos de profundeza. Doce menina, sweet Nina do espelho quebrado, de forma bem diferente de Alice em suas maravilhosas aventuras. Destino feminino, perfeição do gesto, pele que incomoda, quase a pedir para ser despida.Intenso, denso, confuso, angustiante....de tirar o fôlego. E estréia no Brasil o comentadíssimo filme “Cisne Negro”, levando com grande expectativa milhares de espectadores às salas de cinema. Tratamos aqui nesta coluna de lançar um olhar sobre variados filmes a partir de leituras orientadas pelas construções da psicanálise, sem dúvida que esta é, e sempre o será, uma tarefa instigante, complexa e que resultará incompleta. É exatamente neste ponto que lançamos um desafio. Pensamos que ao fazermos isso erguemos “provocações” para que outras leituras possam ser construídas por afinidade ou discordância. Mas, o que em verdade tentamos trazer a partir daqui, será a proposta de utilizarmos um filme como uma possível ferramenta de mobilização e facilitação de trabalhos do campo psi, e isso abrange mais do que a clínica como já tivemos oportunidade de pontuar em outros textos.Não somos críticos de cinema e sequer especialistas em comentar todas as nuances técnicas da sétima arte, escolhemos filmes onde reconhecemos uma potência considerável em mobilizar emoções, não necessariamente serão os filmes onde a análise de um crítico de cinema verá as melhores atuações. Não privilegiamos circuitos, mas sim uma forma de linguagem cinematográfica que toque um maior número de espectadores em suas emoções mais profundas e necessárias. Pode ser um filme dos chamados de grande bilheteria ou alguns que correm paralelos nos chamados circuitos alternativos ou cults.E vem aí um dos prêmios mais comentados pelos amantes do cinema, concordando ou não com as indicações e premiações se torna impossível não prestar a atenção à entrega do Oscar. Que filmes terão atraído mais os olhares deste circuito da crítica que avalia a partir de inúmeros aspectos, privilegiando os técnicos? Serão estes filmes concorrentes aqueles mesmos que mais promoveram polêmica e aceitação por parte do público? Sabemos que nem sempre se dá uma sintonia entre prêmios e grande público, embora a procura por parte do público, aquilo que chamamos de bilheteria, seja um dos aspectos que conta muito.Natalie Portman que veste a pele da personagem Nina em “Cisne Negro” é/era uma forte candidata ao prêmio de melhor atriz. Sem dúvida merecerá/ia levar pela beleza e intensidade que imprimiu a sua personagem. A presença de Nina garante as mais intensas emoções, chegando a tocar o corporal do espectador. A respiração aumenta e diminui e assim como em determinado momento no filme, o diafragma contrai-se pela tensão crescente, acompanhamos em angústia a personagem. A utilização da técnica das seqüências de cenas em velocidade acelerada pela direção de Darren Aronofsky, aumenta a entrada na atmosfera tensa do filme, coloca também desta forma uma lupa na beleza das cenas. O olhar entre frágil e feroz de Nina nos toca. Uma dança que pulsa com a força que tem a música de Tchaikovsky, bela síntese da história do homem frente suas demandas pulsionais. Sem dúvida esse filme traça todo uma trajetória teórica naquilo que de mais indomável habita-nos, a força da sexualidade e da agressividade. Não há como fugir da concepção freudiana ao nos deixarmos invadir por esse filme. A morte toca, a ambivalência presente nos vínculos objetais, e deixará impressões profundas pelas cenas muito bem encaminhadas, se tomarmos esse sentido. Vemo-nos, envoltos em uma ambientação muito próxima a um sonho de angústia, o coração acelera frente a algumas tomadas, mais uma vez contração e respiração que oscila entre hiperventilação e suspensão. Há em muitas cenas uma perceptível excitação, o corpo do espectador de alguma maneira é tocado por esse filme, assim como uma brisa que passa desavisadamente pelos cabelos provocando um leve arrepio.“A única pessoa em seu caminho é você mesma” diz Thomas Leroy (Vincent Cassel), diretor da versão inovadora que pretende para o Lago dos Cisnes. Quer ver em Nina o aparecimento do Cisne Negro, e Nina tomada pela idéia de perfeição, travará uma dura batalha contra si mesma, encontrando no caminho a complicada e ambivalente mãe(Barbara Hershey), dominadora e repleta de intensas projeções aliada a uma inconsciente disputa com sua filha. A cena da comemoração com o bolo, evidencia isto de maneira ao mesmo tempo sutil e cruel. No clímax do filme a mãe desesperada perguntará: “- Onde está minha doce menina?”. Ao que Nina responderá em um novo tom de voz, agressivo e intenso: “- Ela se foi!”. Chegará até a ela a força bruta, destrutiva. Em uma leitura meio nonsense de Freud, Thanatos bem que poderia ser representado em uma bela mulher, une femme fatale. Mas voltemos à Nina. Uma pessoa dominada pelo controle, perfeição, tanto no interior quanto no exterior. Sua rigidez vai até na disposição de seus objetos, passando pelos cabelos e impecáveis movimentos, treinados até uma exaustão impossível de se acompanhar visualmente. Ouvimos muitas tentativas de compor diagnósticos para nossa conflituada personagem, embora esse seja um exercício quase impossível, fica configurada, como alerta dado pela sua figura espelho, a personagem Lilly (Mila Kunis), perguntando-lhe se não estava surtada com o posto de primeira bailarina. Tantos teóricos apontam para o borderline como o diagnóstico que fala de clínica contemporânea, talvez Nina represente a todos nós o potencial dessa acepção. . Uma investigação mais detalhada nos apontaria a comorbidade com um transtorno alimentar, além dos sintomas psicóticos e de auto-mutilação apresentados na trama. Cenas tão intensas e vivenciadas em primeira pessoa, que dão a sensação de incompreensão e confusão naqueles que assistem. Vivenciamos o corte da realidade junto com a personagem.Nina passeia em risco entre a visão da realidade interna e externa, acaba perdendo-se em seus emaranhados. Para nascer, no corte da negociação egóica frente a sua relação ambivalente com o objeto materno, para dar vazão ao seu Cisne Negro, Nina ataca seu Cisne Branco, ataca-o como se fosse ele o Cisne Negro, projetando-o em Lilly, mas ao final, totalmente em identificação projetiva, é seu corpo o que sangra e o que salta para a morte. Sorri atingindo a ansiada perfeição, o que vale é a exposição. Palmas e ovação vindas da platéia. Há um toque sereno no sorriso final de Nina. Apaziguadas as fortes oposições no teatro do corpo. A personagem quase invisível de Winona Ryder, a destituída primeira bailarina Beth MacIntyre remete Nina a sua construção da inveja como caminho de sua identidade, talvez aí tomando o caminho inverso da sua relação materna. Nascida de uma bailarina frustrada que despeja sua expectativa em relação à filha, sweet menina, os seus anseios de realização, e que ao mesmo tempo, pela veia da inveja, tenta impedir o crescimento e a transformação dessa menina em mulher, é preciso o Cisne Negro da agressividade e sexualidade para construir um caminho de libertação para Nina, que aprende o gozo, toma posse do corpo, em uma clara representação de sua ambivalência, cuidado e ataque. As cenas são um tanto chocantes, podem levar a uma certa repulsa e clara angústia. Seria o caminho do masoquismo a construção do feminino em sua potência? Dependendo da linha que tomemos essa será uma pergunta de muitas respostas possíveis. Nosso corpo conhece “a dor e a alegria de ser o que é”. Vamos entender aqui feminino como algo que suplanta a questão de gênero, como propõe Joel Birman em seu livro Mal Estar na Atualidade, nos diz o autor que todos nós, homens e mulheres, tememos esse feminino, visto nele a castração, como o lugar da morte e da ausência. Seria a partir deste lugar que, “colocado nessa posição limite, entre a vida e a morte, o sujeito pode constituir efetivas possibilidades de sublimação e de criação, pela construção de uma forma singular de existência e de um estilo próprio para habitar seu ser”. Nina toca fundo nesta ferida. Não é um filme fácil de ser assistido, podemos encontrar nele traços de direções que foram consagradas pelos seus toques do “estranho”, mas como falamos aqui no início deste texto, são exatamente esses filmes, os que tiram o fôlego, que mexem de alguma maneira com o imaginário do espectador, que mais nos interessam em nosso projeto. Talvez um pouco no caminho de um resgate do velho Freud do início, aquele que tinha potência plena, sem o receio do inusitado, o velhinho estóico que descreve Peter Gay, aquele que no final da vida, ele mesmo resgata, como seu próprio Cisne Negro, lançando para a posteridade seu Moisés e o Monoteísmo.Saindo do cinema acompanhados de Nina e do Cisne Negro de cada um de nós, o corpo tocado indelevelmente, algo se transforma, algum caminho poderá ser aberto, talvez quem sabe em um mais belo pas de deux com a vida. Há tanta intensidade no Cisne Negro de Nina, que ele nos choca, leva ao êxtase, ou como disseram alguns: intoxica, mas talvez com o mais puro oxigênio. Como filme, talvez deixe a desejar, como disseram os mais críticos, mas como um potencial de emoção, tira o fôlego. Ou ainda, no caminho sublinhado com um resto de esperança, possamos dizer como Birman: “Somente assim o sujeito pode traçar na carne o seu destino singular, pela construção de um estilo de existência”. Dançar é preciso, talvez com um pouco mais de Eros. |  |
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