Crepúsculo(Twilight- 2008)
Por Eduardo J. Honorato e Denise Deschamps
As salas de cinema em todo país se tornaram agitadas pela entrada em cartaz da continuação dea “Crepúsculo” (Twilight- 2008), o filme “Lua Nova” (New Moon, 2009). Filas se organizavam na expectativa de assistir mais essa película cuja direção é agora assinada por Chris Weitz e Melissa Rosenberg. Bateu recordes de vendas antecipadas e invadiu a mídia especializada na temática por semanas.
Vamos retomar o primeiro para tentar entender quais aspectos sublinha, e de tal maneira, que deixa anunciado esse segundo com essa grande demanda, significativa.
Esse filme, assim como já vimos acontecer com outros que evocam de alguma maneira elementos simbólicos, que apreendemos apenas em parte pelo mergulho inconsciente que representam, como é o caso do "vampirismo", morte, relações de poder etc, veio provocando debates e uma certa agitação. Costumam filmes assim construídos, mobilizar afetos que permanecem ligados a extensas cadeias representacionais, ou seja, se ligam a inúmeras idéias que construímos ao longo da vida, investidas por elementos bastante pulsionais.
“Crepúsculo” foi baseado no livro de Stephenie Meyer. Estreou no Brasil em 19 de dezembro de 2008, tendo sido lançado anteriormente nos USA, em 21 de novembro do mesmo ano. Dirigido por Catherine Hardwicke. Traz no elenco Kristen Stewart como Isabella Swan, Robert Pattinson como Edward Cullen e Taylor Lautner como Jacob Black, entre seus principais personagens.
A lenda do vampirismo foi e é ainda, bastante contemplada pelo cinema, até mesmo por grandes diretores como Roman Polanski que já abordou esse tema no magnífico “A Dança dos Vampiros” (The Fearless Vampire Killers, 1967) , com seu personagem irreverentemente vampiresco o Conde Krolock, filme esse que consideramos que antecipa algumas das grandes questões que hoje se discute em torno desse sujeito contemporâneo, ou pós-moderno e sobre aqueles que o estudam, despertando entre uma incredulidade e uma aproximação perigosa com o objeto estudado, como se dará com nosso atrapalhado pesquisador representado pelo próprio Polanski, o professor Abronsius.
Antes de qualquer outro filme, teremos o clássico “Nosferatu” (com o vampiro Conde Orlock), obra do ainda cinema mudo de F. W. Murnau (1922). Outros grandes filmes também marcaram esse tema como o “Entrevista com o Vampiro”(The Vampire Chronicles, 1994), do diretor Neil Jordan. Temos ainda os clássicos que consagraram o ator Bela Lugosa, que personificava o Conde Drácula de Bram Stocker que escreveu seu romance sobre ele em 1897. Depois dele teremos aquele que lançou de vez nosso olhar entre amedrontado e seduzido para essa lenda, o ator Christopher Lee, muitos foram os filmes que protagonizou com esse personagem, marcando toda uma época e trazendo fortemente a questão da sedução vampiresca, colocando-nos de frente com a sedução que amedronta e excita.
Falar sobre o personagem do vampiro no cinema pode render extensas considerações que nos levariam até mesmo ao nosso nacionalíssimo Zé do Caixão, mas aqui não estamos empenhados nessa tarefa, voltemos então ao nosso filme Crepúsculo, inserindo-o no contexto de agora, e vejamos um pouco dessa grande sedução que tem provocado em todos nós, lotando inúmeras salas de cinema.
Quando pensamos em vampiros logo três carregadas questões nos vêm a mente: sexualidade, agressividade e morte. Isso já nos remeterá ao que dissemos anteriormente sobre extensas cadeias representacionais que em sentido inverso de leitura nos levariam até o mais remoto conteúdo das pulsões, ou ainda daquilo que se constitui dentro do aparelhamento psíquico como o recalcado.
Crepúsculo já nos provoca de cara chamando para um retorno a um estado juvenil, nos coloca ali onde nos deparamos com a sexualidade emergindo com força do desejo genital, da busca de parceiro(a). Cada um irá para o caminho desses encontros, geralmente uma sucessão em termos de busca, munido de modelos que remetem lá para suas vivências edípicas, calcados nas imagos parentais, na busca do objeto ideal de investimento, agora como uma progressão daquelas primeiras vivências em investimento, que em última leitura, nos remeterão sempre ao primeiro objeto de amor, igual para ambos os gêneros: a mãe(ou quem exerce essa função), nossa matriz do amor. Nesse caminho encontraremos as marcas que denotarão a diferenciação entre construir um ideal de ego ou uma fixação ao chamado ego ideal. A adolescência é rica em seus questionamentos, inunda o mundo com sua construção de ideais, altamente catexizados e que buscam se afastar do modelo do chamado mundo adulto que em seu movimento de busca de autonomia, via de regra, costumam desprezar. A tudo isso “Crepúsculo” nos remeterá.
O belo casal que protagoniza o filme, Edward e Bella, nos remetem ao apaixonamento característico da adolescência, começa pela relação à distância, uma certa dose do chamado “amor platônico” que faz parte dessa fase de desenvolvimento e segundo muitos teóricos prepara para uma relação objetal mais saudável, há que se passar por ela, e em parte isso explicaria a febre que Robert Pattinson (Edward) provocou no público adolescente, torçamos para que elaborem e façam a passagem para as relações reais.
No filme, apesar de toda diferença existente entre eles, Edward e Bella se aproximam, passam para a tentativa de proximidade corporal, a que pode ser realizada. A conversa inicial de Bella e Edward traz uma beleza indescritível, ela em busca da verdade para poder confiar, ele assustado com a possibilidade de ser rejeitado por ela por sua condição(qual adolescente não traz esse medo?). Todo revelar-se dele só faz ganhar a aproximação de Bella, linda a mensagem para pensarmos nas máscaras relacionais. A cena da revelação à luz do sol é encantadora pela singeleza.
Interessante no filme a questão de Bella abandonar sua relação com sua mãe para que essa possa ter sua relação amorosa, na aproximação com o pai, que traz nesse caminho a aproximação com o amor por Edward, poderemos ver o traçado da dissolução do Complexo de Édipo de uma forma muito bonita. Levanta muitos pontos para o debate, se visto por uma ótica freudiana.
Esse amor juvenil total emociona, a todos, e transporta os que já fizeram sua passagem para o mundo adulto, para um encantamento que, de alguma maneira, guardaram em algum canto do seu ser, muitas das vezes atuando-o em determinados contextos ou momentos de vida. Mas, sem retirar o encanto do filme e sua proposta, devemos pensar nas sérias questões que uma relação marcada pela ausência de diferenciação pode trazer, os amores passionais que muitas vezes terminam em tragédia ou adoecimento, pensar na co-dependência que se torna cada vez mais um quadro preocupante e que merece atenção. Sabemos, também, que quem já compartilhou de uma relação de vampirismo psíquico no mundo real, longe das telas dos cinemas, tem a exata noção que no mundo real os vampiros estão muito mais para James(Cam Gigandet), do que para Edward e que toda relação onde se morre em detrimento dela, o tornar-se sujeito sem vida, sujeito sem desejo, não faz da vida algo nem um pouco mais doce ou mais “Bella”.
Mas, afinal, em “Crepúsculo”, ficaremos com a história de amor das telas cinematográficas, dos contos de fadas, onde se perder no outro poderá até parecer romântico e tentador, porém tome cuidado ao sair do cinema, ali mesmo na esquina um James vampiro rastreador e predador, poderá se apresentar disfarçado de Edward e pronto para “caçar sua comida”, no ataque canibalístico que deveria ser contido(barrado) em toda relação, e que assim poderia representar tudo que constrói o amor em sua versão mais positiva. Sabemos que ele, o vínculo amoroso, assim inscrito na vida real, se tornará bem menos atraente, sem grande gestos, apenas se mostrando no cotidiano, na meta diária alcançada de amar sem destruir, possuir sem ter, desejar sem matar a alteridade do objeto amado. Um bom lembrete, então, para as relações contemporâneas que cantam letras de música onde o “eu te devoro” toma aspectos de um ideal, relações segundo muitos teóricos, marcadas pelo narcisismo, por um traço perverso que atravessa os vínculos na atualidade. As conversas de Bella com seu pai quando fala de sua mãe nos levarão, também, a importantes pontos de reflexão nesse aspecto.
Os vampiros “vegetarianos” são uma sacada muito genial que veremos nesse roteiro, a quebra da paralisante dicotomia bem e mal que de alguma maneira se encontra no cerne da discussão sobre esse homem inscrito na pós-modernidade, detalhe que faz pensar, a noção de grupo que se vê na família Cullen, os aspectos do ideal que constitui a própria sobrevivência, grande lembrete. Esses vampiros que passam a lutar, contra outros, em defesa de seu novo membro, a mortal Bella.
Acende-se a luz do cinema, e ainda tontos do filme, com um sorriso no rosto devemos lembrar que se deve cuidar bem do amor, e, que todo amor começa no grande encontro consigo mesmo, no suportar a angústia do desejo, na tomada de consciência que cada um, é um inteiro, atravessado pela falta que nos constitui enquanto seres capazes da busca, ligados pelo que Eros agrega, marcados para ação pela quebra permanente que Thanatus nos trará, não há completude possível. Edward oferece à Bella a relação não igual, marcada pela vida inscrita no envelhecimento e finitude. Mas, fiquemos atentos porque vem aí “Lua Nova”, para nos fazer pensar, novamente, em quais seriam os limites saudáveis para um investimento no tão desejado vínculo amoroso.
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