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Fazer o Outro Nascer para Si mesmo
2012/01/25 22:07:27
“...'fazer o outro nascer para si mesmo'. Digamos que um analista que ignore sua própria dor psíquica não tem nenhuma chance de ser analista, assim como aquele que ignora o prazer - psíquico e físico - não tem nenhuma chance de continuar sendo analista”.
(Jean-Bertrand Pontalis - Entre o sonho e a dor)

Pensar o caminho da análise como algo que se constrói enquanto no que é o essencial da vida, o vínculo, mesmo que isso se dê plantado no chão especial do par transferencial. Há que existir no sujeito analista um sujeito desejante, que não tenha ele mesmo, se tornado totalmente ou parcialmente incapacitado para lidar com a própria potência que o move em seu mundo, incluído nele, seu setting onde executa a tarefa analítica.

Ser um psicanalista implica em algo muito mais abrangente do que o de apenas sentar-se na poltrona e fazer o seu trabalho, naquela escuta atenta e imbuída de um conceito de afeto bastante complexo, um afeto esse que há que ser pleno, e ao mesmo tempo, abstinente. Esse sujeito precisa estar em sua própria pele, em suas próprias idiossincrasias, capaz de não evitar o olhar-se ao espelho, mas também estar atento ao cuidado de não se aprisionar nele;  e assim suportar e acolher o olhar do outro, saber ligar-se e saber desligar-se, ter o apego e o desapego, saber amar e também odiar, porque como nos lembra muito bem Winnicott em seu magistral texto “O Ódio na Contratransferência”, poder odiar assegura que também se sabe amar(que pode ser amado).

 Saber sofrer e saber que esse sofrimento é apenas o caminho, nunca a meta, nunca o porto de chegada. Um analista sem esperança é com toda certeza um analista surdo(sem uma escuta analítica). Mas muito pior que isso, mais nocivo ao que se chama de psicanálise, será um analista sentimental, como também nos alerta Winnicott, porque o sujeito que busca a escuta, não quer complacência, compaixão, quer isso sim, potência, desejo, mergulhar na angústia sabendo que há uma mão para lhe empurrar ou puxar das suas profundezas conforme seu toque, ou ainda como nos disse Freud, deve o psicanalista a esse corajoso sujeito, ao menos, honestidade.

Esse ser pulsante, analista, não se faz apenas em sua passagem pelo divã, vai muito mais além essa tarefa, e até por isso, a grande maioria não se diz nunca  formada, um psicanalista estará sempre em formação, podemos ainda pensar em transformação. O “Sujeito suposto saber” só na fantasmática da assimetria inicial do par analítico. O sujeito analista no mundo sente, sofre, sangra e goza. A criança que foi, nunca deixa de ser, ganha voz, relata todo o tempo, continuará narrando até que Thanatos venha e complete sua tarefa de forma definitiva, aliás como com todos os outros sujeitos desse mundo. O analista estará, então, sempre de braços dados a Eros, assim como também a Thanatos. É sempre um ser cheio de perguntas que só tendem a aumentar conforme os anos passam. 

Isso equivale a dizer que o analista não deve negligenciar seu trabalho analítico, é na proposta de sentar-se no lugar de quem se dispõe a escutar o outro que esse sujeito deve ter o “empurrão” para estar sempre às voltas com suas próprias questões. Deve ter sempre como certo que esse trabalho jamais estará completo, que quando o psicanalista “fala”  do sujeito contemporâneo e suas questões, ele mesmo, o analista, deverá inserir-se naquilo que busca ver. Que tenha a exata noção de que cada conquista ou derrota de cada um de seus analisandos, custa-lhe caro, demandam suas próprias fontes energéticas. Mas, depois, há que apagar as luzes de sua sala de atendimento, partir e se contaminar com muita vida vivida.
Questões Técnicas e Psicanálise - Nota nº 2
2011/09/30 09:53:22
A “escuta” em análise.


Quando falamos em escuta em análise isso se refere a um conceito absolutamente técnico, vai para muito além do que o ato de ouvir o que o outro diz. Explicar esse ato em análise remete-nos inevitavelmente à praticamente todos os constructos teóricos erguidos por Freud e seus sucessores. Temos que, de cara, partir do conceito técnico de “atenção flutuante” que se constitui na principal característica técnica que pode ser desenvolvida por um psicanalista e requer a passagem por sua formação que se respaldará em aprofundado estudo teórico, uma supervisão eficiente e uma análise pessoal intensa e honesta.

Escutar sem ouvir, ou como apontou o próprio Freud, escutar em suspensão, não focando a atenção em nada determinado, presente ausente, apoiado na neutralidade e abstinência, e encarando, de frente, a contra-transferência ou ainda silenciando onde topa com seu “ponto cego”. Este último referindo-se aos conteúdos do analista, enquanto sujeito, que não foram elaborados em seu processo analítico e que podem ser ativados por conteúdos de seu analisando, ali onde ele esbarra em algo que é seu, não obedecendo ao princípio que norteia todo o par analítico, onde a “fala” refere-se ao desejo do sujeito em análise, o paciente. Um ponto cego poderá descarregar-se(realizar sua carga) em um acting do analista, algo que seria um desvio de meta, um erro, um equívoco, uma verdadeira gafe. Mas, devemos falar aqui nesse ponto, que nenhum psicanalista, por mais analisado e experiente que seja, estará a salvo de vivenciar tal momento, muito pelo contrário. A experiência algumas vezes, apenas o torna mais flexível à possibilidade de reconhecimento e, portanto, a maior rapidez em buscar orientações e possibilidade de correção quanto a esse desvio.

Então devemos perceber que quando falamos em “escuta” referindo-nos a psicanálise, devemos estar atentos a toda essa trama conceitual que sustenta a aplicação do método e da técnica, escutar é estar nesse lugar presente ausente que um psicanalista se compromete em seu ofício a sustentar a posição.


Questões técnicas em psicanálise
2011/09/05 20:40:14

Questões técnicas em psicanálise




Por Denise Deschamps

Nota nº 1

Em psicanálise todo analista em seu ofício acaba se deparando com a inevitável conclusão de que não há fórmulas, há um excelente método e algumas prescrições da técnica. Feito um “suficientemente bom” contrato, colocado o enquadre que possibilita o setting, começará a trajetória que, como bem comparou Freud, se dará como um jogo de xadrez que não sabemos como irá desenrolar-se no lance a lance, embora saibamos suas regras.

Algumas questões costumam colocar-se para o analista, ali onde o toca enquanto ser no mundo e obviamente também presente naquela relação, circunscrita pela abstinência a qual se compromete, cada analista, ao compor o par. Abstinência essa que, está longe se ater apenas à proibição do vínculo amoroso sexual com o analisando, e que em verdade se estende por um conteúdo bem mais amplo, onde em um desenvolvimento de uma capacidade técnica deverá manter o desejo do sujeito analista em suspensão, oferecendo pequenas frações no jogo analítico, em uma rédea nem sempre tão facilmente perceptível.

Vamos falar aqui um pouco de uma dúvida que cerca o oferecimento de presentes por parte do analisando ao analista.  Diz a regra: sem presentes; mas sabemos que não é bem assim que a questão se encerra, então devemos pensar que cada situação só poderá ser abordada no singular que toca cada análise. Podemos pensar que o analista frente a um momento como esse, deverá, a partir de uma elaboração em relação ao conteúdo que está presente ali na relação de transferência, pensar, dentro da perspectiva do objetivo analítico, se aceita ou não o presente ofertado pelo analisando. Se ele optar por aceitá-lo deverá sempre estar preparado para os possíveis efeitos que isso produzirá dentro do processo. Bom esclarecer que esse presente deverá ter muito claro seu objetivo simbólico, inclusive pelo valor material que tenha. Pequenos presentes, em alguns momentos, podem ser recebidos, mas valores materiais muito altos, deverão estar fora dessa questão. A ação da aceitação deverá ocupar o lugar da tarefa da interpretação, ou como diria um antigo supervisor que conheci, dando uma excelente orientação: “-Nunca analise um presente, isso seria, no mínimo, uma evidente prova de pouca educação”. Mesmo que o analista se dê conta do oculto ali contido, o ato da aceitação, elimina a possibilidade de interpretação. Visto isso, perceberemos que aceitar esse presente tem que estar muito bem respaldado em uma decisão terapêutica, mais uma vez valendo a regra da abstinência e o fazer analítico.

Caso, dentro dessa mesma perspectiva, o analista resolva não aceitar o presente, deverá cercar essa decisão de um cuidado em relação aos conteúdos que sua recusa fará surgir, com prováveis níveis de acting/out.  Não poderá furtar-se a lançar algum nível de interpretação imediata quanto a isso, chamando o analisando para o foco no enquadre, não deixando-o sozinho na angústia que a recusa muito provavelmente fará surgir. Alguns psicanalistas, inclusive, colocam na ocasião da formalização do contrato, a regra da não aceitação de presentes ou convites para eventos. Mas, também, via de regra, o paciente na hora que deseja presentear terá “esquecido” essa parte do contrato, e nem sempre o psicanalista ainda estará convicto que o melhor passo ali naquele momento transferencial será a não aceitação, mas, se feito o contrato, esse deverá ser cumprido, trabalhar aí com a exceção poderá abrir uma porta de uma ainda mais difícil elaboração.

Nem sempre os presentes são materializados, alguns chegam através de elogios que, muitas vezes, paralisam a escuta analítica, criando um clima de proximidade que poderá neutralizar ainda mais as necessárias intervenções.

Temos em filmes inúmeras cenas para pensarmos essa questão, mas vou encerrar essa breve nota que está longe de aprofundar a questão, com uma compilação de cenas de um filme bastante engraçado em se falando das situações fora do comum que acontecem em análise. Ficam para ajudar nessa nossa breve reflexão. Até a próxima!


 http://www.youtube.com/watch?v=wDEV_pELZTY
Mude o Meu Look
2011/08/22 13:37:18





Estava eu outro dia “zapeando” preguiçosamente, e deparei-me com um programa apresentado no canal da tv por assinatura, o “Discovery Home Health”. O programa em questão é mais um daqueles no formato que já conhecemos, a mágica de mudar o “cartão de visita”, a aparência de cada um. Seu nome já me pareceu sugestivo, “Mude o meu look”, apresentado pela especialista em estilo Finola Hughes. Mudar a exterioridade desse eu, aproximá-lo na verdade de um ideal, e quase como o espelho de Lacan, construir uma imagem unificada e querida por esses olhos que contemplam a própria imagem. O convite é para ser mudado à partir da concepção de outro olhar. O interessante é que duas das pessoas que vão oferecer sugestões para a desejada mudança,serão sempre algum parente ou amigo do(a) convidado(a).





   
Nesse episódio aqui abordado, o chamado para essa colaboração foi o marido da participante, e que também havia sido a pessoa que enviou a carta para o programa pedindo ajuda para sua mulher e uma amiga. Ela, a participante, mãe de uma criança ainda pequena e cantora buscando um lugar ao sol. Estilo largadão, ainda meio hippie, mas novinha, rosto de menina com um riso todo o tempo colado em sua expressão. Curiosidade, nossa convidada trabalha na produção do show de miss, e até onde se percebe, a produção do programa só soube disso depois de já ter feito contato com ela para convidá-la à participar. O episódio começa, tudo seguindo o roteiro de sempre, até que, escapa uma revelação, nossa protagonista sofre de um transtorno alimentar, principal preocupação e queixa desse marido que deseja que ela confie e goste de sua imagem para que cesse sua paquera com a morte. Confissões, não se alimenta, o marido a acompanha sempre ao banheiro para ter certeza que não irá provocar o vômito. E ela, sustenta firmemente suas atitudes, quer emagrecer e para isso fará qualquer coisa. Vemos fotos de quando ela estava extremamente obesa, agora, no momento do programa, ainda acima do peso, está gordinha, mas nada assim tão marcante. Diante da confidência e posicionamento da convidada, Finola se emociona visivelmente ao saber da enorme quantidade de quilos que havia ela perdido em brevíssimo tempo,e quebra a parede da neutralidade, diz que foi bailarina e que sabe o que é querer ficar magra a qualquer preço, revela que perdeu sua amiga companheira de residência, vítima de anorexia. Impossível o espectador não se colocar de alguma maneira cúmplice desse desejo tão ligado a uma concepção de beleza e bem estar.
  
Os momentos seguintes são duros e percebe-se claramente que quase que o programa foi abortado. Porém, continua e há um oferecimento de algumas sessões psicoterápicas para a mocinha.

Temos o estilista convidado, além do marido e da amiga, está dado o formato do programa, sairão, cada um separadamente e com uma quantia “x”, têm como tarefa montar uma coleção com três definições mais ou menos claras, como: uma para noite, outra para o dia a dia, e no caso dessa convidada uma para que possa se vestir para ir pleitear esse lugar ao sol que tanto ambiciona.

Surpreende vermos a apresentadora totalmente envolvida emocionalmente, diante daquela mulher à sua frente, que ao mesmo tempo parece trazer uma fragilidade imensa, e, por outro lado, mostra-se um muro, quase impermeável, não abre mão de seu estilo, de suas escolhas ou do destino pretendido. Ela é tão objetiva que não leva o espectador à nenhuma emoção de compaixão, ela diz saber que tudo aquilo é apenas um início que ela poderá ou não sustentar depois, é de uma lucidez quase irritante. Deixa bem marcado que ao fim, no término do programa, não será outra coisa do que dizer que o caminho apenas começou e que a mudança tem que ocorrer em “seu dentro”, alicerçando aquilo que é visto pelos outros olhares, os “de fora”, e que alimentam esse seu dentro pelo vínculo, mas que, ao mesmo tempo, essa imagem inicia-se ali no íntimo, no quartinho escuro que todos nós temos.

A candidata é apresentada às três coleções feitas cada uma por uma dos estilistas, sendo um deles, lembremo-nos, o seu marido. Ela, sabedora do outro, acerta a assinatura em cada uma delas, e, para surpresa do espectador, escolhe a coleção que o marido montou, de certa maneira como uma metáfora que diz que a solução para seu conflito, esteve todo tempo ali, dormindo, ao seu lado. Esse olhar que, constrói uma beleza, suportável, confortável, possível. Pelo inesperado o programa chamou minha atenção. Nossa menina termina dizendo que deseja ainda emagrecer, mas que entende que isso possa ser alcançado de uma maneira saudável, que deseja viver, pela filha e pelo marido. A apresentadora diz que acredita que o importante é que outras pessoas, com conflitos semelhantes, ao assistirem àquele episódio, poderão pensar: “-Sim, há outro caminho...”

Confesso que terminei de assistir ainda um pouco emocionada e fiquei refletindo que não adianta questionarmos o desejo de uma beleza magra ambicionada por uma pessoa, a questão central será a de que seja trabalhado o caminho pelo qual se atingirá essa imagem, e mais do que isso, existe uma questão que é anterior que dá conta se existe realmente essa imagem, e quem a olha. A partir disso, essa constituição de uma consciência de que olhar é esse, é que como um espelho, haverá a chance de juntar essa imagem, e nascer uma possibilidade unificada e pacificada em si mesma. Termino o programa pensando se algo ali realmente havia sido modificado, aquela pessoa tão acostumada a servir ao outro, havia mesmo sido tocada, ou mais uma vez, repetiu um conhecido padrão, adaptou-se a demanda do marido e permaneceu alheia a si mesma, a esse olhar possível que constrói? Esse fora que é dentro, esse dentro que nem sempre, se permite ser paisagem e contemplação, realização.

Denise Deschamps
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