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Duro aprendizado (Higher Learning, EUA, 1995)

 Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps

“Se não houver nenhuma luta, não há nenhum progresso” (Frederick Douglass, pseudônimo de Frederick Augustus Washington Bailey*). Citado no filme.

 

*“Ele acreditava firmemente na igualdade de todas as pessoas, independentemente de negro, mulher, índio, ou recente imigrante. Ele gostava de dizer, "eu me uniria com qualquer pessoa que faça o certo e com ninguém que faça o mal."(wikipédia)

 

Termina o filme, bandeira americana desfraldada na tela e a fala: Desaprenda(unlearn). 

 

Filme de uma intensidade crescente. Inicia-se parecendo mais um desses dramas que raspará de leve questões importantes como diversidade, racismo, loucura, violência, opressão. Segue em tensão crescente, passando pelos principais acontecimentos que marcam um mundo desigual e partido e tomando um aprofundamento que causa bastante impacto no espectador.

Nosso personagem principal, Malik (Omar Epps), negro americano que consegue acesso à universidade (campus fictício da Columbia). Ele um corredor promissor que tem acesso a uma bolsa parcial para seus estudos, porém não tem como algo muito aprofundado sua relação com o conhecimento, a busca do saber. No intuito de conseguir a bolsa integral aceita competir em nome da Universidade. Em seu caminho atravessará o professor de Ciências Políticas, Phipps (Laurence Fishburne) que o levará a questionar seus próprios posicionamentos frente à vida, a luta racial, a relação com o conhecimento e discurso. Assim como sua proximidade e amizade com um veterano estudante na Universidade, o aluno Fudge (Ice Cube), marcará sua trajetória nesse primeiro semestre dentro do campus.


Cada personagem que compõe o tecido desse filme trará uma importante questão pra pensarmos, como a questão feminina e sua opressão, a diversidade sexual, a violência das relações familiares e suas conseqüências, a juventude em sua alienação, a busca de aceitação pelo grupo social e principalmente as questões do racismo e xenofobia.


John Singleton que teve aos 23 anos duas indicações para o Oscar(1991) por “Os Donos da Rua”( (Boyz'n the Hood), sendo o diretor mais novo a ter sido indicado para esse prêmio, dirige e assina o roteiro de “Duro Aprendizado”. Também é até hoje o único diretor negro a ter sido indicado ao Oscar.


Veremos ao longo desse filme muitas das questões que se colocarão para os jovens estadunidenses ali onde o campus da universidade representa todas as tensões que alimentam o social, em difíceis lições, que levam no caso do filme até ao limite da própria vida. Grupos diferentes nos são apresentados e ao longo do filme irão se entrelaçar formando a história dessa tensão bastante contemporânea.


Desde a questão dos estupros dentro do campus sobre os quais algumas matérias já foram publicadas em grandes meios de comunicação, até a vivência da segregação, perseguição da população negra dentro do espaço do campus, passando pela questão da orientação sexual e outros temas ainda pincelados ao longo do roteiro. A tensão se instala e fica bem clara ao longo do desenrolar da película, em uma direção que não se furta a aprofundar reflexões bastante importantes em meio a conversas entre os personagens. Faz refletir e se apresenta como um bom filme para balançar as mais rígidas convicções baseadas em preconceitos, problematiza questões sociais de uma maneira mobilizadora de emoções das mais diversas.


O interessante é que Malik não é um personagem que nos cause simpatia à primeira vista, também não chama a atenção por nenhuma grandeza, a não ser por seu enorme talento em correr. Questiona de maneira incessante o caminho da luta da população negra dentro de um país de supremacia branca. De frente a estátua de Colombo que dá nome à universidade, tece comentários históricos de uma maneira bastante pontual, novos parâmetros do pensar nossos heróis dentro da atualidade, há em nossos dias valores que foram sendo modificados ao longo de décadas de lutas encaminhadas por grupos alcançando modificações de crenças antes instituintes dos ideais da cultura. Dentro de uma perspectiva absolutamente pessoal, nosso personagem  nos leva pelas mãos ao tomar contato com toda a tensão estrutural, a luta de forças que está abrigada dentro da malha social, da questão dos vínculos como também bastante determinados por nossos papéis dentro desse tecido, falando de origem de classe, gênero, raça, religião, ideologia. Em muitos momentos do filme o espectador será levado a sentir o mesmo estado “confusional” do personagem, onde aquilo que se acredita busca se determinar na cena, mas algo de insólito leva a um pensar por outros caminhos, brilhante essa forma como o filme nos encaminha para os questionamentos necessários, delicadas e sutis cenas que nos levam a uma desconstrução de importantes crenças que ditam aquilo que nos é vivido(que vive em nós) como nosso self . 


Malik apaixona-se, e através desse amor muito de sua irascibilidade irá se tornar mais tênue, mostrando-nos a presença de Eros, porém em igual proporção sua capacidade de ação crescerá de maneira evidente, o que aumenta a tensão dentro do contexto que nos é apresentado. Não há conciliação possível, embora o amor, via fala de sua namorada, queira convidar a um revisitar essas separações raciais, sociais, de grupos. O filme não se propõe, e não cumpre mesmo essa tarefa, de apresentar soluções para a tensão social e muito menos buscará um final feliz para aplacar nossas angústias frente ao modelo instituído, sobre o qual em nossa vida cotidiana e nossos afetos, nos vemos referenciados e mantenedores dessas referências. O convite ao final do filme é claro, como deixamos aqui no início desse texto: “desaprenda”. O que de forma alguma substitui um pensar por outro, apenas convida a uma desconstrução e uma nova busca, tarefa quase sempre de angústia para o sujeito psíquico. Cada um de nós em nosso desamparo pedimos por um fast food de ideologia, como cantava nosso poeta da música nacional: “Ideologia eu quero uma pra viver...”(Cazuza).
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