Em Terapia (In Treatment, 2008)
Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps
Trailer
Os seriados estão para os americanos assim como as novelas estão para os brasileiros. São eles que determinam os índices de audiência, assim como as novelas determinam o horário “nobre” da nossa televisão. Nossas novelas representam nosso meio, com conflitos, divergências sociais, conflitos familiares etc, os seriados americanos tentam representar um pouco do cotidiano dos seus cidadãos.
O sucesso da produção está diretamente relacionado com a identificação do publico, mesmo que esta seja através da fantasia. Um dos “sucessos” do momento, é a Serie “In Treatment” que retrata o cotidiano do psicoterapeuta, de orientação analítica, Paul Weston (Gabriel Byrne). Este se utiliza um anexo de sua residência, quase que totalmente independente. Ali está seu consultório, ou como ele prefere chamar, “o espaço de segurança”, onde um setting terapêutico quase clássico foi montado.
Diferente dos outros seriados, este se aproxima mais de uma telenovela, pois possui freqüência diária, de Segunda à Sexta-feira. Cada dia da semana é reservado a um paciente, e os atendimentos acontecem quase que em tempo real [45m]. De Segunda à Quinta ele atende seus pacientes, e as Sextas-feiras são reservadas para sua Supervisão com Gina Toll (Dianne Wiest), uma Psicoterapeuta mais experiente e amiga antiga.
Temos então a possibilidade de acompanhar 4 pacientes, nos mais diversos momentos da psicoterapia. Capitulo a capitulo somos presenteados com os mais diversos tipos de reações, insights, confrontos, e a utilização das mais variadas técnicas, passeando desde o uso do silêncio até interpretações bem freudianas. E é a partir destes que podemos fazer inferências e analisar as sessões de um ponto de vista privilegiado, na terceira pessoa.
Temos então Laura (Melissa George), uma jovem que está em atendimento psicoterápico há 1 ano, recebendo a indicação de Paul através de seu namorado, Andrew, que também é psicólogo. Esta abre o seriado já em crise, em uma de suas sessões. A princípio a interpretação de Melissa George parece um pouco “forçada”, bem “dramatizada”, mas isso vai se tornando mais nítido ao longo da trama, como uma sintomatologia de um possível Hipótese Diagnostica (HD). Somos presenteados com muita dramatização, utilização exacerbada de linguagem corporal, simulações para obter contato físico, inconsistência de humor, e mais uma variedade de defesas. Ao longo do episódio, o que não é escondido na própria sinopse da série, estaremos nitidamente vendo um processo de transferência erótica, que Freud já escrevera sobre 1914 (Observações Sobre o Amor Transferencial). É então que Paul, ainda relutante com a revelação da paciente, percebe que está lidando com um ponto cego da própria análise, e se dá conta de que precisa retomar a sua própria análise.
Laura têm sua capacidade de ter insights totalmente restrita, mostrando estar totalmente absorvida por esse amor. É claro que, como profissional experiente, Paul jamais incentiva esse amor, com medo de produzir um “acting out”, mas ao mesmo tempo tem tato o suficiente para não repelir bruscamente, correndo um risco de abandono precoce da psicoterapia. Uma dosagem perfeita da técnica freudiana.
. Como Laura já está em atendimento há mais de um ano, podemos supor apenas que o contrato fora firmado, e Paul deixa claro os limites deste. Posteriormente Laura demonstra perfeita habilidade em realizar associações livres, deixando o caminho livre para Paul utilizar mais uma vez a técnica. Com os episódios iniciais, podemos inferir que estaremos presenciando uma paciente com estrutura Borderline (Bergeret) durante a psicoterapia.
Ás terças-feiras temos Alex, paciente novo, que acompanharemos desde a primeira sessão. Logo no início já se pode perceber algumas fantasias comuns a pacientes, sobre a competência do profissional que irá auxilia-los. Porém, a fantasia de Alex já nós dá indicativos de altos traços narcisistas (inferência!!).
Não está tão próximo assim do nosso trabalho na clínica, atender militares ou combatentes de guerra. Como nos EUA essa é uma temática recorrente, fazendo parte das questões sociais, não é de se estranhar que teremos aqui uma das conseqüências, a possibilidade de Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT).
Um dos pontos fortes das sessões de Alex está no não questionamento de Paul sobre a realidade dos fatos narrados pelo paciente, por mais mirabolantes que eles sejam. Além do narcisismo exacerbado, temos também defesas típicas de uma possível estrutura paranóide. Suponhamos que seja um surto, Paul agiu corretamente ao “adentrar” este possível surto, não questionando a racionalidade do mesmo, pois isto seria precipitado e provavelmente afugentaria o paciente.
Às Quartas-feiras temos Sophie (Mia Wasikowska), uma típica adolescente, relutante a terapia, que apesar de ter sido “obrigada” a participar dos atendimentos, começa a perceber que certas situações conflituosas podem ser resolvidas, gerando melhora na sua qualidade de vida.
Ás Quintas-feiras temos Amy and Jake. Paul mostra mais uma de suas especialidades, ao auxiliar este jovem casal, com nítida falta de comunicação, em uma crise conjugal. Amy passou anos realizando tratamento para engravidar, e agora que conseguiu, pensa seriamente em realizar um aborto, pois o que aparentemente mantinha este casal unido era apenas o desejo de “engravidar”.
E para finalizar a semana, conhecemos Gina, sua supervisora. São estas sessões que clarificarão melhor a técnica e onde Paul tentará levantar os pontos escuros em sua própria análise, na tentativa de obter supervisão para seus próprios pacientes. A relação entre Paul e Gina nos remota a situações clássicas na Psicanálise, onde mestre e analisando em formação tinham divergências teóricas.
O desenrolar da “trama” destes nossos personagens, só saberemos nos próximos capítulos, esperando que os mais de 40 capítulos já gravados possam, além de cumprir sua função de diversão, nos auxiliar nos treinamento de diversos profissionais, ou quem sabe influenciar toda uma geração de jovens, assim como fez,e faz, o Plantão Médico (ER) há mais de 10 anos.
*** Artigo publicado originalmente na revista Psiquê Ciência e Vida
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