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| Em Terapia (In Treatment, 2008) Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps Laura, Paul, Gina, Alex, Sophie.....todos esses personagens já se tornaram “amigos íntimos” dos alunos de psicologia e psiquiatria, bem como de profissionais e interessados no tema. É indiscutível o impacto que o seriado trouxe e o interesse que tem gerado. São inúmeros os debates no mundo virtual e há sempre um “frenesi” pelos próximos episódios. Agora que conhecemos um pouco mais dos nossos personagens, com os quais dividimos o setting psicoterapico de Paul, temos a possibilidade de fazer algumas inferências sobre suas histórias. LAURA A apaixonante Laura continua arrebatando o coração dos telespectadores, mas o único que a interessa é Paul, de quem ela não consegue o tão almejado “amor”. É interessante perceber as suas resistências atuando, seja negando as interpretações, seja chegado atrasada a sua sessão. Paul está bastante influenciado pela sua contra-transferencia, deixando transparecer alguns pontos cegos da sua própria análise. É bem possível que ele esteja colocando em risco o processo analítico de Laura, e a melhor saída seria, como ele menciona, encaminha-la para outro profissional. Paul chega a se perder na sua contra-transferencia, deixando sua fantasia interferirem na analise de sua paciente. Percebendo isso, Laura tenta o deixar encabulado, chegando a contar detalhes sobre suas relações sexuais com Alex, deixando no ar certas suspeitas sobre a sexualidade dele (Alex), além de esperar alguma reação de Paul.Entretanto, acho que Paul perdeu um pouco da sua “neutralidade”, pois deixou transparecer sentimentos SEUS em relação a transferência erótica dela. Neste episódio (1.15) Ele poderia ter confrontado Laura sem expressar tanto seus sentimentos. É interessante observar como Laura verbaliza, de uma maneira bem construída, seu amor por Paul e como ele é “real”. Paul está tão afetado por esta transferência erótica que acredito que ELE mesmo comece a acreditar na “veracidade” deste sentimento.Quando Laura fala sobre a vida DELE (.ser infeliz, carente, etc.), ele “deixa” passar movimentos com a cabeça, sinalizando que concorda com o que ela diz. É bem possível que Laura esteja “manipulando” Paul quando diz que “odiava a si mesma”, em uma tentativa de fazer com que ele a fizesse elogios e escutasse a “si” mesmo sobre os “possíveis” motivos dele estar apaixonado por ela. Um ponto interessante: alguns autores são bem “rígidso” quando citam orientações sobre o pagamento das sessões, chegando a serem “contra” pagamentos adiantados ou em bloco, pois o paciente precisa perceber que está pagando por cada sessão separada, e gerando reflexões. Quando Paul permite que Laura pague em uma próxima sessão ele abre a possibilidade de entendimento dela de que não houve uma sessão, uma vez que muitos conteúdos do próprio terapeuta foram expressos ali, indevidamente. Quando uma transferência erótica é manuseada de maneira incorreta, já sabemos o que irá acontecer., e no episódio 1.21, podemos ver nitidamente o que Freud escrevera. Apesar de Paul tentar encaminhar Laura para outro profissional, esta reage e decide por si só terminar sua terapia. Mas, sem antes, dar uma abertura a Paul para interpretar um incidente aparentemente sem qualquer significado, que ocorrera na sua semana. Um dos pontos importantes da fala de Laura está no relato de que o processo psicoterapico gera auto-conhecimento, e isto pode gerar sofrimento. Sofrimento que pode ser necessário para o amadurecimento, porem, nem todos estão preparados para pagar este preço. Assim como alguns remédios tem o sabor ruim e causam náuseas (e seus efeitos colaterais), o processo psicoterapico pode não ser agradável em alguns momentos. Pacientes têm a fantasia de que todas as sessões irão terminar com alegria e pontos “altos”, quando, na verdade, muitas vezes, deixam os nossos consultórios em situações opostas, que são necessárias para futuros insights.Laura é insistente em tentar seduzir Paul, seja na forma de elogios, seja contando detalhes sobre suas relações sexuais, apelando para um relato de sua adolescência. Quando esta relata sua relação com David, Paul perde uma oportunidade de clarificar a ela que as mentiras não afetavam a Paul, mas a ela mesma. Ele poderia ter explicado que as “desculpas” não eram devidas a “ele” e sim, ao próprio processo de analise. É de causar surpresa a reação negativa de Paul ao relato, deixando transparecer seus sentimentos. Ficamos com a impressão de que ele estava falando de SI mesmo, colocando os entraves e questões éticas sobre um relacionamento DELE com Laura (e não sobre David). Um observador em terceira pessoa poderia acreditar que Paul estava pensando em voz alta, repassando os diversos motivos pelos quais não poderia se relacionar com Laura.É importante ressaltar que este incidente com David (1.21) teria feito grande diferença na analise de Paul sobre a estrutura de Laura. O relato das relações sexuais na adolescência poderia ter elucidado o entendimento de um trauma psíquico desencadeador de toda sua estrutura (Bergeret). “SOMOS UM PRODUTO DO NOSSO PASSADO!!” ALEX Nosso “veterano” de guerra Alex continua “testando” seu terapeuta, e precisa ter certeza de que ele é o “melhor” disponível para atendê-lo, assim como quer atendimento “vip”. Ao presentear Paul com uma cafeteira, deixa claros seus interesses inconscientes, e recebe com receios a interpretação do gesto. Como Alex não estava em analise “propriamente dita”, Paul correu sérios riscos em interpretar diretamente o gesto, mas foi bem hábil ao expressar o simbolismo da “entrada” na análise. Éticamente falando, Paul jamais poderá manter ou aceitar o presente, e acredito que, ao final do atendimento de Alex, o “presente” seja devolvido. Este permanecerá em seu “espaço seguro” enquanto for seu. As questões sobre o filho de Alex podem conter referências a sua própria sexualidade, bem como indícios de suspeita da paternidade do mesmo.Alex acaba caindo nas “garras” da feroz Laura e temos uma situação inusitada no setting. Somos orientados a não atender dois familiares, marido e esposa, pais e filhos em sessões individuais, por questões éticas e teóricas. Mas, e quando uma situação assim acontece, como a relação entre Laura e Alex. Como devemos agir? Como poderemos não nos deixar influenciar por informações passadas por um paciente, que são direcionadas a outro? Laura deu informações a Paul que são bem nítidas sobre a sexualidade de Alex. A resposta está na neutralidade exigida pela profissão. Assim como deixamos do lado de fora do setting todas as nossas crenças e preconceitos, também devemos “zerar” tudo entre uma sessão de um paciente e outro. Cada relato deve ser ouvido e entendido como se fosse a primeira vez, não deixando se influenciar pelas informações obtidas em outra sessão. Uma mesma historia, contada duas vezes pela mesma pessoa, já nos trás informações novas, quem dirá por pessoas diferentes. Mais uma vez
Paul tem que repensar sobre encaminhar Laura para outro profissional. De alguma maneira fica claro que Alex trará o dinheiro de Laura (1.17). Foi mais um recado dela para Paul, reafirmando que os dois pacientes estavam tendo um caso. Os olhares de Laura demonstram que ela não desistiu de sua transferência erótica e Alex será mais uma peça em seu jogo. Paul já se mostra irritado em relação a Alex . Neste episodio, na primeira inferência que faz, Paul não se mostra mais tão “neutro” e demonstra inquietude com Alex por pagar pelos “minutos extras”. Temos, mais uma vez, uma fantasia comum a vários pacientes: a exclusividade do atendimento e a importância que damos a cada caso. Paul consegue contornar a situação desagradável em que foi colocado por Laura e Alex, e acredito que tenha conseguido delimitar bem e mostrar certa autoridade, quando reforçou, seriamente, a questão do sigilo. Apesar de Alex tentar mais uma vez saber do relato de Laura, Paul “não escuta” e parte para sua interpretação. Mais uma vez a resistência de Alex se apresenta e ele “foge” para o café. SOPHIE Paul mostra mais uma faceta, como terapeuta, ao atender a adolescente Sophie, usando e abusando da técnica. Ao trocar de cadeira com a paciente ele permite que ela perceba suas próprias resistências ao tratamento, e confirma isso ao interpretar o presente recebido, pois uma vez que a analise não havia terminado, ela poderia levar de volta o barco.Mesmo não verbalizando, Sophie percebe que precisa da terapia, mas como adolescente típica, sua defesa é o ataque. Sempre que Paul interpreta, ela foge e o ataca. As questões sobre seu treinador, Cy, ficam mais esclarecidas e temos conhecimento da teia de sedução onde ela se encontra. Vale ressaltar a questão ETICA de atendimento de menores de idade aqui no Brasil, onde o
Código de Ética Profissional do Psicólogo prevê que menores de idade só poderão ser atendidos com o consentimento dos pais ou responsáveis legais. Nos primeiros episódios, nenhum dos pais compareceu as sessões de Sophie. Alguns episódios adiante (1.18) Sophie passa de uma adolescente machucada, com o cabelo bagunçado, roupas largas, a uma moça sedutora, que bebe muita tequila e abusa da sensualidade. Onde esta a mocinha indefesa e insegura das sessões anteriores? Temos uma nova Sophie, mais madura, mais concreta, aceitando as interpretações, mas sem deixar de lado seu sarcasmo e ironia. Vemos um novo lado da sua relação com sua mãe, amor x ódio, bastante comum entre os adolescentes. A interpretação dos sapatos de Dorothy foi bastante oportuna, entretanto, seria mais adequada se fosse para uma pessoa adulta. Usar a analogia com uma adolescente, lutando para sair da infância e ser vista como um adulto, foi uma estratégia ariscada.Temos mais um aprendizado com Paul sobre o SIGILO. Ele age corretamente, e eticamente, ao ligar para mãe de Sophie quando percebeu o risco que ela poderia estar correndo. Vale ressaltar que isto está previsto no código de ética profissional do psicólogo, e limitado a algumas situações. Ele agiu corretamente ao ligar, sem entrar em detalhes sobre os temas discutidos dentro do setting. Podemos perceber que a “amnésia” de Sophie era “apenas” seu Superego reprimindo as informações do acidente e que, lentamente, através da associação livre as informações vêm à tona. Paul atua suportivamente, dando o apoio que ela necessitava neste momento fragilizado. A cena de Sophie é uma belíssima exemplificação de que, através da associação livre podemos chegar a conteúdos inconscientes, em processo bastante elaborado por Freud. É belíssimo ver Paul conduzindo a associação livre a e podemos entender os motivos pelos quais Freud optou por esta, os invés da hipnose. As cenas de Shopie também nos chamam a atenção para os perigos do modelo de consultório de Paul, nada recomendado, por se utilizar um de “anexo” como setting. Paul erroneamente mantinha remédios controlados em seu banheiro, o que pode ser de fácil acesso a seus pacientes. Ter um espaço “neutro” é um requisito fundamental para um processo de analise. JAKE E AMY Jake, Amy e Paul nos presenteiam com informações éticas bem pertinentes, quando o tema é “Terapia de Casal”. Esta tem um formato diferenciado e Paul assumiu bem seu papel como “terceiro”, facilitador da comunicação. Logo no início ele deixa bem claro sobre atender apenas um dos membros do casal, sem a presença do outro, o que deve servir como exemplo a ser seguido. Apesar da agressividade verbal de Jake, este percebe que Paul se tornou um “elo” de comunicação entre ambos. É importante ressaltar que “nós”, telespectadores, sabemos que Paul enfrenta problemas conjugais paralelos, mas o pacientes não. Estes acontecimentos são importantes para ressaltar a “neutralidade” profissional e a importância em “desligar-se” de seus próprios conteúdos uma vez que cada paciente entra no seu setting [ou deles]. Paul consegue lidar muito bem com os ataques de Jake, não levando para o lado pessoal [lógico], porque consegue perceber que os ataques são direcionados ao que Paul representa, e não a ele propriamente dito [processo transferencial]. Ao finalizar a sessão devolvendo a Jake, com suas próprias palavras, o significado da terapia, Paul permitiu um espaço para reflexão, e deixou a porta aberta para a próxima consulta. Vale ressaltar que Amy apresentava alterações significativas em algumas funções do Ego, que são pontos importantes a serem observados, e caso haja confirmação, haveria necessidade de se encaminhar a um psiquiatra, visto que está passando por uma fase com possíveis alterações hormonais, com impactos diretos em seu comportamento. É impressionante notar como o silencio pode ser angustiando e nos trazer informações importantes. Amy não gostou de ser “preterida” no seu “momento”, e, como uma criança, reclamou abertamente (1.19). Isto dá abertura para Paul fazer a interpretação, de que ambos se sentiam seguros no setting, pois sabiam que sua “mãe” estava no comando. Ambos buscam constantemente a aprovação de Paul, tentando jogar o cônjuge contra o terapeuta, para atrair maior atenção. É muito importante o que Paul ressalta de que ambos, apesar de verbalizarem diferente, estão bastante comprometidos com a analise. A interpretação de que Paul passou a ser, por alguns minutos, um elo antigo deles, Nick, foi bastante pertinente. Talvez, pelo alto nível de estresse na sessão, Paul tenha deixado passar algo muito importante: o fantasma de uma suposta traição de Amy, uma vez que ambos se conheceram em um caso extraconjugal. Jake acredita que assim como o ex-marido de Amy fora traído com ele, ela possa estar o traindo com outro. GINA Gina e Paul continuam sua relação de amor e ódio, típica dos analistas e supervisores. Este modelo de supervisão é pouco utilizado no Brasil, e tem um mesclado de supervisão com Analise pessoal, o que muitos teóricos não recomendam. Paul começa então a atuar, identicamente a seus pacientes. A diferença é que, como muitos profissionais e estudantes em inicio de analise, ele se precipita tentando antecipar as possíveis interpretações de sua supervisora. Não percebendo, ele age identicamente a Sophie, se irritando e projetando seus atos em Gina, e assim, como muitos de nossos pacientes, afirmam no inicio, de que o profissional psi “tomou a decisão por eles”. Com sua calma peculiar, Gina o retrata muito bem como um “estagiário”. Alguns episódios depois (1.20), o telespectador é apresentado a informações de que nós, profissionais psis, também somos humanos. Sim!...nós também casamos e nos divorciamos e estabelecemos padrões nos nossos comportamentos, assim como os nossos pacientes. É comum vermos nos debates na Internet pessoas inconformadas com noticias de que psicólogos cometeram suicídio ou traíram os parceiros(as), como se, ter formação em uma área psi, nos colocasse em uma posição acima de qualquer problema ou conflito. Vale ressaltar que, assim como um médico pode fumar e desenvolver câncer de pulmão, assim como um profissional de saúde pode ter relações sem camisinha e contrair uma DST, ou que um engenheiro pode comprar imóvel que tenha sido construído com material de baixa qualidade, nós também estamos sujeitos aos percalços da vida e desenvolvemos nossos conflitos também. A diferença é que necessitamos estar muito bem treinados para reconhecer estes momentos e buscarmos ajuda profissional, seja na nossa analise, seja na supervisão. Outro ponto importante é quando Gina mostra a Paul que o envolvimento com um paciente está alem de uma questão “apenas” ética: é algo eterno. Ele JAMAIS poderá se envolver com ela, seja quanto tempo se passe depois do termino ou interrompimento da analise.É claro que Paul discorda, uma vez que adentrou a transferência erótica e tenta de todas as maneiras fugir desse enlace que ele acredita ser apenas teórico. Mas, não é...Apesar do modelo supervisão-analise pessoal ser bastante distinto do mais comum e praticado aqui no Brasil, uma coisa é nítida: o publico psi ama Gina e não conheço sequer UM profissional que não admire esta personagem e que não deseje ser seu paciente ou supervisionado. Com suas interpretações sisudas e marcantes, ela conseguiu cativar o publico, desde os mais iniciantes aos mais experientes. Se você ainda não assistiu ao seriado, ainda há tempo! São 48 episódios nesta temporada e estamos ainda na metade do caminho. Você ainda têm tempo de se tornar “íntimo” das tramas citadas neste episodio.E não se preocupe! A próxima temporada já está em fase de produção. Já sabemos que alguns permanecerão e outros novos pacientes serão apresentados, alem de termos uma mudança de cenário, com um novo setting, em uma nova localidade.*** Artigo publicado originalmente na Revista Psiquê Ciência e Vida |  |
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