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Em Terapia, Temporada 3 (In Treatment)A terceira temporada da série In Treatment (Em Terapia) levanta questões sobre o sujeito contemporâneo no papel do analisado e do analisando e a fragilidade do tratamento terapêutico ortodoxo Por Eduardo J. S. Honorato e Denise DeschampsTerceiro ano, terceira temporada, terceira vez que escrevemos sobre eles. Começa a série transmitida aqui no Brasil pela HBO conhecida como In Treatment (Em Terapia). Retorna com novos ares, sendo agora totalmente produzida nos EUA e não mais trazendo um roteiro adaptado da série israelense. Chega a nós, realmente, bastante modificada, tanto no número menor de episódios, no fato de apresentar menos pacientes do que as anteriores, e devemos também dizer que bem mais profunda do que a segunda temporada. Nessa nova etapa serão apresentados apenas três pacientes: Sunil (Irfan Khan), Frances (Debra Winger) e Jesse (Dane DeHaan). Gina, antiga terapeuta e supervisora de Paul, apenas será mencionada, agora como uma autora de livro de grande sucesso. Entra em cena sua nova analista, Adele (Amy Ryan), uma jovem mulher indicada a Paul e bastante competente.Na primeira semana o espectador é apresentado aos três pacientes que conduzirão essa temporada. Sunil, que chega acompanhado por seu filho e nora, preocupados com um estado depressivo que estaria apresentando desde sua chegada aos EUA. No primeiro episódio, Sunil quase não fala e quando o faz recorre ao filho como intérprete utilizando sua língua natal (bengali), embora ele mesmo fale inglês perfeitamente. Esse paciente será nesta temporada um importante condutor de um fio lógico a construir os questionamentos de Paul e criará um clima de suspense e surpresa. Partindo de um olhar em que encontraremos um paciente em elaboração de um luto, pela perda de sua mulher e mudança para os Estados Unidos, passaremos com Paul por suspeitas de riscos de um surto psicótico e posteriormente de manejo perverso, até nos defrontarmos com o inusitado, colocando seu analista diante de seus mais duros questionamentos sobre sua prática. Vale muito acompanhar bem de perto o tratamento de Sunil.Jesse é um adolescente adotado que passa neste momento por todo um questionar e busca por suas origens, colocando-se diante de intensos sentimentos de abandono e rejeição. Muito de seu acompanhamento nos remeterá ao que Arminda Aberastury descreve em seu livro Adolescência normal, uma vez que acompanharemos atos juvenis que muitas vezes estarão ali no limite da lei, um questionar que o coloca em risco todo o tempo, um teste que ele lança ao mundo adulto de forma bastante agressiva na maioria das vezes. Sublinhará para Paul suas dúvidas diante do próprio filho que está iniciando seu processo de adolescer.Frances, uma atriz famosa, está diante de questões que atravessam o feminino na atualidade, em que privilegiar a vida da competência profissional muitas vezes lança a mulher em acusações, internas e externas, quanto às suas capacidades materna e feminina. Essa paciente chega por uma queixa que remete à clínica psicossomática, trazendo um sintoma que condensa todo o discurso que essa mulher constrói sobre suas dúvidas em seus vínculos. A fala de Frances, que some no ensaio da peça, grita como um longo discurso dessa mulher ante seus afetos. A condução de Paul, em muitos momentos, remete-nos a um manejo bastante pertinente dentro do método psicanalítico. Algumas intervenções são brilhantes.Com Adele, Paul sentará no divã, agora fora completamente da relação ambivalente, materna, que mantinha com sua anterior analista, Gina. Vê-se diante dessa mulher jovem e atraente e ele no lugar da transferência em que em outras temporadas, escorregou a partir da escuta analítica. A condução de Adele difere, em tudo, do manejo de Gina. É uma terapeuta adaptada a todos os novos modelos de atendimento, mantém uma escuta muito bem amarrada, faz intervenções bem pontuais, atende a um rígido enquadre analítico, claro que dentro daquilo que conhecemos como Psicanálise americana. Paul, por mais que a questione, sentirá, também, a segurança garantida por um contrato bem formulado e conduzido, dentro dos mais estreitos limites da relação profissional. Sem dúvida nenhuma, esse aspecto nesta temporada será muito importante para a sustentação de todas as perguntas que lançará focando nos conflitos de Paul.A série, em seus episódios iniciais, ainda não consegue fugir muito do ritmo anterior, mas logo isso será desmanchado e abrirá uma nova perspectiva que chega a beirar o suspense. Sem dúvida, uma temporada que, mais ainda do que as anteriores, foca nas questões éticas que envolvem o ofício do psicanalista, limites técnicos, éticos e humanos. As primeiras sessões de Sunil podem ser utilizadas naquilo que denominamos Cinematerapia Acadêmica, para estudos sobre Melancolia e Depressão.Deixa-nos, ao final, com uma pergunta que vai para muito além das questões que envolvem a condução de uma análise. A cena final de Paul em meio à multidão, depois de assistirmos a toda a temporada, ganha uma dimensão impensável, cutuca a fundo angústias existenciais que atravessam o sujeito em seu corte temporal, de igual maneira sujeito analista e sujeito analisando. Pensamos que houve por parte dos roteiristas a escolha deste questionamento sobre o percurso ético que atravessa o campo transferencial, que acaba por colocar terapeuticamente a indagação sobre o grau de envolvimento que a condução de uma psicoterapia irá com ele trabalhar. Vemos nessa perspectiva do roteiro, algo que vai além da discussão presente nas diferentes linhas de abordagem do campo psi. Esse envolvimento que pode ser maior em um psicanalista que trabalha com o referencial de neutralidade do que em um espontâneo terapeuta gestaltista, por exemplo. Queremos dizer aqui que nem sempre o corte teórico ou seu referencial técnico se constituem no limite preciso dessa indagação.O sujeito psicanalista também sofre daquilo que tratará em seu ofício, estará inevitavelmente inserido no campo em que lança o traçado do método psicanalítico. Ele também atende à demanda acelerada e múltipla na qual o ser contemporâneo se vê no limite de novas concepções do ato que imprime a vida na atualidade. Vê-se lançado em todas as incertezas das novas orientações das configurações de agrupamento que hoje se vivencia, desde as novas concepções para as famílias, passando pelo que o social espera como enaltecido, como sucesso e gratificação. A meia luz do consultório está longe do poder de afastá-lo da delicadeza destes novos indicadores. Paul encarna isso nessa nova temporada. Seu semblante representa a angústia desse homem diante de seu mundo pessoal e profissional.Esse sujeito analista, esse tal sujeito da demanda de análise, analista e analisando, o que está sendo dito? O que se escuta?Paul, envolvido de forma intensa em questões que apontam para a desorientação que os novos modelos podem atuar na clínica, toca também em dados de ordem legal que em outros tempos um psicanalista não se veria às voltas e que, de certa maneira, implicam em modificações que comprometem a escuta livre que deve privilegiar a Psicanálise. Entre o ato de escrever como elaboração e o ato de escrever como obrigação legal, há um interstício do qual é preciso que se ergam reflexões aprofundadas. Sublinha-se a questão que já preocupava Freud quando lança de certa maneira um modelo que levaria ao que hoje é conhecido como “supervisão”: quem é esse sujeito da escuta?Mesmo levando em conta o particular e o singular, há um espaço institucional que, talvez, necessite mais uma vez ser visitado. Esse psicanalista também sofre no exercício do seu ofício, também ali no espaço da aplicação do método há todo um desamparo que precisará ser colocado, vivenciado e elaborado. Entra em questão, então, a própria direção do afeto que se disponibiliza no dispositivo analítico.Paul, sem dúvida alguma, coloca-nos diante do que Freud, quando se refere ao temido conceito de “Reação Terapêutica Negativa”, fala em O Ego e o Id: “Talvez isso também dependa de que a personalidade do analista passa a permitir ao paciente colocá-lo no lugar de seu ideal de ego. Isso envolve a tentação de o analista desempenhar o papel de profeta, salvador e redentor do paciente”. A armadilha reside justamente no ponto que ao proceder dessa maneira, o analisando necessitará “a liberdade para decidir por isso ou por aquilo”, e em que muitas vezes, a piora passa a ser, em certa medida, transgredir o ideal do analista. Sunil, em sua última conversa com Paul, evidencia isso, sublinha, presenteia ao “amigo”. Podemos supor um Sunil perverso ou sua perversão constrói justamente seu próprio caminho rumo à alteridade?Jesse, ao encerrar a terapia e “colar” nas expectativas paternas, foge ou encontra finalmente o pai que precisava para o acolhimento e construção de um caminho rumo a uma maturidade menos calcada na premissa da mágoa e do desamparo? Reconhecer a mãe que falha não seria um caminho? A estática delirante promove encontro ou tapa a conexão com o real?Frances pode perdoar memórias, mas poderá perdoar o porvir plantado no medo, na ira, na inveja que perpassa sua trajetória? Quando somatiza, passeia na borda de seu enlouquecimento. Onde surge o sintoma, surge uma fala em um silêncio que grita sua angústia. Adele conduz Paul para a visão de sua falta, sua desilusão, sua busca latente por amor, via transferência erótica na qual sempre acabará marcado, seja como depositário, seja como depositante, enfrenta o vazio de afeto que esteriliza seu cotidiano, transbordando em sua “zona de conforto”, perigosa ali quando atravessa sua escuta analítica.Há algo no terapeuta Paul que remete a uma fragilidade constante, humanizado em sua função de escuta. Em qual medida isso é trabalho, em qual medida isso remete ao “ponto-cego”. Ficamos em dúvida acompanhando seus atendimentos. Se hoje, diante do sujeito contemporâneo, muitas instituições psicanalíticas começam a questionar se cabe ainda o setting ortodoxo, por outro lado a imprecisão dessas medidas remete a profunda angústia, até mesmo real, prática e legal. Os minutos de uma sessão com certeza ganham a pressa da atualidade. O tempo é outro, o sujeito é marcado por aquilo que o insere em seu tempo, sujeito analisando, sujeito analista.“O medo é um sintoma do nosso tempo. A tal extremo que, se rasparmos um pouco a superfície, poderemos verificar o pânico que está subjacente nas pessoas que vivem sob a exigência do trabalho nas grandes cidades. A exigência é tal que se vive automaticamente, sem que um sim ou um não tenha precedido os atos”. (Ernesto Sábato)Uma coisa Paul nos ensina em sua cena final: é preciso acender luzes, é preciso ver-se sujeito em seu tempo, é preciso encarar seus próprios medos.Afinal, o sujeito contemporâneo atua mais do que elabora. Nome – Em TerapiaTítulo original – In Treatment – 3ª TemporadaLançamento – Direção – Rodrigo Garcia, Chris Misiano, Paris, Melanie Mayron BarclayDuração – 30 minutos (cada episódio)Gênero – Série Distribuidora – HBOSem dúvida, uma temporada que, mais ainda do que as anteriores, foca nas questões éticas que envolvem o ofício do psicanalista, limites técnicos, éticos e humanos Mesmo levando em conta o particular e o singular, há um espaço institucional que, talvez, necessite mais uma vez ser visitado. Esse psicanalista também sofre no exercício do seu ofícioOs minutos de uma sessão com certeza ganham a pressa da atualidade. O tempo é outro, o sujeito é marcado por aquilo que o insere em seu tempo, sujeito analisando, sujeito analista |  |
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