(Meet Joe Black, 1998)
Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps
Filme que nos ensina sobre a capacidade de Eros em Thanatos, ou da pulsão de vida que impera na pulsão de morte, com seu representante máximo, sua possibilidade de se mostrar em vínculo amoroso, capacidade de fazer ligações, investir afeto.
Apresentam-nos os personagens Brad Pitt e Antony Hopkins, refazendo percursos e aproximando-se ao longo desse complexo argumento que nos levará pensar sobre, o roteiro desse filme.
Thanatos resolve experimentar o que há na vida que leva a que as pessoas, a desejem tanto, tão bem representado na voracidade que mostrará ao provar a pasta de amendoim, simples ato que leva direto ao entendimento de algo tão presente na formulação freudiana, o prazer, sentido por quem experimenta alguns dos sentidos da evolução do sujeito, aqui mostrado na oralidade tão constituinte de cada um de nós. Vislumbrará em seguida a curiosidade despertada pelo forte vínculo de um pai com sua filha, a capacidade de amar presente nessa relação. Ao mesmo tempo lançará ao espectador a pergunta tão intrigante de o que seria que sustenta o amor. O que buscamos no objeto onde se adere toda a impulsão de Eros? Amar seria sempre também morrer um pouco, matar um tanto? Luto e Melancolia. No filme, representados pela perda do objeto de amor recém encontrado e que retorna investido de morte, como a nos lembrar da perda inevitável a qual ameaça todos os vínculos que fazemos ao longo da vida. Ou na aceitação das escolhas dos filhos ou da aquisição de autonomia a que têm direito.
Se esse filme não responde a nenhuma dessas perguntas, nos levará a entrar em contato com tudo aquilo que as formulam e suas possibilidades múltiplas de resposta.
Como a vida se constitui a partir da sua incontornável finitude. Como Freud pôde descobrir ao longo de suas pesquisas que apontou para a descoberta de que temos em nós, o visitante permanente representado nesse filme por Brad Pitt que ganha no filme o nome de Joe Black e nos aponta para a atração que Thanatos pode exercer em nossas vidas.
Dirigido por Martin Brest e trazendo no elenco o sempre formidável Antony Hopkins, além de Brad Pitt e Claire Forlani.
Encontraremos nele de uma forma lúdica e divertida uma bela apresentação da definitiva teoria pulsional apresentada por Sigmund Freud, a luta contra nossa finitude e a atração que temos por ela, mistura que nos move em nosso desejo frente aos nossos objetos de investimento.
Beijar a morte e injetar nela toda impulsão da libido, nos demonstrando em imagens o que Freud postulará como o algo para além do princípio do prazer.
“Outro fato notável é que os instintos de vida têm muito mais contato com nossa percepção interna, surgindo como rompedores da paz e constantemente produzindo tensões cujo alívio é sentido como prazer, ao passo que os instintos de morte parecem efetuar seu trabalho discretamente. O princípio de prazer parece, na realidade, servir aos instintos de morte. É verdade que mantém guarda sobre os estímulos provindos de fora, que são encarados como perigos por ambos os tipos de instintos, mas se acha mais especialmente em guarda contra os aumentos de estimulação provindos de dentro, que tornariam mais difícil a tarefa de viver”.(1)
É preciso que se entenda esse "agressivo" como algo que impele, impulsiona através dessa força intrínseca que Freud chegou a cogitar em chamar de "destrudo", mas deixou-lhe o nome de libido mesmo, ao final tudo é libido, acontece de maneira conjunta. Joe Black e Susan Parrish.
A Pulsão de Vida não é necessariamente a boazinha e a de Morte a malvada assassina, não é assim que funciona. Podemos pensar, como exemplo, que sem o trabalho da Pulsão de Morte não teríamos a descarga que se traduz pelo orgasmo, o gozo, tão estudado por nós. O corpo é na verdade, o gerador de toda "tensão de necessidade". O nirvana supõe a ausência de necessidade, de tensão, de angústia, de falta. Para nós, organismos vivos, esse estado só é atingido antes de nascermos ou depois com a morte dele.
“Estaria em contradição à natureza conservadora dos instintos que o objetivo da vida fosse um estado de coisas que jamais houvesse sido atingido. Pelo contrário, ele deve ser um estado de coisas antigo, um estado inicial de que a entidade viva, numa ou noutra ocasião, se afastou e ao qual se esforça por retornar através dos tortuosos caminhos ao longo dos quais seu desenvolvimento conduz. Se tomarmos como verdade que não conhece exceção o fato de tudo o que vive morrer por razões internas, tornar-se mais uma vez inorgânico, seremos então compelidos a dizer que ‘o objetivo de toda vida é a morte’, e, voltando o olhar para trás, que as coisas inanimadas existiram antes das vivas”.(1)
O balé pulsional a que Freud nos apresentou, nesse filme ganha belas imagens para representá-lo. Sem dúvida que Brad Pitt convida a pensar durante todo o filme sobre o fascínio da morte, belo Brad.
Antony Hopkins em seu personagem nos faz pensar no quanto é importante nos atermos em nossa noção de finitude. A vida completa que sabe que seu fim chegará, eleger e priorizar atos baseados em profundos afetos, verdadeiros, intensos e completos. Vida que ao final poderá ser vislumbrada como algo que se realizou, sem espera e sem adiamentos. Cenas finais do filme e William Parrish(Antony Hopkins) sobe uma escadaria para o encontro final com Joe Black, pode olhar para a festa em sua homenagem como quem parte repleto, completo, realizado em seu traçado de vínculos.
Joe Black(Brad Pitt) devolve à Susan Parrish(Claire Forlani) seu amor, potência de vida, Thanatos reconhecendo que não habita ali, não alcança em sua possibilidade destrutiva lá onde o amor impera.
Freud na entrevista (link 2), diz: "Tudo o que vive perece. Por que deveria o homem constituir uma exceção?" Então poderemos ter a certeza que a Pulsão de Morte sempre triunfará, lei inexorável. Perguntamo-nos então: por que será que vivemos sob a negação da existência dessa lei? Como se tivéssemos todo o tempo? Como se o término não marcasse tudo que pulsa sobre a Terra?
William Parrish convence Joe Black a lhe dar mais tempo, enquanto mostra a ele o que prende cada sujeito à vida. Esquece-se apenas que o que mais nos contempla são nossos vínculos com outros seres, e assim Joe se aproxima da filha de William, Susan, trazendo-nos para reflexão aquilo que mais nos assusta, a ameaça aos filhos, frutos dos vínculos amorosos que estabelecemos e nos quais depositamos todas as nossas expectativas de futuro, continuidade e imortalidade.
Quantos mecanismos adoecidos e neuróticos, desenvolvemos frente às perdas comuns da vida: de posto de trabalho, de amor, de lugar etc? Quantos lutos saudáveis de crescimento, nos negamos a operar, abordando como sofredores uma tragédia engendrada apenas pela impossibilidade de lidar com o fim de algo? Eros em seu movimento depende de Thanatus e seus fins para novos começos. Em última instância negar a morte é recusar-se a viver. Negar-se ao fim de algo será encarcerar-se no imobilismo, paralisia e adoecimento psíquico. Podemos pensar nisso na aproximação de Susan em relação a Joe.
Esse filme poderá nos ajudar a pensar nos lutos possíveis, nas elaborações saudáveis e também nos adoecimentos quando não realizadas com êxito essas tarefas. Um sintoma teria segundo o próprio Freud um aspecto de resistência à análise e outro, ainda mais importante, de tentativa de romper com o recalque.(1) A compreensão da dinâmica e principalmente do ponto de vista econômico da teoria pulsional a partir da postulação da pulsão de Morte, torna-se nesse aspecto, fundamental para o entendimento do funcionamento do aparelho psíquico proposto por Freud. Entender que o adoecimento também visa uma realização e não somente é uma “pedra no meio do caminho”, traz em si uma funcionalidade que, se não compreendida, jamais poderá ser investigada e desmanchada em um processo terapêutico.
A vida é a nossa festa para a qual somos convidados diariamente, mesmo quando os sapatos nos apertam, mesmo quando as dores são inevitáveis.
A vida prossegue no filme, Thanatos representado por Joe devolve à Eros o que lhe pertence, por instantes que farão a vida de Susan até que Joe venha buscá-la, a festa continua. Susan perdoa seu pai, restabelece possíveis acordos internos, prossegue em sua autonomia.
“É preciso amar as pessoas
Como se não houvesse amanhã
Por que se você parar
Prá pensar
Na verdade não há
(...)
Você culpa seus pais por tudo Isso é absurdo São crianças como você O que você vai ser Quando você crescer?”
(Legião Urbana)
# Encontro Marcado Cinematerapia Psicanálise Filmes Psicologia 1 Além do Princípio de Prazer - S. Freud – Obras Completas – vol
2 http://www.redepsi.com.br/portal/modules/soapbox/article.php?articleID=264
3 Entrevista com Freud http://www.geocities.com/~mhrowell/entrevista_freud-2.html
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