Era do Gelo 3 (D) (Ice Age: Dawn of the Dinosaurs, 2009)
Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps
Sinopse
Trailer
Se é para se jogar, que “se jogue de cabeça”.
Quando propusemos uma possível Cinematerapia, comentamos sobre a possibilidade de se deixar invadir pelas emoções que o cinema nos desperta. É preciso se deixar envolver e o filme despertará algo em seu psiquismo.
Nada melhor do que a “realidade 3D”, onde ao invés de você adentrar no filme, ele “vem” até você. A terceira edição do desenho veio neste formato e a experiência é bastante interessante, uma vez que desenhos com suas belas metáforas, trazem consigo mensagens que podem levar à reflexões.
Se puder, assista acompanhado com crianças, naquela bagunça que somente elas sabem fazer no cinema. Se permita voltar no tempo, a sua infância, e curta um momento de regressão somente seu, repleto de efeitos especiais. É claro que com isso, você terá que ver o filme dublado (infelizmente, não é uma das melhores já realizadas).
O desenho versa sobre relações familiares, laços afetivos e em como a chegada de um novo membro pode alterar a dinâmica familiar. Nada mais produtivo para uma cinematerapia, seja pessoal, seja em grupos de adolescentes e crianças. Uma belíssima história de como construímos nossos laços afetivos ao longo de nossas vidas.
Ellie, a mamute, está “grávida” e preste a ter seu filhotinho. O pai, Manny está ansioso como tantos outros, tentando se adaptar as responsabilidades que o papel social exige. Um filho nos traz a imortalidade (nome de família) e ao mesmo tempo nos define para sempre como mortais que somos. Seja em que idade for que isso aconteça é um despedir-se da grata imortalidade juvenil. Nos damos conta rapidamente disso ao olharmos para aquele ser ali tão desprotegido em sua fragilidade em desenvolvimento.
Estamos proibidos de morrer, a vida passa a ter sentido duplo, aumentado, redefinido. Manny e Ellie, como todo casal, passam por essas transformações e dúvidas e seus personagens, metaforicamente, começam a assumir posturas mais adultas, tendo a fêmea adotado a posição decisória.
A pequena “Amora” vai chegar, e como diria Freud, como “sua majestade o bebê”, nos impõem suas necessidades, nos ensinam a ouvi-los, nos acolhem em nossas desmedidas emoções. Como nos diz Luis Cláudio Figueiredo: “De qualquer forma, mantém-se a hipótese de que, antes de mais nada, um bebê é o suporte para as transferências de seus pais, não apenas um objeto de seus cuidados desinteressados, e de que é a partir desta condição que uma subjetividade se organiza, na forma de uma resposta à transferência”.(Sugerimos a leitura completa do texto no link A)
Esta introdução deste novo membro, dono de tudo e de todos, detentor do “parquinho de gelo” trouxe consigo as transformações na dinâmica deste grupo familiar animal, rico pela sua diversidade. São laços afetivos que se construíram ao longo de suas vidas (dois filmes anteriores – risos) que agora podem estar ameaçados pela chegada de uma “majestade REAL”.
Em Sid (“preguiça”) desperta sua pulsão materna, que independe de gênero. Vai atrás de sua própria família, mesmo que fictícia e leva seus amigos até o Elo Perdido, com toda a trama e aventura que a história requer. Não é mais macho ou fêmea. Seu gênero se perde e se define como “mãe” e “pai”. Sua necessidade de ter seus próprios descendentes o faz perder o contato com o real e sair em busca de uma satisfação pulsional. Encrenca na certa – se meteu com dinossauros.
O personagem de Buck nos remete a saúde mental e em como há certa lógica mesmo dentro dos mais estranhos devaneios. Seu personagem é um solitário perdido no Elo, que encontra em uma rivalidade, a sua motivação de viver. Apresenta sintomas que só a solidão pode trazer, mas se encanta com os laços criados pelos demais animais. Através destes descobre seu vínculo com o próprio monstro, o qual temera boa parte de sua vida. Que “estranho” será esse que a cada um de nós assusta, ao mesmo tempo que liberta?
Diego, o tigre malvado e feroz, se vê frente a conflitos, que o levam a se isolar, mas aos poucos percebe que sua “família” foi aquela que construiu ao longo de suas aventuras e é por e através dela que conseguirá resgatar sua jovialidade.
Muitas trapalhadas e aventuras acontecem até o final do filme, quando finalmente conhecemos a bebezinha “Amora”, que chega para o grande final. Que estranho ser é esse que chega para cuidar de todo um grupo? Parece indefeso, desprotegido em tanta potência. Abre livros de história, álbuns de família, sem o menor constrangimento. Ele (o bebê metaforicamente no papel de Amora) chega! Majestoso, completo, trazendo na bagagem todo o futuro dos que o olham. E diz com força:- preciso de amor.
Todo humano(mesmo na fábula, como animal) precisa de amor como combustível que alimentará seu psiquismo. Amor inteiro, sem mentiras, sem sacrifícios, amor doação que ensinará a busca pela felicidade ou levará aos traçados da hipócrita infelicidade, ao cuidar de um bebê temos a chance de fazer novos laços com o que nos foi traçado até então e ao mesmo tempo damos a ele condições ou não de traçar caminhos para uma vida mais plena.
Amora trouxe consigo a confirmação de que nossos aventureiros são sim uma família. Diferente da tradicional, com espécies das mais variadas, mas que estabeleceram vínculos de afeto tão fortes que permanecerão ao longo da vida.
O mesmo “ser” que abalou as estruturas do grupo é que servirá de ponto de união para reafirmar os laços criados nos outros filmes
Essa nova união dos vínculos que permeia a atualidade e contra a qual alguns grupos vociferam contra, brandindo desde a velha bíblia até algumas mais recentes publicações que buscam refletir sobre esse homem contemporâneo. Novas famílias se constituem, trazendo na verdade muito mais em esperança do que em desagregação como querem alguns setores da sociedade. Novas formas de constituição dos grupos sociais. Talvez esse desenho possa nos apontar para rica palavra que alguns querem destituir do seu real valor – diversidade, inclusão.
Estaria a família se acabando, se esfacelando em torno da perda da autoridade do pai? Mas como, muito bem, pergunta Elisabeth Roudinesco: de que pai estaremos falando?
“O medo da perda da autoridade paternal existe desde quando a família surgiu. Não penso que o pai tenha perdido toda a sua autoridade; ele perdeu apenas aqueles poderes exorbitantes, ou seja, o direito de vida e morte sobre a mulher e os filhos, tudo aquilo que não se coadunava com os direitos e liberdades assegurados pela democracia. A autoridade paternal agora é compartilhada”.(veja entrevista link B)
B -> http://www.estadosgerais.org/resenhas/roudinesco-entrevista.shtml
Belo desenho para as famílias compartilharem nas salas de cinema, novas famílias mistas, múltiplas, diversas encontradas pela aceitação em seu grupo social, inseridas no amor que na verdade é o que justifica o ato de viver e que nos leva ao que pode ter de bom em pertencer a um grupo, a uma época. Há esperança, e muita, naquilo que chamamos relações da modernidade. Apostamos mais do que nunca no amor e sabemos que instituições não valem mais do que vínculos amorosos, aliás, sempre soubemos disso e antes se adoecia na hipocrisia de disfarçar o indisfarçável. Freud soube bem ver isso, colaborou em dar voz presente às famosas “bocas de ouro” que quando saíram das sombras, mudaram o mundo pra sempre, ver isso apenas como abandono de uma única função a qual estariam destinadas é um grande equívoco e que separa grupos e não os eleva como querem os conservadores. A mãe hoje não rasga seu lugar de mulher para poder cumprir essa função, muito pelo contrário e ao fazer dessa forma ela ensina aspectos tão importantes para esse novo sujeito em formação: liberdade e autonomia. Há mães de todos os gêneros, função libertadora e antes de tudo, liberta da mortalha de antes, do assassinato da mulher possuidora da libido, agora ela, presente em seu próprio corpo investido em afeto. Embala canções de ninar e logo após poderá balançar o corpo sexualizado em uma bela dança do ventre. Pode partir para vínculos que a completem ou mesmo tomar sua vida e seu afeto pra si mesma, quanto não cabe mais em um lugar desinvestido do afeto do outro, tão necessário para todos nós, sujeitos do desejo, do vínculo, do amor. O homem, esse pai, poderá encontrar uma mulher que ama, investe, acolhe e está presente junto a ele na tarefa de dar sentido ao sem sentido da vida. Belas novas possibilidades que infelizmente alguns ainda lamentam a existência, cegos e surdos ao belo que há nessa mudança. Pais e mães, comprometidos junto aos seus filhos a entender a vida, sem hipocrisia ou mistificação, e, antes de qualquer outra coisa, resolver conflitos, encarar verdades, amar o diferente de si, alteridade.
Ainda em Roudinesco(link) leremos:
“Haverá famílias de diferentes maneiras ou formatos: com caráter tribal por momentos, sem que isso leve à tribalização da sociedade. Teremos famílias mais abertas, recompostas, famílias monoparentais, homoparentais, etc. O que restará essencial é tudo o que se refere aos filhos. Uma criança não pode existir, se desenvolver normalmente sem amor. Mas o amor não basta - é preciso que, ao lado, a palavra lhe seja dada. Isso porque, segundo observações comprovadas, os meninos criados em comunidades em que não haja relações personalizadas, passando pela palavra, o papo, ficam sujeitas a desequilíbrios que podem levar à loucura. Portanto, é necessário um núcleo familiar restrito, digamos quatro pessoas entre homens e mulheres, para que a criança se desenvolva corretamente. No mais, será por causa dos filhos que se frustrarão todas as tentativas de abolição da família, cujo futuro me parece dos mais promissores. Basta ver que, depois de ter sido tanto contestada, ela é desejada por todos agora, talvez mais do que nunca”.
Esse desenho em sua “simplicidade” nos remeterá a importantes reflexões, e, quem saberá se, para algumas crianças e muitos adultos ali frente a tela e a pipoca, à possibilidade de serem aceitos em seu grupo social e que possam compartilhar uma palavra tão necessária para o ato de viver – Esperança.
Esse desenho, por tudo isso que apontamos nele, poderá ser indicado e utilizado em qualquer uma das modalidades por nós propostas como cinematerapia.
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