Os Esquecidos
(The Forgotten, 2004)
Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps
Sinopse
Trailer
Com direção de Joseph Rubene, roteiro de Gerald di Pego e estrelado por Julianne Moore, Alfre Woodard, Gary Sinise e Dominic West.
Se, estamos falando de cinema e psicologia ou de cinematerapia, será que faz algum sentido falarmos desse filme? Essa foi a pergunta que nos fizemos ao decidir escrever sobre essa estranha película cinematográfica. Se o desfecho dela não tem muita relação com a psicologia em si, transformando aquilo que veríamos como delírio em uma possibilidade real, toda a argumentação construída ao longo do filme é muito interessante para pensarmos a partir de um olhar, para questões estudadas e compreendidas pelo campo psi.
O filme narra a história de uma mãe, Kelly Paretta (Julianne Moore), que perdeu seu filho há aproximadamente um ano e começa a viver uma estranha situação, porque tudo a sua volta, assim como todos, tentam convencê-la de que seu filho jamais existiu. Segundo estes, ela o teria perdido durante a gravidez e por isso, como mecanismo de defesa, haveria desenvolvido toda uma construção delirante acerca da existência de um filho, inclusive com fragmentos de lembrança que aparecem com alguma constância.
Tanto seu marido, Jim (Anthony Edwards), como seu médico Dr. Munce (Gary Sinise), tentam mostrar-lhe evidências de que tudo não passa de uma fantasia ligada a uma dificuldade de elaborar sua perda, que seria apenas um delírio reparador. Kelly Paretta segue em estado de confusão, porém sem duvidar das suas sensações internas sobre a existência de seu filho, confusa e desorientada segue, até que conhece Ash Correll (Dominic West), que seria pai de outra criança que também teria sido uma das vítimas do acidente com um pequeno avião que estaria levando em excursão crianças de uma escola.
Inicialmente ele também pensa que ela é apenas uma mulher em estado confusional, que estaria precisando de ajuda e tratamento, embora ela tente convencê-lo de que seu filho e uma suposta filha dele, teriam sido muito amigos. Ash se encontra em uma fase também muito conturbada e sofre com um estado de alcoolismo recente. Kelly, fugindo do Dr. Munce e de seu marido Jim, passa a noite na casa de Ash cuidando dele, e ao acordar repete sua história para. Ele frente a narrativa, chama a polícia para levá-la de sua casa. Ela havia retirado todo papel de parede do quarto que teria sido da filha de Ash e por debaixo dele encontravam-se muitos desenhos feitos na parede, habito esse de desenhar que teria a filha de Ash, segundo Kelly, permitido por ele. Ash primeiramente argumenta que deviam ser desenhos de antigos moradores, até que a lembrança o assalta e começa a ter flashs de momentos com sua filha.
Os amantes de Psicopatologia ao ver essa cena vibram e sempre questionam: Seria um “folie à deux”(delírio compartilhado)? Daí pra frente o filme toma rumo impensáveis, interessantes também para nosso exercício criativo e de alguma maneira como uma metáfora a respeito de como nós mesmos, não precisamos de alienígenas para fazer isso, estudamos sobre nossos comportamentos muitas vezes de maneira indutiva com uma neutralidade um tanto quanto impossível. Podemos ainda pensar nos alienígenas como os “demônios” internos, tão bem descritos por Rubens Alves em sua coluna mensal na Revista Psiquê.
Mas, o que nos interessa abordar quanto a temática desse filme? Justamente a questão dos vínculos entre crianças e seus “cuidadores”, aqueles que cumprem a função materna, que estabelecem aquilo que Winnicott nomeava de “holding” que fala de uma capacidade da mãe de identificar-se com seu filho, estabelecer uma relação tão intensa que começará, antes de que, ele possa se ver como um organismo independente e se desenvolve no sentido da autonomia quando encontra aquilo que nomeia como uma “mãe suficientemente boa” que vai junto ao seu filho construindo essa possibilidade.
Encontraremos aí outro conceito bastante interessante que é o de verdadeiro self que fala daquilo que é o sujeito antes da entrada de todas as adaptações que fará em relação ao “ambiente”. Essa ligação que se estabelece nos cuidados com o bebê funda uma relação que muitos outros autores nomearão de formas mais variadas, mas que sustentam algo que costumamos pensar, quando se estabelece, como o chamado “amor incondicional”, onde aqueles que se permitem tocar por ele, são modificados de uma maneira bastante significativa.
Sabemos que o sujeito psíquico não é o sujeito dos instintos, pelo contrário, é o sujeito das pulsões, algo que não pode ser visto como um impulso pré-determinado, embora até possa partir de algo dessa natureza. Para que se estabeleça isso que também poderia ser chamado de “transferência dos pais”(Figueiredo, L. C.)(B) ou se “deixar cuidar por seus bebês”, há todo um complexo jogo de investimentos de ambos os lados, para que se estabeleça essa relação tão fundamental na constituição de cada sujeito.
Esse filme de maneira muito clara nos coloca de frente a essa dúvida. Kelly e Ash desenvolvem em relação aos seus filhos uma ligação singularmente investida, diferente das que se desenvolveram pelo pai de Sam(filho de Kelly) e da mãe de Lauren (filha de Ash). O que explicaria essa diferença na força do vínculo? O que se poderia fazer para desligar esse vínculo? No filme se demonstra que para muitos, esse vínculo poderia ser quebrado e a lembrança dele apagada, não seriam constituintes da temporalidade desse sujeito “cuidador”. Já para outros, como Kelly e Ash, depois de tocados por ele, esse tipo de vínculo se tornaria fundamental, não poderiam mais investir sem passar por sua determinação. Assim como no filme, não temos ainda uma base de sustentação suficientemente ampla para explicar a natureza dessas diferenças nos vínculos, embora farta e ampla produção teórica já tenha sido construída a respeito em quase todas as vertentes e diferentes linhas existentes em psicologia e psicanálise.
Vemos ao longo do filme esses dois sujeitos Kelly e Ash, em busca angustiada e desesperada pela recuperação de partes fundamentais do ser que são agora no mundo, mesmo perseguidos e amedrontados são movidos pela magnitude da força que esse tipo de vínculo inaugura na vida de cada um que por ele se deixa tocar.
O final surpreendente do filme, em nossa leitura sobre ele, poderia ser encarado como uma bela metáfora, não somente como uma tentativa de explicação absurda sobre um roteiro mal construído, como quiseram alguns críticos em relação a esse filme. Pensamos que a questão dos alienígenas que nos estudariam, com ajuda do psiquiatra Dr. Munce, nos fornece uma boa imagem para reflexão. Cada vez mais, uma linha da ciência pretende implantar estudos assépticos, experimentalismos que fundam questões éticas, em direção aos vínculos humanos e aquilo que buscamos como diretrizes para um sentimento que costumamos reconhecer como bem-estar, algumas vezes como sinônimo de felicidade.
Em época de crescente uso de medicações que nos remetem ao “soma” do “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley, pensar na importância do que investimos, dos nossos vínculos, daquilo que une enquanto crença em comum e enquanto do lugar do corpo/afeto, pode ser uma questão de sobrevivência da humanidade. Propomos que os ET’s dos filmes podem ser uma bela metáfora para essa reflexão.
Mães, pais, filhos, “cuidadores”, quem conhece o amor de um vínculo “suficientemente bom” não terá como terminar de assistir a esse filme sem se emocionar muito. Toda as desventuras vividas por Kelly ganham significação e sentido quando ela pode olhar novamente para a cena banal de seu filho brincando no parque, quando pode sentir aquele abraço que a determina enquanto pessoa no tempo presente de sua vida. É belo esse filme, fala de verdades e mentiras, vínculos saudáveis e adoecidos, laços que nos unem na luta pela vida. Fica a recomendação!
Sugestão de atividade para psicoterapia em grupo (Somente para Profissionais Psi)
Separe em pares os membros(deixe que escolham)
Peça para que se sentem um frente ao outro e falem qualquer coisa: palavras soltas, contem algo ou só balbuciem letras e sons, mantendo firme o olhar um no outro.
Em seguida proponha o exercício comandando para que um fique atrás do outro, enquanto o outro se joga de costas para ser amparado pelo seu par no exercício, depois troque a função de cada um no exercício.
Una o grupo todo e comande para que façam uma “cama de gatos” com os braços, disponha-os um ao lado do outro bem próximos. O exercício consistirá em que cada membro do grupo seja conduzido ao longo dessa “Cama de braços” do início até o final.
Feitos os exercícios sentem-se em círculo e conversem a respeito.
Obs.: Essa atividade requer um psicoterapeuta treinado na condução de técnicas grupais.
Artigos em link indicados para leitura:
A - http://www.saude.inf.br/nahman/eticaemwinnicott.pdf
B - http://www.estadosgerais.org/gruposvirtuais/figueiredo_luiz_Claudio-transferencias.shtml
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