Cinematerapia®
Entendendo Conflitos
O Exorcismo de Emily Rose

O Exorcismo de Emily Rose[1]

(The Exorcism of EmilyRose, 2004)

Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps

 

Sinopse (clique aqui)

Trailer(clique aqui)

 

Orientações aos Leitores

Esse é um filme delicado que fala sobre Psicose e sobre Religião. E todos nós sabemos quanto é delicada esta questão. Acreditamos que alguns pontos sobre esse tema, relacionando Psicologia e Religião, precisam ser esclarecidos.

É complicado quando lidamos com esse tema e é um dos que mais aparece em debates virtuais. Quase que diariamente são mencionadas situações que envolvem a religião e psicologia. Falar sobre Religião dentro de um contexto psicológico e social é uma coisa, mesclar religião com Psicologia é outra. Prometer curas atreladas à religiosidade, usando teorias psicológicas não faz parte das atribuições do profissional Psicólogo(e de nenhum outro do campo psi). Se você conhece algum profissional que use de religião dentro do trabalho como Psicólogo, sugerimos que procure orientação no Conselho Regional de Psicologia (CRP). O nosso Código de Ética do Profissional do Psicólogo não permite esse tipo de associação. Portanto, desconfie de trabalhos psicoterápicos atrelados a qualquer que seja a corrente religiosa.

Existem diversos “tipos de conhecimento”, sendo a Religião em deles, e a Ciência, outro. Estamos, portanto, trabalhando no campo da ciência psicologia, e a religião aqui tem um papel específico. Sabemos que muitas ou mesmo maioria das vezes, alguma tensão se instala entre esses dois campos.

A religião entra em nossos estudos como um evento coletivo, um fenômeno, uma crença, uma necessidade. Existem mil possibilidades de entendimento deste objeto de estudo, mas não como um pressuposto teórico, pois não é Psicologia.

Um religioso usa seus conhecimentos na área para ajudar aqueles que o procuram. Este é seu papel. Um psicólogo, usa a psicologia e os conhecimentos do campo psi para auxiliar seus pacientes.

Assim, a religião adentra o consultório (setting) somente em um sentido. É uma mão-única[2] que vem somente do paciente ou analisando. A religião do profissional fica do lado de fora do consultório e não faz parte de nenhum pressuposto teórico de nenhuma escola da Psicologia.

            O que isso quer dizer? Não estamos, nem pretendemos, ignorar as crenças religiosas. Elas existem e devem ser respeitados, pois antes de tudo, são um Direito Constitucional.

            O profissional psicólogo precisa entender o significado que essas crenças têm no psiquismo do paciente,  sempre com muito respeito e acolhimento.

           Esse filme é recomendado para pessoas que convivem com pacientes já diagnosticados com tipos de psicose. Serve como identificador de sofrimento, ou seja, ver que outras famílias também já passaram por isso e sofreram também e que há sim, uma possibilidade de ajudar este familiar, esse ser que sofre. A Religião é apenas uma das maneiras, e nessas horas, devemos nos utilizar de todas as possíveis. Para os profissionais, há um material importante sobre Religião e comportamento e em como pode haver interferência na psicoterapia. Útil para refletir que o profissional “embarca” com seu paciente, na tentativa de um resgate, dentro das próprias crenças dele (paciente).

Para os professores, há grande material para estudos sintomatológicos de casos de Psicose, bem como abordagem psicoterápica.

 Esta é a nossa  leitura do filme:

Esse é um filme que leva a uma reflexão sobre Psicopatologia[3], Religião e Psicologia[4] /[5]

Uma batalha no tribunal traz visões diferentes de um mesmo fenômeno: cientistas falando sobre possessões do ponto de vista antropológico[6] e religioso, sendo debatidos por psiquiatras[7] e médicos. Nem mesmo em questões legais, essas áreas de conhecimento conseguem chegar a um consenso. Ainda bem, pois precisamos desses conflitos para que continuemos a pesquisar e produzir.

Para quem gosta de psicopatologia, existem menções bem interessantes no filme, sobre o Manual de Diagnósticos DSM-IV[8] que é aquele livro que orienta os trabalho dos profissionais de Saúde Mental. Os sintomas de Esquizofrenia Paranóide (295.30), Catatônica (295.20) e Transtorno Dissociativo de Identidade (300.14) são mencionados.

A grande “batalha” judicial seria travada de acordo com os possíveis diagnósticos para o caso de Emily.

Você leitor deve se perguntar então, se Emily tinha o mesmo problema que algumas pessoas que alegam serem “possuídas”. Não podemos afirmar isso, pois não conhecemos tais casos. Se você conhece alguém que tenha sintomas semelhantes, esteja sofrendo e precise de ajuda, procure um profissional.

            Psicólogos e psicanalistas também são pessoas e têm suas crenças e religiões. Não podemos pensar que só porque atuamos nessa área estamos isentos disso. O que pensamos, acreditamos ou pra quem rezamos não importa, desde que não levemos isso para dentro do nosso consultório, muito menos como juízo de valores.

            Assistindo a este filme, você pode questionar que existem coisas – e muitas – que as nossas ciências não podem explicar(talvez, ainda).  Não existe uma visão única sobre um mesmo fenômeno, seja ele cientifico ou não. Ele (o filme) mostra a visão dos profissionais de saúde mental e a visão dos religiosos e historiadores. Ambas "podem" estar corretas. O filme deixa realmente um final aberto. Cada um acredita no final que lhe “tocou” mais.

Temos aqui, e isso que veremos, a possibilidade de expandir nossos conhecimentos sobre outras abordagens, na tentativa de entender outras Escolas da Psicologia.

Sobre os acontecimentos as "3h" durante o filme, este pode ser entendido como sugestão do padre para com a advogada, afinal, se pararmos para analisar concretamente, nada acontecia às 3:00h. Eram apenas "sensações”.  Por outro lado, uma psicóloga analítica, em um debate na Internet, mencionou o conceito de “sincronicidade” de Jung[9] e que talvez este pudesse explicar melhor essas cenas, como uma espécie de compreensão instantânea, ou “insight”. Deixamos a questão em aberto a estes especialistas na teoria Analítica de Jung[10] e possíveis debates entre estudantes e profissionais. Outra leitura possível seria pesquisar em dados históricos das relações familiares ligadas a esse marcador de tempo(leitura mais psicanalítica).

Não podemos esquecer que a religião e crenças fazem parte do homem e não podemos impor que todos tenham a mesma visão de homem, mundo e ciência que nós temos. Se assim fizéssemos, estaríamos também agindo da mesma maneira que os inquisidores na Idade Média. Portanto, tanto a versão da Psicologia como a da Religião, estão corretas, dentro de seus contextos.

Hoje nós interpretamos o filme com a explicação cientifica da psicopatologia, mas daqui a uns anos, quem sabe, com o nosso entendimento maior de alguns fenômenos, outras explicações irão surgir e poderemos perceber que estávamos equivocados (e não errados), da mesma maneira que Hipócrates se equivocou com os líquidos do corpo e muitos outros na história. A Ciência é algo que se constrói passo a passo: o de antes é fundamental para o próximo! Afinal, se não fosse assim, ainda pensaríamos que a Terra é quadrada.

Voltando a Emily: A Esquizofrenia é um sofrimento psíquico, no qual o paciente apresenta uma série de sintomas, dentre eles, a perda de contato com a realidade. Não que o neurótico também não o faça, mas  ele o faz com mecanismos diferentes[12]. Um dos sintomas mais nítidos nas psicoses são as alucinações e delírios, ou, alterações das funções do Ego mais perceptíveis[13].

Isso se caracteriza por uma série de alucinações (visuais, auditivas, etc), comportamentos estranhos. São as cenas clássicas dos filmes, onde os personagens vêem coisas, escutam vozes e tem uma percepção da realidade totalmente deturpada. 

É uma quadro bastante intenso, e dentro do quadro "esquizofrenia" existem outros 5 subtipos: Paranóide, Residual, Catatônica, Desorganizado e Indiferenciado. Cada uma com sintomas mais específicos.

Ouvir vozes é o suficiente para ser chamado de “esquizofrênico”? Claro que não. Vamos citar um exemplo: temos uma amiga que vê e conversa com Gnomos no seu jardim todos os dias. Ela não é esquizofrênica. Ela não sofre com isso e não traz prejuízos para a vida dela. O que é? Não sabemos, mas, como não é um sintoma, não está fazendo mal a ela, não está do campo da psicologia, e sim, das crenças. Cada um no seu “quadrado”. No Rio de Janeiro sabemos de um grupo que estuda o que chamam de “ouvidores de vozes” e que não são necessariamente portadores de qualquer quadro de grave de sofrimento psíquico. Esse grupo nasceu de estudos que apontam que muitos de nós, já teve pelo menos um episódio dessa natureza ao longo da vida, quando não vários ou freqüentes mesmo. Esses estudos são conduzido dentro de um Instituto de pesquisa em psiquiatria e psicanálise.

“Uma Mente brilhante” (A Beautiful Mind, 2001) mostra um desses tipos de Esquizofrenia que citamos antes, a Paranóide: um dos poucos tipos onde a inteligência do paciente não é afetada. Quando estudados separadamente há possibilidade de se identificar os chamados sintomas “positivos” e sintomas “negativos” da esquizofrenia. Basicamente, os “negativos” são aqueles que causam “deterioração” de alguma função do Ego, e os positivos, aqueles que são “novos”, e “aparecem” com o quadro. Os sintomas negativos de Emily são seu distanciamento afetivo, sua retração social, avolição e seus sintomas positivos seriam, entre outros, suas alucinações.[14]

Para alguns de nós pode parecer fácil lidar com os problemas e resolver nossos conflitos, mas somos diferentes, possuímos algo que nomeamos de “singularidade”, e lidamos com a dor, sofrimento, alegrias, tristezas, etc, de maneira diferente. A maneira que Emily encontrou de lidar com esse seu sofrimento foi “cortar” com a realidade e construir uma outra, assim como a personagem de “Uma Mente Brilhante”. Eles “cortam” com a realidade na tentativa de “sofrer” menos. Podemos ver nesses quadros também uma tentativa desesperada de salvar o psiquismo, uma ação de tentativa de ligar-se de alguma maneira mundo interno e externo possibilitando algum contato com o que chamamos de realidade.

Por uma série de questões psicodinâmicas, o paciente "quebra" com a realidade, e a partir das alucinações (e fantasias) cria um outro mundo, colocando-os do lado de fora, na leitura que fará do que chamamos de mundo externo. É como se o mundo real fosse aterrorizante demais e causasse muita dor, assim, ele corta com essa realidade e cria uma própria, perdendo o contato com a percebida pela maioria de nós.

            Para nós, que não passamos por este sofrimento psíquico, um “surto esquizofrênico” se apresenta de forma abrupta e podemos perceber o quanto esse paciente está sofrendo, lutando em uma tentativa de evitar um sofrimento maior. Podemos questionar o quanto “frustrante” deve ser a nossa-dele realidade, a ponto de “quebrar” e se esconder em uma outra, repleta de fantasias ou partes “excindidas” do seu mundo interno.

Não podemos esquecer que o próprio Freud já escrevera que o que chamamos hoje em psicopatologia de alucinação, nada mais é do que a não percepção da realidade externa, ou uma percepção sem efeito. Escreveu também, o primeiro a fazer isso, que o surto não é a doença, mas a tentativa de sair dela. Há então uma criação de dois novos mundos, interno e externo, baseados nos desejos do Id, que perdem assim sua capacidade de diferenciação muito estabelecida.

O que é esse Id dentro da tópica freudiana? O aparelho psíquico, segundo Freud, é composto por Id, Ego, Superego e ainda considerando a Realidade. O Id é anterior às outras instâncias, todas se formam a partir dele: “No Início tudo era Id”(Freud). As outras instâncias ganham aspectos inconscientes e conscientes, o id, sede das pulsões(o que nos impulsiona para a realização) é a única instância(topos) que permanece sempre totalmente inconsciente, sendo sempre uma fonte de tensão para o aparelho psíquico que promove pelo ego o atendimento dos seus três senhores:id, superego e realidade.

Para entender melhor o quadro sintomatológico de Emily é preciso recorrer a Psicopatologia[15]. Há uma diferença básica entre ILUSAO e ALUCINAÇÃO[16]. A ilusão é quando há uma percepção errada de um estimulo. Ex.: você vê uma sombra e imagina que é uma pessoa, mas na verdade, é uma árvore se mexendo. Foi um “erro” na sua percepção.  Já ALUCINAÇÃO é quando muitas vezes não há estimulo qualquer, mas seu cérebro entende como algo e normalmente, no caso dos esquizofrênicos, é algo bastante persecutório. Ex.: você olha para alguém e vê os olhos se movendo. Olha para a parede e vê rostos de pessoas. Escuta vozes falando mal de você, quando não há barulho algum.

Na mediunidade, pelo pouco que sabemos sobre este assunto, o sujeito "possuiria" um "poder”, uma sensibilidade maior para manter contato com pessoas mortas ou receber espíritos. Isso, nada tem a ver com a psicologia (é uma outra área do conhecimento). É uma crença, e ainda não foi comprovada cientificamente que realmente aconteça. Não estamos dizendo que isto não aconteça, mas este não é o nosso objeto de estudo, logo, deixemos cada área de abordagem sobre as questões humanas trabalhar com seu foco. Como foi dito pelo físico Fritjov Capra em uma publicação sua a diferença entre o místico e o psicótico seria algo como que o primeiro teria a passagem de ida e volta garantida.

Esses "espíritos" que essas pessoas recebem, ou "escutam" não são caracterizados como sintomas psicóticos, poderiam ser chamados por nós, em uma aproximação possível, de ego sintônicos, quer dizer, não produzem sofrimento psíquico. É possível que muitos pacientes psicóticos sejam "entendidos" pelo senso comum como “médiuns”, mas, a questão é muito mais complexa. Basicamente: o esquizofrênico OUVE vozes e VÊ coisas porque está ALUCINANDO e o médium "acredita” estar escutando ou recebendo espíritos e este último, até que se prove o contrario, não é um portador de um sofrimento psíquico. Se suas crenças, visões e vozes não o incomodam, que ele viva bem tranquilo, assim como nossa amiga que dá maçãs todas as manhãs para os duendes dela. Qual o problema? Nenhum!

O paciente esquizofrênico tem um comprometimento social bastante grande, não só para ele, mas também para toda a família.   Em Psicologia não há como “medir” quem sofre mais e quem sofre menos. Sofrimento é sempre sofrimento e incomoda aquele que o tem. Nesses quadros além do sofrimento psíquico há todo um sofrimento “social” de discriminação. E você leitor, pode ajudar neste aspecto, vencendo as barreiras dos seus preconceitos e não discriminando estas pessoas. Há todo um movimento do campo psi mundialmente falando e representado aqui no Brasil pelo “Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental” e pelo “Luta Antimanicomial” que visa a inclusão do portador de grave sofrimento psíquico dentro do contexto social ao qual pertence.

Como são tratados esses pacientes na psicoterapia? Um ponto fundamental é a família, que deve ser um ponto de apoio. É através da família e dos amigos, que nós profissionais, obtemos informações para ajudar no acompanhamento, explicando sobre como lidar com a doença, além de, aos poucos, com a ajuda da medicação, possibilitar para esse paciente, novas maneiras de perceber e lidar com a realidade, entendendo e dando sentido a partir do surto, buscando o simbolismo dele no psiquismo daquele que o sofreu. Assim como nos sonhos e nos filmes, os surtos também trazem e revelam um simbolismo e serão importantes na psicoterapia. Com o tempo, o foco deve ser na redução dos sintomas negativos, especialmente os relacionados à vida social deste paciente, que precisará ser re-inserido no seu contexto e muitas vezes esse contexto ao novo ele(ambiente, dinâmica familiar).

Então, agora que já sabemos que Emily, tecnicamente, sofreria de uma psicose, podemos entender ela um pouco melhor. A psicose é uma estrutura, segundo a psicanálise Freudiana[17] (e Karl Abraham). O caso de Emily seria uma fixação na primeira fase oral, onde haveria um investimento de libido maior do que o 'normal" (ou por excesso ou por falta de gratificação). O pobre “Ego” na eterna batalha entre os seus três senhores: Id, superego(arcaico) e o Mundo Exterior, cheio de frustrações.

Assim, essa personalidade se estruturou dessa forma. Ela não "surtou do nada". Ela não se tornou esquizofrênica da noite para o dia, geralmente a doença avança em surdina, sendo o surto a tentativa de pedido de socorro, por isso esse filme traz em si uma grande questão a ser debatida. Isso é o que chamamos de fator desencadeante. Algum fator externo (pessoa, situação, etc) desencadeou a angústia, que fez com que ela "quebrasse" com a realidade e criasse seu mundo interno, o surto, pois a realidade externa (interna) era angustiante demais.

Ora, quando Emily corta com a realidade e constrói uma nova, há então uma regressão a um dos estágios mais primitivos, o oral, naquilo que chamamos de ponto de fixação, para onde se fixa a regressão da libido, que tenta preservar o ego da sensação de aniquilamento. A psicologia de base analítica explica isso dessa maneira.  O fator desencadeante ali, para nós, foi a mudança de vida. De uma vidinha pacata e religiosa, para um mundo de oportunidades, de jovens, de "pecado". Reparem que ela se envolve depois com um rapaz e não há indicações se estavam ou não tendo relações sexuais.

Nas ruas, ouve-se muito "fulana se separou e por isso ficou deprimida?". Mas, devemos observar, que nem todo mundo que se separa fica deprimido. E aí que vai depender da estrutura de personalidade desse sujeito. O senso comum vê o fator desencadeante como causa e nos buscamos as causas desde o desenvolvimento em nossas primeiras experiências de vida.

Logo, as pessoas costumam culpar este fator “desencadeante” pelo quadro em si. E isto não é verdade. Especialmente nos casos de esquizofrenia existem fortes indícios de traços genéticos, aliados a questões ambientais. O que isso quer dizer? Ambos, genética e meio ambiente, são importantes fatores, que contribuem para este sofrimento psíquico.

            Segundo Freud, somos constituídos a partir de um narcisismo primário, fase onde só nos interessa nosso próprio mundo interno, é um período entre o auto-erotismo e o amor objetal, com a posterior unificação dos objetos, o que Klein[19] identifica como a passagem das Posições Depressiva para Esquizoparanóide e que mais tarde Lacan[20] enfatizou, através das experiências de Wallon, no “Estadio do Espelho” e o desenvolvimento do “eu”. Desta maneira, fica fácil entender a “fragilidade” egóica de Emily. Nos quadros psicóticos teríamos o que conhecemos como narcisismo secundário porque é na verdade um retorno, um “refúgio”, como explicamos anteriormente.

 Por realizar um “corte” com a realidade externa construindo uma outra interna, os psicóticos, quando vão a julgamento por crimes, são considerados inimputáveis, pois não tem consciência de que seus atos são criminosos ou errados, quando cometidos em situação de surto, possuem quase que uma inexistência de um funcionamento que chamamos de superegóico ou quando existem são traços de um bem sádico e que domina os atos com perversidade contra si mesmo ou terceiros. Por exemplo: se Emily tivesse esfaqueado o namorado na cena em que  contorce o corpo na Igreja, poderiam alegar insanidade pois ela estava em um surto e poderia ter acreditado que ele era um demônio ameaçando sua vida.

O surto é percebido como tão REAL, que eles não podem ser considerados culpados ou responsáveis pelos seus atos. Este critério não se aplica aos Anti-sociais, pois estes não são necessariamente psicóticos, são “limitrofes”, ou seja, seu contato com a realidade poderá se apresentar intacto e eles sabem que o que fizeram seria errado, mas optaram por assim o fazer. Anti-sociais, psicopatas, sociopatas são considerados algo que seria como uma falha na estruturação do caráter e onde se agregam quadros de transtornos mentais.

De outra maneira, de uma forma geral, quando há a inexistência da angústia ou sofrimento seria o que em psicopatologia nomeamos como EGOSSINTONIA, pois ele está convicto da sua vivência (de que é real) e de certa forma não há aí incômodo. É como se tivéssemos uma pedrinha dentro do sapato que se alojou confortavelmente entre os dedos, não provocando incômodo ou dor. Temos que ter noção que para a psicopatologia psicanalítica normal e patológico é sempre uma questão de economia, de quantidade  é o que isso quer dizer.

Acreditamos que isso não foi bem explorado no caso do filme. Chegou-se até a cogitar a idéia de egossintonia ou distonia, mas relativo a uma possível dissociação de personalidade (o que descartaria totalmente o psicodiagnostico de psicose). Algo presente na psicose e nos relatos sobre a vida de Emily é a ausência de consciência de seu estado mórbido (de certa forma Emily desconhecia que estava doente, porque "acreditava" que estava possuída).


A culpa do Padre?

Sabemos que naquela época não havia tanto conhecimento assim sobre doenças mentais e que os profissionais e medicamentos estavam em pesquisa ainda. Mas, pensemos da seguinte maneira: você é mãe e seu filho está doente. Você o leva ao médico e não consegue muito êxito com o tratamento. Seu filho, de oito anos de idade, diz para você que não quer mais se tratar. O que você faz? Aceita a vontade dele?

Situações bem diferentes, mas de certa forma análogas. Se pensarmos que Padre em inglês é "Father" e que no caso de Emily tinha uma conotação bastante paterna, uma vez que o pai dela era bastante autoritário e aparentemente bastante distante das filhas. Uma filha então, diz para o pai que não quer mais se tratar. Existem suspeitas de que possa ser uma psicose e o profissional psi deveria explicar aos familiares as implicações de um diagnostico desses. Sabendo, em termos mais populares, que na psicose há uma regressão a estágios infantis arcaicos, você ainda assim aceitaria a vontade desse seu filho?

Acho que não! Ele, o Padre, como figura de poder e influencia que a religião lhe deu, deveria ter insistido para que Emily procurasse outros médicos. Ele até que tentou, mas tentou pouco. Talvez por isso mesmo que ele acabou sendo condenado. Não por suas crenças, mas pelo fato de ter "tentado pouco". Por ser o surto um pedido de socorro e uma tentativa de cura.

 Quem foi mais omisso? A família ou o padre? Quem tinha maior influencia sobre Emily? A família ou o padre? De qualquer forma aqui nos veremos frente a uma importante questão no que tange a psicose, a lei paterna frouxa ou sádica, não necessariamente uma coisa exclui a outra, já que a frouxidão da lei tem um traço de sadismo.

O pai era ausente[21], autoritário, mas de certa forma submisso à figura religiosa (reveja a cena logo no inicio quando ela já está morta e a policia está na casa, e o comportamento do pai em relação ao Padre).

Se a família tivesse reforçado a idéia do tratamento médico e o padre fosse contra, a quem Emily seguiria? E se a família fosse contra e o padre a favor? Qual indicação ela seguiria?

O namorado também foi “omisso”?  Eram recém namorados e não tinha nenhuma obrigação moral com ela ainda, porém, ele não interferiu muito nem desviou o caminho dos tratamentos. Teria também culpa? Que dinâmica é essa que o filme nos demonstra com tanta exatidão? Um ser frente à vivência de aniquilamento e seu pedido de socorro que vai obter contornos do mais puro sadismo frente ao sofrimento do outro.

* Pense sobre qual foi a maneira que você entendeu o final desse filme? Você prefere a versão da ciência ou da religião?

 

Sugestão de Atividades:

* Prepare diversos textos sobre as religiões e suas carcaterísticas

* Promova um debate, em sala de aula, onde religião e ciência possam andar “juntas”, de uma maneira que promova a saúde e o bem estar dos pacientes.

* Divida em grupos e identifiquem os critérios de diagnósticos presentes no caso de Emily

* Incentive leituras antropológicas sobre os fenômenos de “possessão”, conforme mencionado no filme.

 

Freud, S. A Perda da Realidade na Neurose e na Psicose. Rio de Janeiro: Imago, 1996. Freud, S. (1937).

 

Sugestão de atividade Cinematerapia:

 

             Aqui, ao sugerirmos atividades, estamos dando uma demonstração do como os recursos chamados de “cinematerapia” podem ser utilizados, como utilizar as emoções provocadas a partir da vivência do espectador frente aos conteúdos de uma película cinematográfica. Isso já tem sido utilizado como recurso aqui no Brasil e fora daqui em uma mais larga escala.

            Este é um filme com muitas informações e que pode ser trabalhado sobre os mais variados aspectos. Após a apresentação, identifique entre os alunos(pacientes) os temas que geraram mais interesse e trabalhe eles na forma de debate.

1 – Para professores:

            Traga as informações do Código de Ética Profissional sobre crenças religiosas e instigue os alunos a adotarem uma postura ética frente a esses casos.

            Os conteúdos de psicopatologia, especialmente Funções do Ego, podem ser melhor trabalhados na forma de CASO CLINICO.  Em uma atividade em grupo, por exemplo, sugira que façam uma análise mais detalhadas das funções de Emily ou até mesmo, do filme “Uma Mente Brilhante”.

            Os textos Freudianos e Kleinianos podem ser divididos em grupos para apresentações de seminários ou palestras, que visem um entendimento maior sobre as junções entre Psicopatologia (sintomas) e Psicologia de Orientação Analítica (psicodinâmica).

 

2 – Para terapeutas:

            Peça ao grupo para que separem trechos do filme que mais “impactaram”, selecione os escolhidos com mais freqüência e peça para que falem de seus sentimentos frente às cenas.

            Reforce a questão de que a proteção do grupo depende de que se possa ali construir um espaço de confiança, sublinhando a questão de que o dito ali deverá ser protegido por cada um, evitando comentários fora daquele espaço.

        A partir das colocações sublinhe as partes mais evidenciadas e proponha o debate sobre, apenas direcione as falas evitando interferir em suas associações.

        Ao final faça um fechamento deixando claro o que foi mais evidenciado, mantenha para isso um bloco onde fará anotações livres(anote apenas pequenos comentários que venham a mente ao ouvir o relato).

 



[1] Artigo publicado originalmente, em outra versão, formato e tamanho na Revista Psiquê – Editora Escala, Edição 13

[2] Parte de material publicado na Revista Psiquê Ciência e Vida, da Editora Escala, edição 37.

[3] DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e Smiologia dos Transtornos Mentais.Artmed:POA, 2004.

[4] GALVAN, Alda. Psicologia e Religião. uma Abordagem Sobre a Cura no Meio Popular. Manaus:Cabral Editora Universitária, 2005.

[5] FREUD, Sigmund. Totem e Tabu, O Futuro de uma ilusão, Moisés e o Monoteísmo. Obras completas, Ed. Imago: Rio de Janeiro, 1996.

[6] BASTIDE, Roger. As religiões africanas no Brasil. São Paulo: Livraria Pioneira Editora, 1985

[7] ALMEIDA, A..A.S. Uma fábrica de loucos: psiquiatria x espiritismo no Brasil (1900-1950). Tese de doutorado. Unicamp, Campinas, 2007.

[8] Esquizofrenia e Transtornos Psicóticos - DSM.IV. Disponível em <http://www.psiqweb.med.br/dsm/psicot.html> Acessp em 12 Nov 2005.

[10] JUNG, G. Sincronicidade - Um princípio de conexões acausais. São Paulo: Vozes, 2002.

[11] Indico a leitura de dois artigos sobre Demônios, escrito pelo meu “ídolo” Rubem Alves, nas Edições 34 e 35 da Revista Psiquê. Ele fala sobre os demônios NO nosso psiquismo. Bravo! – ao terminar de ler, dá vontade de levantar e bater palmas.

[12]  FREUD, Sigmund. A Perda da Realidade na Neurose e na Psicose (1924). Obras completas, Ed. Imago: Rio de Janeiro, 1996.

[13] DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e Smiologia dos Transtornos Mentais.Artmed:POA, 2004.

[14] KAPLA HI, SADOCK BJ, editores. Tratado de Psiquiatria. 6a edição. POA: Artes Médicas, 1999.

[15] Esquizofrenia. Disponível em http://www.psicosite.com.br/tra/psi/esquizofrenia.htm Acesso em 05 Fev 2006.

[16] PAIM, I, Curso de Psicopatologia. São Paulo: EPU, 1998.

[17] FREUD, Sigmund. Neurose e  Psicose (1923). Obras completas, Ed. Imago: Rio de Janeiro, 1996.

[18] FREUD, Sigmund. Sobre o Narcisismo(1914) e A teoria da Libido e o Narcisismo. Obras completas, Ed. Imago: Rio de Janeiro, 1996.

[19] SEGAL, Hanna.  Introdução a teoria de Melanie Klein. Ed. Imago: Rio de Janeiro, 1975.

[20] LACAN, J. O estádio do espelho como formador da função do eu. In: Escritos. Jorge Zahar : Rio de Janeiro, 1998

[21] Diário Ateísta: O Exorcismo de Emily Rose. Disponível em < http://www.ateismo.net/diario/2005/11/o-exorcismo-de-emily-rose.php> Acesso em 10 Jul 2006.