Cinematerapia®
Entendendo Conflitos
Geração Prozac

 

Artigo Publicado na Revista Psiquê Ciência e Vida, edição 15

 

Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps

 

 

Sinopse: “Uma jovem estudante enfrenta problemas familiares, que fazem com que entre em depressão. Ao procurar ajuda com uma médica, esta lhe receita um antidepressivo. Com Christina Ricci, Anne Heche, Jason Biggs, Michelle Williams e Jessica Lange.”

 

 

Comentários:

 

 

Assim como tivemos uma avalanche de pseudo-diagnosticos de TAB e TDAH, o termo “Boderline” caiu no senso comum. Todo mundo se acha “bipolar”, todas as crianças com problemas são “Hiperativas” e todas as pessoas em conflito, no senso comum, são chamadas de “Borders”.

 

É claro que hoje, com a clarificação dos critérios de diagnósticos, é muito mais fácil encontrar pessoas com estes diagnósticos, dados por profissionais sérios, entretanto, a incidência na população deveria continuar proporcional, havendo apenas um maior conhecimento sobre a questão.

 

Um dos primeiros filmes, e um dos meus clássicos favoritos, sobre o tema, foi o “Garota Interrompida”, onde Winona Ryder trazia para a telona uma complexa personagem com Transtorno de Personalidade Boderline. Alem das questões sintomatológicas e psicodinâmicas, o filme também abordava questões históricas do entendimento e acompanhamento desse transtorno.  Em Geração Prozac não temos Winona, mas temos Christina Riccie, que apesar de todos a conhecerem como a eterna “Vandinha Admms” (Wednesday), tem se destacado nos últimos anos representando papéis que trazem grande veracidade e qualidade as produções.

 

 

Antes de assistir Geração Prozac, sugiro que leiam os critérios de diagnostico para este transtorno, no DSM-IV, e se possível, leia as indicações de sites que faço ao final deste artigo.

 

 

Geração Prozac é, realmente, bem interessante. Apesar de não deixar claro o diagnostico de Transtorno de Personalide Borderline (ou Boderline), este fica bem claro no decorrer da trama.  Pela medicação utilizada, muitos podem levar a crer que Elizabeth tenha um transtorno de humor “apenas”.

 

O filme, acredito, foi baseado no diário da paciente (Elizabeth Wurtzel) e tem narração em primeira pessoa. Isso nos traz uma possibilidade única de ver com nitidez o modo de relação objetal, a angústia pela perda do objeto, e, a ameaça de  fragmentação do frágil Ego.

 

O comportamento sexual promíscuo e a dependência passiva ficam bem claras no inicio e final do filme expressados no relacionamento com o Rafe (Jason Biggs – Sr American Pie).  Reparem no triangulo “controle, triunfo e desprezo”, o qual aparece nítido na maneira como ela relaciona com seus objetos.

 

Um dos pontos mais interessantes é a relação com os pais: Um pai bastante ausente, pouco disponível. O comportamento de sua mãe varia de ambíguo e difuso a totalmente confuso. Normalmente os pais, ou um deles, do borderline, encorajaria as fixações e a dependência invertida....e, com aquela mãe sufocante e sufocadora isso não fica bem claro.

 

O que este filme tem de diferencial dos outros tantos que abordam o tema? Ele traz um discurso em primeira pessoa, sobre o sofrimento psíquico que um Border passa, em seus eternos conflitos e dúvidas. As questões sintomatológicas sempre ficam bem nítidas nos filmes, mas este traz um conteúdo riquíssimo para analises e debates, independente da abordagem teórica utilizada.

 

Um ponto bastante critico sobre essa “Geração Prozac” está resumido na parte final do filme, no relato da narradora. Ela compara o Psiquiatra que prescrevera sua nova droga a um Dealer (traficante).

 

Qual o motivo dessa critica? Quando o Prozac foi lançado, houve um certo “frisson” entre os profissionais e pacientes, pois era uma droga que prometia “milagres”. Muito se apostou – e aposta – nas pesquisas em psicofarmacologia, pois o retorno financeiro é quase sempre garantido.  Havia uma promessa de “cura rápida” para depressão, ou “efeitos rápidos e milagrosos”.

 

Essa necessidade de ter uma resposta única através da medicação fica bem expressa na vida de Elizabeth. A busca por uma “pílula da felicidade” que tirasse todos os seus sintomas, que levasse embora seus conflitos......quase como uma viagem de drogas “convencionais”. É assim que Elizabeth se percebe então....apenas trocando de “dealers”....de um proibido legalmente, para um permitido.

 

Essa critica seve não apenas para mostrar a questão histórica da psicofarmacologia, mas também para reformar a visão mais moderna da necessidade de atuação profissional conjunta (Psiquiatra, Psicólogo/Psicanalista)

 

 

Voltando a questões mais psicodinâmicas, deixo uma questão que pode ser melhor refletida e debatida: Onde estava/está a libido de Elizabeth?

 

Indicação de leitura:

 

BERGERET, Jean. A Personalidade Normal e Patológica. POA: Artmed, 2002.

O. GABBARD, Glen. Psiquiatria Psicodinâmica. POA: Artmed, 2004.

 

Indicação de sites:

BALLONE, GJ. Personalidade Boderline, 2005. Disponível em <http://virtualpsy.locaweb.com.br/index.php?sec=91&art=150> Acesso em 10 dez 2005.

 

CUNHA,Paulo Jannuzzi; AZEVEDO, Maria Alice Salvador B. de. Um Caso de Transtorno de Personalidade Borderline Atendido em Psicoterapia Dinâmica Breve (2001). Disponível em <

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722001000100003> Acesso em 20 out 2005.