Gran Torino (Gran Torino, 2008)
Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps
Trailer http://www.youtube.com/watch?v=4M-6b3hOBwE&feature=related
Filme dirigido por Clint Eastwood e lançado no ano de 2008. Nele, irá também representar o ensimesmado Walt Kowalski. 
O filme se inicia com as cerimônias fúnebres da mulher de Walt, com a presença dos filhos e netos e alguns amigos. Clint está impagável na pele de um ranzinza e sorumbático solitário, seus comentários nos colocam sorrisos no rosto, sua falta de paciência com inúmeras posturas dos que estão presente, inclusive de sua neta, não nos passam despercebidos em sua força de ironia. Já nos é apresentado como um homem extremamente irascível, mas seu jeito nos diverte pela demonstração de que seria totalmente contrário à dissimulação e hipocrisia. Odeia todos da sua vizinhança pela mudança que o bairro sofreu sendo invadido principalmente por orientais. Por detrás dessa antipatia, ao longo do filme, conheceremos o tormento que o acompanha e que gera uma angústia desconhecida justamente por sua incapacidade de nomeá-la.
Suas conversas com o jovem padre Janovich (Christopher Carley), incumbido por sua mulher antes de morrer de que fizesse ele se confessar(nomear sua angústia), são deliciosamente sarcásticas. Embora Clint ao final do filme nos deixe com uma boa imagem desse empenhado clérigo, teremos alguns momentos onde ele beirará ao patético.
Mais um filme onde notamos a sutileza da mão de Clint dirigindo. Ela, sua direção, traz sempre um traço que beira ao poético que rasga, não o que enfeita. Saiu noticiado em algumas publicações que Angeline Jolie, depois de ser dirigida por ele no filme “Changeling”, teria dito que ele passaria a ser o único diretor que aceitaria. Vendo a qualquer um dos filmes por ele dirigido, não será difícil sentir o porquê dessa declaração de Jolie, vê-se uma profunda delicadeza na dureza dos temas que aborda, um traço marcante da presença de Clint por detrás das câmeras. Emocionante e inesquecível é a cena da morte da protagonista no filme “A Menina de Ouro”, também dirigido por Clint que tb atua nele.
Gran Torino também está longe de ser um filme leve, na temática nos fez lembrar vagamente o pesado “Duro Aprendizado”(do diretor John Singleton), mas a leveza de Clint nos leva a sorrir em muitos de seus trechos e justamente por conta disso, toda temática se torna ainda mais emocionada, causa um profundo impacto em nossas emoções, constrói possibilidades profundas de desconstrução de valores.
Nosso herói misantropo vai aos poucos sendo perturbado em seu isolamento, isso começa a dar-se a partir de um episódio com seus vizinhos, onde ele, pela visão do uso da violência e ameaça que sofre o oriental adolescente por parte de um primo e sua gangue, parte em sua defesa, a família e vizinhos agradecidos passam a deixar presentes em sua porta. Esse mesmo adolescente havia tentado roubar de sua garagem, como obediência a uma ordem dada por seu primo, chefe desse grupo que aterroriza o bairro, o carro por Walt tão estimado, quase que um símbolo da sua vida, a marca é o nome que dá o título ao filme, um Gran Torino, carro que ele mesmo montou em 1972. A mãe de Thao(Bee Vang), e sua irmã Sue(Ahney Her), o obrigam a prestar serviços a Walt para pagar tanto pela tentativa de roubo, como pela defesa de sua vida que Walt fez.
Desse episódio em diante o filme toma proporções de uma beleza incomparável, traz para discussão a questão da xenofobia, das diferentes posições determinadas pela cultura, da culpa, da convivência com o diverso, da delicadeza que implica sempre as relações humanas, o afeto que surge entre os desiguais ou a possibilidade de nos sentirmos mais próximos de algumas pessoas que sequer pertencem à família, e ao mesmo tempo sentirmo-nos tão distante dos consangüíneos. Walt chega a falar melancolicamente sobre isso.
Um convite de Sue para almoço com sua família, inicia toda uma bela relação que estará marcada para ambos por uma história para além da individualidade.
Há muito de uma leitura bastante contextualizada que fala dos cidadãos americanos, mas há muito nesse filme que nos faz pensar nas relações, estejam elas em que parte do planeta for. Um convite a pensar grupos a partir de uma dinâmica de identificações bastante distanciada dos dados mais evidentes e socialmente vistos tipo grupo étnico, cor da pele, nível de instrução, faixa etária etc.
Walt e Sue desenvolvem uma aproximação cheia de cuidados recíprocos, implicâncias e crescimento, derrubando mais uma barreira na questão da identificação por afinidades, apesar da enorme diferença de idade, conversam na mesma língua e em muitos momentos Sue tem mais a ensiná-lo do que ele a ela. Vemos ao longo do filme a amizade desses dois criar um contorno de uma envolvente humanidade, onde nada é deixado de fora, mas, no entanto, toda diferença também os unirá. Walt protege Sue da violência do meio, Sue protege Walt de sua própria violência contra si em seu isolamento e culpa. Belo tecido que Clint constrói com sua poética visão. O heroísmo tão apregoado determinará o desfecho desse filme, demonstrando-lhe a inutilidade. Uma nota a parte para a obsessão de Walt em “consertar coisas”.
Grupos sociais que vivem a tensão diária dos preconceitos atuados e repetidos, fortes e fracos, perseguidores e perseguidos, não há o lugar exato para o bem e nem para o mal, tudo está em todo lugar, nos mostra Clint. Walt mais do que os outros, sabe muito sobre isso. Ex-combatente, na guerra da Coréia, nos contará, ao mesmo tempo que irá se permitir entrar em contato, com o que para ele se tornou fragmentado e indizível. Mostrará abertamente o primitivo do vencedor, sua força que revela o ser brutal e violento, que em sua tarefa redentora, vira a fera, o bestial. Forças da guerra sobre as quais tanto já lemos, vimos em filmes, ouvimos relatos de quem ela viveu e por ela ficou marcado para sempre, como nosso protagonista, o sombrio Walt. Para os cidadãos americanos, com tantos ex-combatentes marcados por quadros que desenvolveram a partir da sua participação na guerra essa é uma temática, muito presente, importante, e que de certa forma se repete em busca de alguma elaboração, embora saibamos que novas guerras e novos ex-combatentes ainda serão produzidos pela máquina de guerra americana. A bandeira furada na frente da casa de Walt ao final do filme, nos fornecerá uma imagem que detém uma força de todo um texto emocionado, toda uma crença que Clint derruba em seu filme, desse poder americano de ditar o que é correto em solo estrangeiro, parece que Clint pisca o olho e nos diz: “-Papo furado isso!”. Walt repete sua culpa, seu corpo jaz no jardim alheio.
Sua amizade e sentido de proteção a respeito de Sue e Thao nos fala do afeto que une os humanos quando podemos nos erguer acima das contingências que nos empurram enquanto valores a serem assumidos e defendidos a qualquer preço. Walt revela sua verdadeira coragem ao se permitir abrir para esses afetos, que tocam profundamente suas culpas e mágoas, não é fácil lidar com esse tipo de dor, mas ele avança, talvez sabendo que para voltar a sentir vida correr em suas veias e coração, teria necessidade de revisitar velhas acusações que ele renovava em silêncio por décadas.
Dar voz a angústia é um caminho de busca de novas possibilidades de acordo, é como abrir uma janela para tirar o mofo que adoece, assim funciona nosso aparelhamento psíquico, é preciso dizer, é preciso dar nome ao que está agindo na calada de um lugar em nós mesmos que desconhecemos, e que sobre ele só enxergamos as sombras que de lá são projetadas.
O mundo não muda quando mudamos somente dentro de nós mesmos, mas ele muda para nós em nossa percepção, e isso de alguma maneira é mudar o mundo, marcá-lo de uma maneira diferente e se permitir ser por ele marcado de outra maneira, talvez mais construtora de bem estar. Alguns teóricos já propuseram que mudemos o mundo a partir do que chamamos de micro, daquilo que nos toca afetivamente, essa seria a nossa maior potência, entender que o mundo está posto dentro de tudo que nos constitui enquanto vontade e ação, seja essa, consciente ou inconsciente. Somos seres da cultura e a ela construímos com nossas ações e crenças. Nada fazemos impunemente, talvez não a punição de fora de nós, mas daquela que temos construída dentro do “nosso dentro”.
Se crenças e dogmas podem vir a destruir o mundo, são nossos ideais que poderão salvá-lo e, quem sabe, construir um mundo mais humano em Eros e não em Thanatus.
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