Cinematerapia®
Entendendo Conflitos
HairSpray
Artigo publicado na revista Psiquê Ciência e Vida, edição 23


 

HAIRSPRAY – Em Busca da Fama

 

 Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps


 

Estamos em 2007. Temos como cenário a grande Nova Iorque, com seu terror pós-atentado e uma sociedade cansada de guerras infundadas e com medo! Medo do novo....medo de novos comportamentos....medo de novos formatos de relacionamentos e família. No centro de tudo temos Tracy Turnblad - uma típica jovem adulta americana, que busca a fama a todo custo. Veste roupas de marcas européias, idolatra a magreza anoréxica fashionista, usa um piercing babel, vive sonhando em sala de aula e seu grande sonho é participar de um desses “reality shows”, onde estudos e intelectualidade não são pré-requisitos necessários.

 

Ooops....erro grotesco! Essa parecia a vida de quase toda jovem adolescente dos dias de hoje, mas apesar da similaridade, neste filme temos um cenário um pouco diferenciado.

 

O ano é 1962, a cidade é Baltimore, localizada a nordeste do território americano.  O incidente chave da participação americana na guerra do Vietnam ainda não ocorrera, entretanto, o medo gerado pela Guerra Fria tomava conta dessa sociedade, ainda bastante impregnada com idéias racistas. O medo tem dois lados: um político (comunismo) e um social (racismo). Nossa protagonista-heroína é sim Tracy Turnblad, que os invés de um piercing e roupas de moda, usa seu típico penteado no maior estilo “Jackie”. Seu sonho não é estar no “Reality Show” com câmeras espalhadas em uma casa, mas sim, em um programa de dança juvenil, ao vivo na TV, que prega que o importante é viver o “aqui e o agora” o mais intensamente possível, quase como um preparativo para uma ideologia de vida nos anos seguintes, que levaria milhares de jovens a Woodstock.

 

Nossa heroína atrapalhada não esta sozinha. Não tem um IMC (índice de massa corporal) solicitado nas passarelas de Milão e apesar de estar “ligeiramente” acima do seu peso, aposta no seu potencial, com ajuda de seu pai Wilbru (Christopher Walken) e sua mãe, Edna (John Travolta). Sim, Travolta retorna ao estilo musical, quase 30 anos depois de “Grease” (1978), no papel de uma dona de casa, também acima do peso, com leves sintomas de fobia social, que não sai de casa há mais de 10 anos. Edna, inicialmente, não apóia sua filha, por achar que sua aparência não está compatível com a ditadura da moda da época, mas logo percebe que viver o sonho da filha também será uma maneira de revivenciar alguns de seus maiores medos e conflitos e assim, amenizá-los. É através da jornada da filha que Edna aceitará seu corpo e redescobrirá sua sensualidade, sexualidade e seu casamento.

 

Como todo filme americano, a fórmula básica exige que tenhamos um vilão. Neste caso, o clã malvado é liderado por Velma Von Tussle (Michelle Pfeiffer). Uma vilã com traços europeus, quase sociopática, obcecada pelo sucesso, fama e beleza. Mais uma daquelas tão típicas mães americanas que empurram suas filhas para o estrelato a todo o custo, nos quais muitos casos derivam em transtornos alimentares.

 

Tracy não é apenas um catalisador para sua mãe, mas sim, para toda uma comunidade negra, segregada pela sociedade local. Encabeçando esta turma está Motormouth Maybelle, interpretada pela Diva Queen Latifah. Motormouth é uma líder comunitária que coordena um grupo de jovens negros dançarinos com sonhos de liberdade e igualdade de direitos.

 

 

Mas como nossa heroína rechonchuda pode nos ajudar? Estamos lidando aqui com um belíssimo filme sobre “Imagem corporal”, que grotescamente definindo, seria a imagem psíquica que temos de nos mesmos. Em uma leitura mais Psicanalítica, sabemos que o processo de formação da imagem corporal tem, obviamente, sua base no que Freud chamou de “Princípio do Prazer”, e se funde com o próprio processo de formação do Ego, passando pela Ego Função e Ego projeção, onde nossos sentidos (no termo mais biológico possível), são fundamentais, posteriormente sendo necessário o Outro. Ou ainda nas operações de alienação e separação no que Lacan denominou de “Estádio do Espelho”.

 

Nós, profissionais psi, sabemos do grande impacto que um prejuízo na auto-imagem corporal pode causar no comportamento de um sujeito, especialmente na adolescência. E em como as figuras parentais são importantes neste longo processo. Grande parte dos transtornos alimentares ocorrem hoje em adolescentes do sexo feminino, pressionadas por uma industria da moda e beleza, em uma plataforma de magreza exagerada. Tracy nos trás um exemplo positivo a ser utilizado com referência de aceitação e pacífica convivência com seu peso, dentro de parâmetros considerados saudáveis.

 

Do ponto de vista social, temos ainda uma excelente exemplificação de racismo, que Freud nos coloca como uma forma de esteriotipização mais narcisica e destruitiva. Não há como negar a superioridade da “ginga” e ritmo das dançarinas negras, bem como na “quase” consciente inveja e medo daqueles responsáveis por esta segregação.

 

Portanto, prepare seu spray, sua roupa de época, chiclete, muita pipoca e vontade de dançar. Se ao final do filme você não estiver estalando os dedos, batendo palmas ou os pés no chão e vibrando com as cenas musicais, é sinal de que você não conseguiu captar a essência do filme.