Cinematerapia®
Entendendo Conflitos
Homofobia no Cinema

Entendendo a homofobia  como sintoma através do Cinema…

Por Eduardo J. S. Honorato, Mateus Sant'Ana e Denise Deschamps 

Desde o sucesso de “O Segredo de Brokeback Mountain” (Brokeback Mountain, 2005) que recebemos emails, scraps  (Orkut), mensagens no Facebook e no MSN, pedindo um artigo sobre a homossexualidade. Levamos alguns anos para decidir sobre qual filme escolheríamos.  Separamos então alguns com esta temática e resolvemos assistir a todos novamente, procurando o que melhor apresentasse material para uma possível análise. Depois de muita pipoca e alguns quilos a mais, percebemos algo em comum a todos esses filmes, a então, a idéia desse artigo surgiu.

Gostaria de esclarecer que não pretendemos esgotar os temas Homossexualidade e Preconceito em espaço tão curto, nem tão pouco abordar todas as obras disponíveis sobre o tema, mas sim, apresentar alguns filmes que podem ser trabalhados com esta temática. Existem livros específicos  e com dados históricos do cinema para esse fim. Solicitei a ajuda de um acadêmico de Direito, para que complementasse com as questões referentes a sua área.

Primeiramente é preciso relembrar algo que, a primeira vista, parece simples, mas não é: a terminologia. A Organização Mundial de Saúde excluiu o “homossexualismo” da lista de “doenças” em 1° de janeiro de 1993 . Sim, Essa situação já fez festa de debutantes e tem profissional que ainda não percebeu isso.  Assim, houve uma mudança na nomeclatura. Você deve se lembrar das suas aulas de português no Colégio, onde aprendeu que sufixos “ismo” denotam doenças. Portanto, o termo homosexuaLISMO está equivocado, ultrapassado e pejorativo. O correto é HomossexuaLIDADE. Isto é bastante relavante, especialmente para profissionais e estudantes, pois temos obrigação ética de usar as terminologias corretas.

Um dos pontos que chama a atenção de qualquer um desses filmes é a intensidade do sofrimento psíquico apresentado por seus personagens. Entretanto, se você trocar os personagens principais por Romeu e Julieta, acrescentando outros nomes aos demais, perceberá que muitos se tornariam massantes e básicos, sem o menor atrativo enquanto obra cinematográfica. Então, porque estes filmes ainda são produzidos e veiculados?  Simples....quando algo se repete e reverbera, é sinal de que precisa ser melhor elaborado (Freud). E, infelizmente, ainda temos indícios sociais graves de que a sexualidade homoerótica ainda não é bem entendida e elaborada por toda a sociedade. Isso pode ser visto também como um sintoma de grupo, para os analistas sociais mais específicos da área.

A Psicóloga e Psicanalista carioca, Denise Deschamps escreveu um belíssimo artigo para esta revista, tratando justamente deste tema: homofobia. Em todos os filmes citados que assistimos sobre o tema, ficou claro que o sofrimento psíquico existente não estava na orientação sexual inconsciente, mas sim, nas consequências que o preconceito trás para a vida dessas pessoas. Ou seja, o que “faz mal” aos homossexuais” não é sua orientação, e sim, aquele que é preconceituoso. É uma questão social que trás impactos negativos ao psiquismo humano.

O filme Another Gay Movie (2006)  tem algo de diferente e chama a atenção: o humor debochado. Se você gosta de filmes no estilo American Pie (1999) vai perceber a total semelhança de estilo.  Temos o mesmo enredo, porém, em uma versão gay.  Achamos importante citar este filme pois ele deixa bem claro como a homofobia trás reflexos ruins no desenvolvimento de jovens que se descobrem homossexuais durante a adolescência.

De uma forma inversa, por ser debochado, o filme mostra uma suposta sociedade (que não é utópica, pois existe fora do Brasil) onde homos, heteros, bis, tris, trans, pans, jans ou seja qual for a orientação, são aceitos como são. Repare que os personagens do filme possuem um desenvolvimento “normal” e passam por uma adolescência tranquilamente, com conflitos comuns a esta fase da vida (independente de orientação)

A prova disso é que na Inglaterra,  beijos, casamentos gays, personagens lésbicas já fazem parte dos enredos das novelas há mais de 20 anos, sinalizando que já foi algo elaborado “socialmente”. Se estudarmos os movimentos coletivos ingleses, veremos que desde o movimento punk na década de 70, alguns grupos vêm demonstrado antecipação de alguns fenêmenos coletivos;

Já o filme Get Real (1998) foi produzido e gravado no Reino Unido, em uma cidade de “interior” ainda com resquícios de homofobia. Reparem na data deste filme E que ele se passa em uma cidade pequena. Nesta mesma época, as ditas cidades “grandes” do Reino Unido já entendiam a homoafetividade de uma outra maneira.

ONZE anos depois, ainda apresentamos os mesmos “sintomas sociais” em nossas cidades grandes. Mas a violência contra homossexuais surge em diferentes países onde ser diferente caracteriza um ato de violência, agressão e até mesmo morte como poderíamos citar manchetes recentes: Espanha, Hungria, Bósnia, Gâmbia, Pernambuco, São Paulo (universidades)

Estamos falando de ambientes públicos Universidades  que cumprem sua função de “garantir a conservação e o progresso nos diversos ramos do conhecimento, pelo ensino e pela pesquisa”(Aurélio, 2006).  Locais onde em épocas de ditaduras militar os estudantes “revolucionários” arregaçavam  suas mangas e foram as ruas gritar liberdade e justiça, e hoje é  cenário de manifestações sintomatológicas como as de homofobia.

Porém, se você comparar estes  filmes verá que a HOMOFOBIA, seja dos amigos, familiares e colegas de escola é quem causa o sofrimento psíquico nesses personagens. Mesmo quando se questionam sobre suas orientações, a “culpa” está sempre relacionada as aspirações e projeções que os OUTROS fazem deles.

Um outro filme interessante é O Clube dos Corações Partidos (The Broken Hearts Club, 2006) que mostra um grupo de homossexuais adultos, saudáveis e desfrutando sua vida normalmente, sem conflitos e preconceito. É uma espécie de “Sex and the City” em uma versão gay, com todos os esteriótipos e piadas comuns.

 Em tempos de projeto de lei contra a homofobia, muito se tem  questionado sobre a homoafetividade. Os que são contra o projeto se embasam em aspectos religiosos para justificar algo que deveria ser LAICO – o Direito. Este projeto não versa sobre imposição da sexualidade homoerótica, como alguns religiosos têm divulgado na mídia, mas sim, de liberdade de serem quem quiserem, com respaldos legais para discriminação e agressões, muito frequentes.

Enquanto profissionais de Psicologia, temos um compromisso ÉTICO na nossa atuação, respaldada por nosso código. O interessante é verificar que o mesmo artigo deste Código, que versa sobre as questões religiosas na atuação, também menciona as questões ligadas a sexualidade. Porém, essa breve menção não foi suficiente para convencer alguns profissionais de que uma postura de “cura” ou “tratamento” da homoafetividade é algo nada ético, e por isso, o CFP homologou a resolução 01-99 – Sim..ha quase DEZ anos, afirmando que o tratamento de homossexuais por profissionais psicólogos não é permitido, uma vez que não é considerado uma doença. Se há algo que precisa ser “tratado”, é a homofobia, e não a homoafetividade Os Psicólogos Fabrício Vianna (autor de “O Armário”) e  João Brito são alguns dos profissionais que debatem e divulgando e reforçando estas questões, seja online ou não.

Após assistir alguns desses filmes, se coloque no lugar destes personagens. Digamos que você tem uma crença religiosa, que você ama seu esposo ou esposa, é apaixonado por seus filhos ou animais de estimação. Supondo que voce tenha relações de afeto e carinho com pessoas da sua família. Como você se sentiria se fosse “proibido” ou “coibido” de demonstrar publicamente suas crenças religiosas, seu amor por sua esposa ou filho.....E se, um dia, você não puder mais expressar seus sentimentos – algo que nos torna mais e mais humanos – como você diria “eu te amo” em público e em voz  alta?

Já pensou se alguém lhe agredisse na rua, fisicamente ou verbalmente, só porque você beijou seu filho ou filha. O que seria do romantismo se você não pudesse beijar seu marido ou esposa em público, ou apenas fazer um simples carinho em alguém que você ama? O que seria de você, leitor, se todas as formas de expressão de sentimentos suas fossem vistas com “mal olhos” por algumas pessoas da sociedade na qual você vive.

Reflita como seria sua vida social e afetiva nessas condições e então, você entenderá melhor o sofrimento psiquico desses jovens citados no filme, e porque este é visto como uma consequência SOCIAL, e não, como uma consequência psiquica pela orientação inconsciente de um objeto pulsional homoerótico.

Se você tem o DIREITO de não ser agredido quando abraça seu filho, eles também tem o direito de não o serem. Parece algo simples e objetivo, mas infelizmente não é. A intolerância sexual ainda está fortemente marcada em nossa sociedade.

Percebemos que a questão homoafativa faz parte da evolução da sociedade, e o direito tem o papel principal de acompanhar tais ajustes, como podemos citar o projeto de lei PLC 122/2006.

 A proposta, iniciada na Câmara dos Deputados (PL 5003-B, de 2001), tendo principal propósito do Projeto de Lei é alterar a redação da Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, para que “defina os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero.”

A lei visa é proteger o ser humano, o cidadão, não importando raça, credo, condição social, sexual ou o que for. Negar esta Lei não é negar o direito de “opinião”, mas sim, o Direito de invadir o espaço do Outro e agredí-lo, seja verbalmente ou fisicamente. É promover qualquer tipo de ato de preconceito, baseados em questões “moraes e religiosas”.  Não podemos esquecer que o Brasil é um Estado Laico que sua definição é a separação da igreja das decisões do Estado, que apesar de constar no preâmbulo da CRFB mencionado DEUS, o legisladores tem que separar a matéria de cunho religioso e o que é  progresso social.

As criticas a este projeto não tem respaldo jurídico convincente , pois alegam que fere a liberdade de manifestação e de pensamento, mas esqueceram a constituição é clara no Art. 1º no que diz , constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: inciso II dignidade Humana.

O projeto de lei tem a função de resguardar a segurança dos homossexuais, como observamos acima que independentemente de haver o código penal brasileiro a agressão muitas vezes é impune, tornando necessário o reconhecimento jurídico e a criminalização da ofensa aos homossexuais. Em um pais onde diversos casais já provaram, conseguiram e adotaram crianças, mostrando serem pessoas saudáveis, ainda estamos “repensando” sobre uma lei sobre homofibia? É algo a se pensar...

O preconceito e a homofobia  tornam toda descoberta da sexualidade homoerótica como um caso de Romeu e Julieta, de amor “proibido”, onde a sociedade transforma os casais homossexuais  em vítimas, com sofrimento psíquico e o final  nem sempre condiz com o “felizes para sempre” proposto por Shaekespeare. Se você quer tornar a sociedade um local mais tranquilo de se viver, mais harmonioso para seus filhos, amigos e parentes, reflita sobre a SUA contribuição no sofrimento psíquico destes MILHÕES de brasileiros.

Se você sentir qualquer sentimento negativo nos momentos em que as cenas de beijo, ou mais “picantes” aparecerem na sua televisão, isso pode ser um indicativo de que, as questões homoeróticas precisam ser melhor elaboradas e se você pretende atuar em Saúde Mental, precisará rever deixar esses conceitos prévios fora do setting psicoterápico.

*** Artigo publicado originalmente na Revista Psiquê Ciência e Vida