Artigo publicado na revista Psiquê Ciência e Vida, edição 25
Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps
Infância Roubada (Tsoti)
Porque vamos ao cinema? Para nos divertirmos, para relaxar, para chorarmos, rirmos, para nos identificarmos nos personagens, para passar o tempo, etc. E quando a realidade mostrada na grande tela nos choca, comove, assusta e envergonha?
Depois de quase dois, chega às locadoras o filme “Infância Roubada”, baseado na obra do escritor sul-africano Athol Fugard. O filme aborda a temática violência x pobreza de uma maneira bem realista e verdadeira, pelo menos para nós, brasileiros.
Apesar de ambientado e filmado na África do Sul, o leitor poderá perceber logo no inicio de que estamos presenciando uma versão importada do nosso tão aclamado “Cidade de Deus”. Talvez esta nossa produção tenha aberto o caminho para a temática, e em 2005 o diretor Gavin Hood ganhou a “nossa” sonhada estatueta.
Nosso herói (ou anti-herói) aqui é Tsotsi, um jovem pobre, analfabeto e marginalizado. Não sabemos a idade exata do rapaz, mas podemos supor que seja ainda adolescente....talvez 15 ou 16 anos. Como todo jovem, adora andar em grupos, porem, em seu caso, seu grupo é uma gangue de criminosos, com a mesma faixa etária.
Este grupo de adolescentes vive no que chamam de “ghueto”, e que por aqui, chamamos de “favela”. São discriminados socialmente, isolados de todas as maneiras possíveis, quase que vivendo em uma matrix, sobre a qual, nós temos apenas conhecimento através de livros, revistas, jornais, debates e trabalhos sociais, sem convivermos diretamente com ela.
Logo no inicio do filme, uma breve pincelada sobre alguns problemas sociais enfrentados pelos nossos amigos do outro lado do oceano. Se repararmos bem nas cenas, existe apenas um Outdoor, e o assunto nele é “HIV/AIDS”. Em um país onde mais de 20% da população encontra-se contaminada, com uma perspectiva de vida inferior a 50 anos e índices de contaminação piores do que os piores índices na América do Sul, podemos refletir que a criminalidade não é o único nem maior problema social desse país.
Mas como podemos pensar nesse filme do ponto de vista psicológico? Do ponto de vista social, é obvio que teríamos conteúdos para dezenas de debates, mas para nós, profissionais “psis”, temos um personagem cheio de nuances e que nos fornece tanta informação sobre sua psicodinâmica, que fica impossível não elaborar inferências sobre ele.
Tsotsi é nosso foco aqui, bem como suas cenas, muitas vezes expressas pelo olhar, pelo simples gesto, sem nenhuma expressão sonora deles. Temos aqui um exemplo clássico de “Transtorno de Conduta” (F91.8 - 312.8). Se nosso protagonista tivesse apenas alguns anos a mais, talvez pudéssemos inferir em um psicodiagnostico de “Transtorno de Personalidade Anti-social”, mas, não esqueça, que partimos do principio de que ele tem “apenas” 15 ou 16 anos.
Ele não respeita a ninguém, a nenhuma instituição, a nenhuma regra ou lei. Ignora completamente qualquer tipo de autoridade, laços afetivos e sentimentos. Pelo desenvolvimento da história, poderíamos supor que é do tipo com início na infância e com nível de gravidade severo.
Se compararmos com qualquer outro filme sobre assassinos, assaltantes, estupradores, poderíamos nos questionar sobre a diferença entre eles e nosso Tsotsi. Então você pode se perguntar..”Porque não um diagnostico de Transtorno de Personalidade Anti-social?”......Uma vez ouvi de uma sábia professora a seguinte frase: “Os casos mais graves de transtorno de conduta, com longo desenvolvimento e prognostico ruim são apenas diagnosticados como tal, porque ainda não completaram 18 anos de idade, critério básico para se ter um psicodiagnostico de transtorno de personalidade Anti-social”
E nosso personagem estava sozinho? Não.....temos uma gangue, com muito material para ser analisado. Repare na dinâmica do grupo em questão e em como se completam em vários aspectos psicodinâmicos. Dependência química, auto-mutilação e retardo mental leve são alguns dos pontos que podem e devem ser observados..
Todos tem um apelido, pois usar o nome verdadeiro significa se assumir como “alguém”, Filho de “outrem” e com uma história. Ali eles são quem desejam ser. São os personagens que eles mesmo criaram, e mais do que justo do que se auto-definir como quiserem.A dinâmica do grupo é também doentia, e temos eu seu ponto mais alto, nosso foco dessa análise.
Já escrevi em outros artigos, aqui mesmo nessa revista, sobre filmes com o mesmo tipo de psicopatologia, e acredito que os critérios de diagnósticos, funcionamento e organização psicodinâmica sejam de conhecimento dos leitores. (Eg: Monster - Desejo Assassino). Levantarei aqui apenas pontos e cenas do filmes que poderão então, ser desenvolvidas com esse conteúdo.
Anti-sociais não são, como o senso comum diz, pessoas “frias e calculistas”. Eles tem sim, sentimentos, porém, lidam e os percebem de maneiras completamente diferentes das nossas, sem as mesmas implicações.Reparem como Tsotsi “sente”....mas com os olhos. Seu rosto continua sempre imóvel e intacto, e apenas seus olhos expressam uma leve mudança, como numa expressão de que algo fora “percebido”, mas interpretado de maneira distinta de nós. Sua impulsividade é nítida ao longo do filme, entretanto, seu choro não expressa uma tristeza, como podemos pensar à primeira vista, mas sim, um desespero, por não tem pensado melhor, repensado nos seus movimentos, para que as conseqüências não chegassem aquele ponto.
Após a seqüência de crimes cometidos, nosso personagem se divide em dois: passa a ser Tsotsi e David, representado aqui pelo bebe seqüestrado. É através deste que conheceremos um pouco mais da historia daquele,sua infância e seu modo de agir.
Suas questões edípicas e orais ficam bem nítidas na cena em que David é amamentado, recebendo então este nome. Reparem na expressão de Tsotsi, enquanto observa estático, quase hipnotizado, movimentando apenas sua língua nos lábios, como se quisesse ao mesmo tempo ser “David (bêbe)” novamente. É aí que fica nítido sua paixão pela mãe “solteira”, vítima de um crime que poderia muito bem ter sido cometido por ele. Seus sentimentos por ela ficam mais claros ao longo no filme, nos confirmando as inferências sobre seu “édipo”.
Vítima das conseqüências da pandemia de Aids no país, Tsotsi fugira de “casa” muito cedo, tendo “se” criado entre crianças com historias e destinos semelhantes. É para este local que ele volta com David, pois aquele é o único lugar que consegue identificar como “lar”, representante simbólico de segurança. É como se a historia fosse se repetir através do pobre bebe seqüestrado.
O bebê é tratado como objeto, não só por ele, mas também por sua ama de leite, que insiste que o mesmo seja “dado” a ela. O diálogo sobre “posse do objeto” é frio, calculista e sem a menor expressão de identificação do pequeno como “Outro” ser humano. É um objeto, sem vontade, sem direitos e sem expressão. Talvez, catalisado pelo seu novo “sentimento” em relação a mãe (“sua”), Tsotsi resolve fazer o que é certo. Não que ele desconheça o certo ou o errado, mas apenas, o ignora, pois não estabelece laços afetivos e talvez, o “re-despertar” de seu Édipo possa ter mudado algo em nosso anti-herói, despertando uma possibilidade de ser um herói.
E nessa realidade, onde nós, espectadores, estamos? Justamente do outro lado da poltrona, do outro lado do deserto, desconhecedores desta realidade tão próxima. Estamos nós do outro lado do morro da rocinha, nas nossas casas e apartamentos, com energia e saneamento básico. É nesse mesmo lado que estaria também, a mãe do bebe, vítima do filme, mas pela qual não chegamos a desenvolver tanta apatia (ou antipatia) como temos por Tsotsi. Os sofrimentos físicos e emocionais dos pais e do bebê e a historia trágica do personagem central do filme nos deixam com sentimentos dúbios em relação a toda essa situação.Em tempos de debates e campanhas sobre a redução da maioridade penal no Brasil, acredito que este filme seja fundamental neste cenário social, pois mostra um outro lado de uma calamidade social tão próxima de nós.