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Jean Charles (2009)

Por Eduardo J.S. Honorato e Denise Deschamps

Trailer

Sinopse

 

Que o cinema nacional tem seus grandes filmes, em variadas épocas desde o seu aparecimento, sabemos disso. Temos filmes brasileiros dos mais variados gêneros e com qualidade, despertando interesse do público. Ótimo! Coisas bem próximas de nós. Selton Mello está em dose dupla no circuito nacional, disputando com ele mesmo pelos ingressos. Mulher Invisível (2009) também tem atraído a atenção da mídia nos últimos dias. 

Todos conhecem a história do brasileiro que morava em Londres e que foi confundido com um terrorista, e assassinado pela Polícia Britânica, sem motivo real. Nada foi feito de concreto depois, e muito foi “calado”.  O que poderia este filme trazer de novo? Filme ou documentário? Realidade ou Ficção?

O filme, não consegue prender muito a atenção do espectador, e nos cinemas, é fácil ver as pessoas incomodadas, se movendo, conversando. Tem uma mistura de documentário com cenas reais e dramatizadas[1]. “Atores” desconhecidos, contando uma história conhecida, com início, meio e fim. Mas.....isso seria um filme? Independente disso, como proposto pela Cinematerapia, bom ou ruim  sempre algo que possa ser utilizado em uma película, mesmo que seja pelo seu inverso.

Não somos críticos de cinema, e a estes cabem apontar os defeitos e qualidades do mesmo. Porém, podemos perceber a veracidade nos detalhes, muito bem pesquisados e colocados na tela.

O filme, já começa com uma cena de imigração, tão conhecida e temida por tantos brasileiros que tentam a vida no exterior. Nos aeroportos de Heathrow e Gatwick (Londres), grande parte dos “inquisidores” são indianos, assim como o personagem que aparece no início. Uma cena que se torna dúbia com o tempo, pois os próprios indianos, ex-colônia inglesa, têm dificuldades para entrar naquele país.

Luis Miranda interpreta Alex, um brasileiro sem cultura, sem educação formal(no sentido escolar mesmo) e de caráter duvidoso (criminalidade), mas que tenta ganhar a vida na construção civil. As cenas mais engraçadas do filme são suas, e também, as que mantêm seu olhar na telona. Ao apresentar a casa a Vivian (Vanessa Giácomo) mostra utensílios domésticos de uma cozinha digna de programa matinal. Equipamentos e eletrodomésticos para todas as “necessidades” que aqui, abaixo do Equador, são considerados ítens de “luxo”. Só aí temos a informação de diferenças de poder aquisitivo nas classes trabalhadoras nos países comparados.

Ao mostrar a sala, chama a atenção, uma televisão velha, quebrada, quase pifando. Causa estranheza, uma vez que a casa possui outros aparatos tecnológicos, como computador e internet.

Se analisarmos melhor, a televisão é uma forma de contato com o “mundo exterior” e para que esta tenha sua função cumprida, é necessário que se saiba o idioma. Jean Charles explica que muitos dos imigrantes não falam o idioma, pois passam maior parte de seu tempo trabalhando ou andando com brasileiros.

A prova disso está nas cenas em que apresenta seus amigos a sua prima. Brasileiros que trabalham como motoboys. Sim, este mercado é dominado por brasileiros e isso é mostrado brevemente no filme, assim como outros “irmãos” vendendo produtos típicos da nossa culinária....ítens raros naquele país.

O sonho de tantos brasileiros é mostrado com uma outra roupagem, como pano de fundo. É parte da história do brasil o movimento migratório para os EUA, especialmente de Minas Gerais. Com a dificuldade em se conseguir visto americano, muitos foram para o Reino Unido, e talvez isso explicasse a presença de tantos mineiros pelas filmagens.

O adolescente ou jovem trabalhador que acredita no futuro promissor e mágico que o “exterior” pode trazer é apresentado a uma realidade “pura”, de trabalho pesado, trabalho puxado e com longas jornadas. Sim...claro....o que “sobra” para os imigrantes é justamente o trabalho que o Europeu se recusa a fazer: construir, limpar, servir, lavar, etc.

Como todo brasileiro Jean tem seu “jeitinho” especial e consegue melhorar de vida. Consegue comprar uma televisão de tela plana, e esta sim permitirá o contato com o mundo “exterior”, mas no Brasil. Com ela, consegue o sinal da tv brasileira e vemos “Raul Gil” em um plano de fundo. Agora sim a tv é uma tv, e todos a utilizam como a um “objeto transicional” que os leva de volta ao seio pátria amada(talvez nem tanto assim).

Mesmo estando fora do Brasil, a cultura permanece como parte do sujeito e é a ela que se referenciará quando precisar. É possível ver isto em um momento divertido, em um show do Sidney Magal. Assim como ele, outros cantores fazem shows em Londres, Nova Iorque, Toquio e outras capitais mundiais, e lotam as casas. Não que todos alí gostem das músicas, mas aquele é um momento que eles têm de lembrar de sua cultura, de suas casas, de suas histórias, que foram deixadas para traz em busca de um sonho antes “americano”, e agora “europeu”. Possibilidade de ganhar aquilo que em nossos tempos possibilitam(as vezes matam) o caminho para a realização de sonhos que falam de quem é esse sujeito.

O filme se passa no período posterior aos atentados dos EUA, onde a política do medo dominou os países europeus. No Brasil não houve impacto social grande, mas nas cidades que seriam possíveis “targets” (alvos), como era divulgado à época, a “paranóia” tomou conta. Jean Charles foi talvez uma vítima dessa reação coletiva.

É interessante verificar como este medo incentivou a xenofobia, mesmo daqueles que deveriam lutar contra ela. Italianos reclamam de muçulmanos. Indinanos maltratam brasileiros. É como se fosse uma corrente, um processo em cadeia: um desconta no outro o ódio e a raiva vindo de outrem.  Parafraseando Winnicott quando fala das crianças em seu ato de brincar, diríamos que “repetem ativamente aquilo que sofrem passivamente”.

Este filme foi feito em parceria com redes inglesas, e talvez por isso, tenha um final não tão “final”, mas sim, aberto. Retratou os brasileiros como pessoas trabalhadoras, persistentes, SOLIDÁRIAS e saudosistas e em como a vida de um imigrante pode ser difícil em um país, onde o medo e a barreia do idioma podem surgir. Essa escolha de parceria já poderá nos levar a profundas reflexões sobre nós mesmos. Estranha parceria.

Em termos de cinematerapia, o mais indicado seria para a reflexiva, para debates com adolescentes e jovens adultos. São comuns as verbalizações deste ainda coletivo “sonho americano” de que a vida fora do país é mais fácil e melhor. Jean Charles foi uma vítima do medo social, mas pôde contribuir para, talvez, minimizar essa questão, mostrando que a realidade, mesmo através deste filme, não é tão colorida e fascinante como costumam pensar.

Pensamos a partir desse filme em alguns outros aspectos que fazem parte também da reflexão que setores de pesquisa se debruçam, tocamos nesses aspectos em recente artigo que publicamos na revista Psique que fala da Crise do Capital e a Psicologia que aborda a questão que envolve jovens brasileiros no final do ciclo universitário e que buscam em estudos no exterior ou mesmo, em trabalhos para os quais são convidados, uma possibilidade de realização profissional que se encontra, a cada dia mais estreita, aqui no Brasil. Alguns setores de coordenação do setor universitário se preocupam já com a evasão dos nossos mais promissores talentos, que abandonam o país em busca da realização de suas metas profissionais. Cada um que toma essa decisão talvez não tenha a exata noção do quanto uma questão que parece pessoal, reflete uma realidade preocupante em nosso país. Obviamente que esses jovens encontrarão uma situação de vida lá fora diferente do que foi retratado nesse filme, que fala de uma mão de obra menos qualificada, mas de qualquer maneira, algumas das questões abordadas também farão parte do seu contexto.

Mudar de país, de língua falada, de vizinhança, proximidade dos vínculos que nos constituem pode parecer, à primeira vista, algo estimulante  e convidativo, mas a aventura de viver longe da pátria ainda é algo que exige uma grande resiliência, capacidade de tolerar frustrações, capacidade de desapego e possibilidade de lidar com o preconceito.

A aventura de Jean Charles terminou de forma muito trágica, em um país assustado pelos recentes ataques terroristas acontecidos ou apenas anunciados nesses países de economia forte. Os atentados de Madrid assustaram o mundo, após o grande susto que foi o ataque ao centro financeiro dos USA, furando uma parede que todos acreditavam impenetrável.  Sabemos o quanto a xenofobia avançou após esses episódios e se a nada mais servir esse filme além de denunciar a morte absurda de um brasileiro em solo estrangeiro, que sirva para pensarmos em preconceitos, não estamos nós mesmos, aqui nessa terra acolhedora, imunes a ele, inclusive em um traço que nos atravessa, ao que poderemos brincar com o termo, traçando uma aproximação com o conceito de preconceito internalizado(por exemplo: homofobia internalizada) e pensar em nossos preconceitos que se voltam contra nós mesmos e que talvez tenham levado ao nosso pouco esbravejar frente a morte absurda desse brasileiro anônimo até esse desfecho, mais um rosto perdido em uma multidão em solos outros que não o da sua pátria, essa que deveria ser  MÃE e como “mãe suficientemente boa” chorar e reclamar pelo assassinato de seu filho.

 

 

 



[1] Algumas interpretações tão ruins que deixam as mexicanas nas alturas

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