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Em Terapia (resumão)
Em Terapia

LOST

Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps

Sinopse (clique aqui)

Trailer

 

Apesar de não ser um filme, a serie americana LOST tem batido todos os recordes de audiência, sendo indicada para os mais diversos prêmios da televisão americana. Se não bastasse esse reconhecimento, tornou-se fenômeno mundial, arrebatando milhões de jovens e adultos todas as semanas, desesperados por mais e mais informações sobre o próximo episodio. Um frenesi toma conta de todo o mundo todas as quartas-feiras, quando os episódios vão ao ar no canal americano ABC.

Esse artigo foi originalmente publicado na Revista Psiquê Ciência e Vida, da Editora Escala, e alguns anos depois, retornamos com ele, a pedidos. Já se passaram algumas temporadas (a quinta está no ar agora). Alguns personagens se “foram”, outros continuam. Muitas informações do passado se mesclam com o presente e com o futuro, em uma trama complexa de movimentação de grupo. Um grupo unido por um vínculo: compartilharem uma situação traumática que deverá ser sempre “recalcada” de suas vidas futuras.

Se você não assistiu até os episódios da terceira ou quarta temporada, talvez tenhamos aqui algum “spoiler”. Este termo é usado por apaixonados por seriados para dizer que “informações podem ser reveladas”. (spoiler = estraga prazeres na gíria)

Séries de tv fazem sucesso pelo mesmo motivo que nossas telenovenas: mexem com a curiosidade do telespectador. A continuidade da trama faz com que os próximos capítulos sejam aguardados, em uma eterna ânsia por conhecer, melhor, os personagens ou pelo desfecho de uma situação deixada em aberto no ultimo episódio/capitulo. Toda serie ou telenovela tem um enredo, uma historia seqüencial, uma trama.....e quando o ponto X da questão é justamente esse: não saber o que se está assistindo. Manter-se curioso sobre o que esta acontecendo......tentando entender aquilo que o prende à tv toda semana. O sucesso de Lost está embasado nisso: abusar duplamente da curiosidade humana. Se você ainda não assistiu ao seriado, imagine a seguinte situação: Você compra um livro de suspense ou aluga um filme de mistério. Durante ele você monta mil e uma possibilidades de resolução. Só que essa “angústia” em descobrir a resposta final perdura por anos e anos e lá se vão CINCO anos esperando algumas respostas. Não tem como deixar de assistir, mesmo perdendo a paciência. Quando mais se assiste, mais curioso você fica e mais e mais ansiedade ele te desperta, em saber, afinal, o que move aquela ilha.

O enredo é bem simples: Em um acidente aéreo cheio de fatalidades, um grupo de sobreviventes fica preso em uma ilha, repleta de mistérios, habitada por outros grupos, sejam eles cientistas ou “nativos”. Não sabem onde estão, quem são os outros habitantes, e não há qualquer explicação lógica para os episódios, que passam a ser peças de um quebra-cabeça “interminável”. E nisso já se passaram cinco anos, com possibilidades de mais alguns anos pela frente.

E por que falar de Lost em artigo sobre cinematerapia? Porque essa talvez seja a série que nos traz o maior número de possibilidades de inferências e pontos-chave para debate.

A sociometria de Jacob Levy Moreno(1992) explica um dos pontos mais intrigantes da série: diversos personagens terem suas vidas cruzadas e certo momento. (curiosamente, o “mentor” de um dos grupos, leva o mesmo nome “Jacob”). Antes do acidente, os sobreviventes não se conheciam, mas, fizeram parte, mesmo que indiretamente, da vida dos outros.  Diversos episódios mostram esses entrelaces das vidas dos protagonistas. No passado se cruzaram como desconhecidos, e no futuro, passam a ser reféns de um mesmo mistério. Assim como os telespectadores, os personagens se tornam reféns dessa “verdade” por trás do seriado.

Além disso, temos também, testes humanos em uma caixa de Skinner (Kate e Sawyer em suas jaulas, no segundo ano da série). Em uma analogia ao comportamento humano e o comportamento animal, nossos personagens são em muitas vezes levados a seus extremos, com o objetivo – puramente experimental – de testar seus “instintos”. Com requintes de crueldade, alguns personagens perversos de escondem por trás de uma cientificidade com fins mórbidos. Somos levados a odiar estes, mas com o passar dos anos, aprendemos que toda história tem dois lados e sentimentos dúbios em relações aos “vilões” são despertados.

Afinal...quem são os “vilões”? Eles realmente existem nesses seriados? Porque temos essa necessidade de dividir entre bem e o mal? Não podemos apenas ter visões e posições diferentes de mundo? Quando ultrapassamos a linha limite entre o normal e o perverso? Simples...quando deixamos de reconhecer o Outro como dotado de direitos, vontades, individualidade. Cruzar essa linha tênue é adentrar na perversão e na patologia. Podemos pensar também em como a lei que organiza a cultura, contextualizada sempre, organiza também nossos construtos sobre o que seja perverso ou normal. Sabemos, como Freud analisou muito bem em seu texto “Psicologia de Grupos e Análise do Ego”, que os ideais que mantém os laços entre os grupos, também constroem as hostilidades em relação aos outros grupos. Fenômeno comum também em grupos é o fato de se subdividirem por identificações em determinados momentos, que também trazem em si a disputa pela liderança quando não há uma identificação imediata do chamado “líder natural”. A escolha desse líder passa exatamente por esse “ideal” ou liga afetiva que constituirá o grupo como tal, as hostilidades em relação ao diferente poderão ser exercidas então com bastante perversidade sustentada como lei do grupo.

Para os que assistem o Reality Show Big Brother, observe um fenômeno interessante na disputa entre lados. Melhor não comentarmos muito.....Apenas observe e conclua você mesmo.

Individualmente, cada personagem daria uma excelente trama para um folhetim mexicano. Juntos, formam um grupo operativo, com interação perfeita, que apresenta diversos fenômenos chamados Reações G (CASTILHO, 1988). Alguns deles são: bode expiatório, silencio, líder, teorização, reações a novos membros, ataque ao facilitador, etc.

São personagens bastante “clássicos” e você já viu todos eles em alguns outros momentos: seja na sua casa, no seu trabalho, no seu grupo de amigos, no grupo de pacientes, etc. Todos têm um líder, um vilão, um amado por todos, um odiado. Uns mais preguiçosos, outros mais ativos. A pluralidade dos personagens faz com que se tenha identificação imediata, transpondo suas características mais predominantes para um outro contexto. Boom....o primeiro processo de identificação se faz presente e o telespectador está grudado na tela. Técnica antiga e eficaz de redação cinematográfica.

Com o passar dos episódios, os personagens ganham um passado, uma historia, que começa a elucidar certos comportamentos, nos ofertando com inúmeras possibilidades de analises. Alguns exemplos são:

- Jack Sheppard – Neurocirurgião com questões muito mal resolvidas em relação ao seu pai. A relação rival edípica está presente tão fortemente, que culmina com acusações e morte. Com o passar dos episódios a figura do “dono do saber” começa a desmoronar. Em uma situação de desespero e conflito somos levados a buscar filiação e liderança e aquele que se mostrar mais convincente poderá se tornar facilmente um líder, seja em um aspecto positivo (Jack) ou seja em um aspecto perverso (Benjamin). Este se mostra um perfeito perverso com um passado repleto de traumas e contravenções, incluindo homicídios em massa. Algo de histórico nesse modelo perverso de liderança, na pacata vila dos “Outros”.

- Hurley – milionário, com mais azar do que dinheiro, que passou certo tempo em instituição psiquiátrica. Durante sua estadia na ilha perdida, aparentemente, tem mais um surto psicótico, o que traz à tona a possibilidade de um quadro de esquizofrenia. Ao longo desses cinco anos ele frequenta instituições psiquiátricas por diversas vezes, sempre com uma hipótese diagnóstica de Esquizofrenia. Aos poucos, mesmo os mais céticos são levados a contestar essas situações, dada as peculiaridades do seriado.

 - Kate - Filha de um sargento americano e de uma garçonete, descobre que seu pai na verdade é seu atual padrasto, um alcoólatra que a assediava sexualmente e agredia fisicamente sua mãe. Coloca fogo na casa e mata o padrasto (pai). Acaba sendo denunciada pela própria mãe. Na fuga, envolve-se num acidente que termina na morte de seu grande amor infantil. Estava no avião sendo escoltada de volta para seu país, para ser julgada e possivelmente condenada à prisão perpétua ou pena de morte (os crimes foram cometidos em diferentes Estados Americanos). Esta (estava) em eterna dúvida sobre seus sentimentos, dividida entre o mocinho e o bandido do grupo (Jack e Sawyer). Esse triângulo amoroso, fantasia eterna coletiva, toma corpo ao longo dos anos e persiste como um fantasma após a “possível” saída da ilha. Diante de toda a sua dor e sofrimento, consegue organizar seus sentimentos e instabilidade emocional, usando como catalizador uma criança (infelizmente, se você não viu todos os episódios ainda, não poderemos dizer quem é....). Bastante passional, sem limites e capaz de tudo pelos seus ideais, é uma personagem dúbia que, em muitas situações nos remete a alguns sintomas clássicos de Transtornos de Personalidade.  Porém, por não ter traços perversos, consegue obter sentimentos positivos dos telespectadores.

 

- Sun e Jim – dois sul coreanos, em uma historia de amor proibido por castas sociais. Nos apresentarão cenas de diferenças culturais oriente-ocidente bem interessantes, principalmente quando o assunto é sexualidade/sexo. As relações familiares do oriente são mostradas friamente, causando certo “choque cultural”. Sun é uma burguesa sulcoreana que foge da tirania do seu próprio pai, em busca de sua identidade. Ao passar por situações traumáticas consegue identificar seus próprios pontos fortes e traços de caráter mais marcantes para assim, enfrentar não somente seus fantasmas, mas também sua Lei (pai). Aos poucos se tornar tão astuta e esperta como o pai, porém, lutando por seus ideais não nocivos ao outro.

 

- Locke – Descobre tardiamente que fora adotado. Seu pai biológico o procura para uma emergência médica. Após doar um rim, seu pai biológico o abandona “novamente”. Até chegar na ilha, vivera os últimos quatro anos em uma cadeira de rodas.  Vários foram os debates sobre este ser um possível caso clássico de histeria, que fora então melhor explicado no terceiro ano da série. Mesmo assim, o mistério em torno deste personagem cresce ao longo dos anos, se tornando um possível pré-destinado para assumir algo importante na ilha, sendo este um ser com vida própria e dotado de vontades.

 

Sayid - iraquiano, militar, especializado em torturas. Vive em conflitos, pois torturou muitos prisioneiros, durante as guerras em seu país, inclusive alguns de seus amigos. Mas isso não o impede que  torture alguns "moradores" da ilha quando necessário.  Para os Kleinianos, é um leque de possibilidades de debates, pois apesar de apresentar certa “culpa”, suas habilidades militares estão sempre prontas para serem utilizadas novamente. Uma vez perverso, sempre perverso, uma estrutura, mas como dissemos mais atrás, esse perverso também tem muito de ligado aos parâmetros eleitos pelo grupo como aquilo que o constitui. Mesmo depois de passar por toda essa situação, traumática para tantos, Sayid continua com suas características perversas e atuando, encontrando desculpas simples e fracas para justificar seus atos. Está inscrita nele como constituinte do seu ser a capacidade de obter do outro aquilo que seria, em suas crenças integrantes de seus modelos de identificação, a validade de atuar a agressão legitimada por um fim. Esse traço existe ao longo da humanidade, operamos ele de forma brutal ao justificar as guerras.

 

Ainda temos situações de incesto (Boone e Shannon), Drogadicção (Charlie), possível psicose pós-parto (Rousseau), falhas de caráter (Sawyer, Nikki e Paul), abandono (Claire), etc. Ou seja, temos inúmeras possibilidades de trabalharmos a série dentro de um prisma psicológico.

A maior contribuição dessa série é justamente esta, nos dar novas opções práticas de debates, que não sejam os clássicos filmes sobre grupos (28 dias, Senhor das Moscas, etc). A única diferença está em saber até quando conseguiremos manter nossa curiosidade, esperando mais 168 horas (sete dias) para “não sabermos” mais ainda sobre a trama.

Lost será então uma boa oportunidade de observar fenômenos grupais, os vários laços e momentos pelos quais todo grupo de alguma maneira atravessará. A formação dos vínculos, a exclusão do diferente, a eleição do ideal(inconsciente) que une o grupo, assim como a atuação dos papéis sempre presentes e constituintes de qualquer grupo.

A convivência humana é sem dúvida uma das tarefas mais fundamentais e sem dúvida a mais difícil. Onde há muitos desejos algo em comum precisará ser construído para que esse grupo se una, o indivíduo se perde e se encontra no tecido que forma o grupo. Afinal somos,  desde a concepção, sujeitos em vínculo. Séries como Lost nos fazem entender um pouco, e bastante afetivamente, como essa tarefa humana é, e sempre será, nossa maior sede de tensão, mas também de prazer. Estar com o outro quando a troca é possível, se constituirá, sem dúvida nenhuma, em uma fonte grandiosa de gratificação. Os mecanismos que possibilitarão esse caminho do prazer ou a predominância dos aspectos destrutivos, se fazem representar muito bem nessa série.

 

Sugestão de atividades:

  • Identifique com alunos os fenômenos de grupo encontrados no seriado.
  • Eleja algumas cenas onde os conflitos apareçam com maior intensidade e veja como se dá a resolução deles (as cenas mais comuns são as de grupo, à beira da praia, onde dezenas de personagens atuam juntos).
  • Utilize o texto de Castilho (1998) e peça para que identifiquem as reaçoes G em episódios do seriado.
  • Peça para que os alunos identifiquem questões psicodinâmicas nos demais personagens. Ao longos dos anos, muitos outros aparecem na trama e podem ser estudados em maiores detalhes. Exemplos: Ana Lucia (Transtorno de Estresse Pos-traumático), Libby (Pseudologia Fantástica), Jim (quebra de valores culturais em nome de um amor), Michael (crime por amor), etc

 

CASTILHO, Áurea. A dinâmica do Trabalho de Grupo. 3ed. Rio de Janeiro: Qualitymark, 1998.

MORENO, Jacob Levy. Quem sobreviverá? Fundamentos da Sociometria, Psicoterapia de Grupo e Sociodrama. Goiânia: Dimensão, 1992,

 

 

 

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