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Meia Noite em Paris

Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps


Novo filme de Woody Allen estréia nas telas brasileiras. Trazendo um elenco considerável em um desfilar de personagens que retratam grandes nomes do mundo das artes dos anos 20 em plena Paris, que nos são apresentados pelo diretor tendo ao fundo o som do clarinetista Sidney Bechet. Toma o sentido de uma verdadeira aula que assistimos desejando fazer parte daquela viagem sonho, vivida pelo personagem Gil(Owen Wilson).

Passear por Paris ano 2010, sermos remetidos a uma Paris anos 20, tudo se apresenta deliciosamente empolgante via as lentes deste diretor. Independente da homenagem, prestada a essa bela cidade, pretendemos pensar aqui naquilo que poderia ser chamado, por ironia, remetendo às fábulas, de “moral da história”, no filme apresentado em sua finalização e que nos diz que sempre traremos dentro de cada um de nós essa sensação de nostalgia, da crença na qual a felicidade se encontra em algum outro tempo(perdido, passado) que não aquele que atualiza-nos no cotidiano, momento presente, encarnado. Se pensarmos isso em cada história individualizada, poderemos nos remeter à infância perdida, ao sentimento de totalidade e completude que todos nós, em nosso desenvolvimento, experimentamos naquilo que em psicanálise poderia ser referenciado no narcisismo constituinte que constrói o aparelhamento psíquico. Temos saudade, sem saber nem de quem, nem de quando, nem de qual seria a cena perdida, mas a nostalgia está presente em cada um de nós como uma das sensações que nos inscrevem no corte temporal dado pela realidade. Nesse tempo perdido encontramos a sensação de alegria, de completude, de uma deliciosa inocência, em um acreditar em mitos e heróis.  No filme, vivenciamos isso nos artistas idealizados por Gil, que dessa maneira reencontra a alegria de pensar mitos, da sensação efusiva de admirar o outro em busca de suas próprias identificações.

Esse roteiro, mais um com a marca da fina ironia de Allen, narra fatos que se atropelam justamente quando a vida de Gil parece estar resolvida, ele, noivo, pronto para finalizar o livro que anseia lançar, e será nesse momento que a angústia do desejo aparecerá em toda sua potência. Chega a Paris para uma viagem sem expectativas realizada em conjunto com sua noiva Inez(Rachel McAdams), e seus sogros, John(Kurt Fuller) e Helen(Mimi Kenedy). Embarca então em pensamentos que se materializam em passeios por sua idealizada Paris, para ele, anos da década de 20, e como um “Cinderelo” ao contrário, embarca em seus sonhos quando tocam as belas badaladas da meia noite em Paris, embarca em um carro primeiramente para ir a uma festa em homenagem ao cineasta francês Jean Cocteau com Scott e Zelda Fitzgerald, Ernest Hemingway, T.S. Eliot. E nos dias seguintes, quanto mais seus passeios e encontros acontecem ao som das badaladas, mais sua vida atual e seus vínculos se enfraquecem. O dia passa a ser o fardo que suporta enquanto espera a noite com seus sonhos. Poderíamos perguntar se eles, seus vínculos presentes, perderam a força na justa medida que seus compromissos com ele mesmo, naquilo que mais fala do desejo, se fortaleceram e ganharam representação. Seus encontros com as figuras idealizadas do mundo das artes o levam a uma conversa sobre seus próprios pensamentos ocultados de si, até então, pelas necessidades do mundo externo ao qual foi correspondendo. No mundo dele, o de um roteirista bastante requisitado em Holywood, já se mostrou como um homem financeiramente e suficientemente bem estabelecido. Homem que vai abandonando nesse caminho para surpresa de sua noiva Inez que vislumbra em Paris apenas a possibilidade de comprar antiguidades para sua casa em Malibu.

Talvez possamos pensar em todos os grandes mestres que são chamados para acompanhá-lo em seus passeios como representantes de tudo aquilo que é mais investido enquanto o sublime para Gil. Para o espectador é uma verdadeira degustação de pensamentos e posicionamentos de grandes nomes que até hoje representam tendências e movimentos na atualidade.  É um prazer à parte ir reconhecendo cada um deles, todos bastante bem caracterizados pelos atores designados para representá-los. Nota à parte para Picasso e Hemingway(Corey Stoll), assim como a breve aparição de Salvador Dali(Adrien Brody) e Luis Buñuel, fazendo-nos lembrar do magistral “Cão Andaluz”. A mágica de “Meia Noite em Paris”, em muitos momentos, coloca-nos quase que de mãos dadas passeando com Gil, tal qual o faz outra personagem deliciosa, Adriana(Marion Cotillard) amante de Picasso, ex de Modigliani e Braque. É realmente uma obra bastante envolvente, um deleite.
Quase ao final do filme, seremos também apresentados brevemente a grandes nomes do impressionismo paixão de Adriana pela Belle Époque os levará até Van Gogh, Edgar Degas entre outros;  e assim também veremos Gauguin (Olivier Rabourdin) que vive no fim do século 19, mas inveja a Renascença. Essa viagem para um tempo ainda mais anterior nos encaminhará até a grande finalização e conclusão dessa obra de Woody Allen e sobre a qual vale prestar a atenção e lançar reflexões. Essa tremenda saudade e idealização de tempos passados, de remotas épocas. Nesse clima, convidamos para que nosso leitor dê agora uma pausa, e pense qual seria a época da história que mais o fascina, que o faz às vezes sonhar acordado(a) com a possibilidade de vivê-la. Talvez possamos pensar essa inclinação tão presente em todos nós, como uma nostalgia “neurótica” que compõe uma intensa formação substitutiva dos nossos sentimentos mais felizes da infância. O que há lá atrás que faz-nos suspirar de saudade? Ou correr pelos corredores do Palácio de Versailles, como acontecerá ao pobre detetive contratado por John para tentar descobrir o que seu genro Gil estaria fazendo em suas voltinhas noturnas pelas ruas da elegante Paris e lançado ao que provavelmente seria o seu tempo idealizado, e quem sabe se ali, descobrirá os segredos de alcovas que guardavam aquelas paredes.

Woody Allen é um diretor típico do ame ou odeie, não será possível, nunca, um meio termo em relação ao que desperta em cada um. Muitos dos que não apreciam suas obras toleram um pouco mais quando ele não atua em seus filmes, cada espectador e seus gostos. Fato é que ele cai bem ao gosto europeu que escolhe seu filme para abrir o Festival de Cannes 2011, e podemos supor, tecer conjecturas de que Allen com esse filme agradeça a Paris como a capital da cultura que o recebe e sempre o recebeu tão bem. Podemos ver como sua marca suas tiradas finamente irônicas, inteligentes e articuladas, sempre presentes, como mais uma vez veremos neste filme abordado aqui. Nele não deixamos sequer de ver claramente a ferina crítica referente à antiga inveja americana quanto ao caldo cultural que o Velho Continente representa ao ideal da terra do Tio Sam. Mas, cuidadoso, não deixa de citar também escritores americanos consagrados,  aqueles que refugiaram suas artes na bela Paris, como Francis Scott Key Fitzgerald, sua mulher Zelda, assim como Hemingway(Corey Stoll)  parte de um movimento que foi tão bem descrito por outra personagem da vida real apresentada no filme, Gertrude Stein(Khaty Bates). Salva a pátria, embora represente a versão pasteurizada de arte via a família da noiva e de seu amigo Paul(Michael Sheen), a quem Gil taxa muito apropriadamente de pseudo-intelectual e pedante, esse amigo que é um misto de enciclopédia ambulante com a hiper atual  ferramenta de busca internética, o Google, e que deixa em aberta a discussão do que seria mesmo arte, a não decorada, a não oficializada, a arte que Gil encontrará em seus passeios noturnos à meia noite enluarada de Paris e que é confrontada em seu íntimo com o vomitório estéril de Paul, uma arte que pulsa sexualidade, rivalidade, excitação, como pontua magistralmente para Gil o mestre Hemingway quando ele lhe pediu que lesse seu livro. Tudo isso leva o espectador a se deparar com o conceito que toma a emoção, que atravessa o ser tocando o que há de mais íntimo em sua construção.  Gil nos apresenta à perspectiva de que a arte só pode ser apreendida no singular, que quanto mais destituída de um olhar erudito, mas cumprirá sua função. Ao dar seu livro para avaliação pela grande amiga de Picasso e outros, Gertrude, e ela apreciar sua obra, nos toca com a tese que há arte em muito daquilo que não necessariamente está catalogado como peças imperdíveis. O tempo, deixa de fora muitas que, às vezes, serão resgatadas gerações e gerações depois, o que nem sempre será um fato, algumas, muitas, nunca serão apreciadas, e nem por isso, deixarão de serem belas, imortalizadas como a construção estética que toca tudo que é mais humano e que se instala entre a fantasia e a realidade.

Esse filme nos traz ainda mais marcadamente a sensação de sonho com o qual costumamos aqui em nossa coluna compará-lo sempre, como dissemos repetidamente aqui em nossos textos anteriores, desde que nos lançamos no projeto “cinematerapia”, o filme é como um sonho compartilhado, fruto da coragem daqueles que trabalham para lançar-nos nesse espaço que nos é tão caro e apreciado. Nessa película somos transportados de uma maneira encantadoramente mágica e envolvente para essa perspectiva.

Como o tempo em análise, no filme ele se atravessa em tantos momentos, que terminamos de assisti-lo desorientados em relação a que momento Gil realmente irá se instalar. Guiado por sua paixão por Cole Porter encontra um rosto de mulher presente em Paris, Gabrielle(Lea Seydoux), já não sabemos mais que tempo ela está, em qual ponte caminham, e com esse sentir aturdido, as luzes do cinema se acendem e nos acordam da magia que Allen nos possibilitou. Que tempo é esse no qual acordamos desse sonho filme? Que sentimento de admiração ele resgatou em nossa história? Nesse nosso atual presente, tão sem heróis, tão cru, onde o rei está nu, encantar-se com personagens personalidades que tanto nos deram em termos de pensar o mundo, pensar a vida, pensar desejos e possibilidades é delicadamente uma generosidade com o espectador. Quem dera Freud tivesse alguma passagem para ser trazida para esse filme, quem sabe contemplaria a transferência que todos nós, em alguma medida, atualizamos em sua passagem afetiva por nossas vidas via nossos analistas. Fato é que a concepção freudiana que nos remete às nossas próprias atualizações esteve marcadamente presente nesse roteiro, o sentido da alegria que a nostalgia também contém, como perspectiva de resgate de um algo que não podemos prescindir. Há quem tenha visto no filme o mesmo Woody Allen pessimista de sempre, mas questionamos se o que há de novo não seria um ar de uma alegre esperança, a noção justa da falta de tempo a perder, coisa que já abordamos aqui um pouco quando escrevemos sobre seu outro filme recente o “Tudo Pode Dar Certo”.

Gil entende pela busca de outros que o tempo idealizado sempre será muito singular, a grande história conta e ao mesmo tempo recebe o olhar que cada um de nós lançará sobre ela, toda história é apenas uma versão, das muitas outras possíveis. Retorna livre de suas amarras, preserva a admiração, mas aceita o tempo como sua marca, longe agora das amarras que construíra para si mesmo, passeia com Gabrielle, finalmente livre pelas ruas de Paris, poderá, enfim, apresentar-se. Resta ao espectador a sensação inevitável do porvir, restam todas as perguntas que nos fazemos a cada novo amanhecer: - E agora, o que virá?

E como o amanhã é sempre um provável acontecimento, terminaremos dessa vez nosso texto citando um poeta pouco conhecido no Brasil e de uma geração que veio depois desta abordada no filme, René Char, o poeta predileto de Albert Camus e que pensamos descreve bem a mágica desse roteiro deste original diretor.

"Ser poeta é ter o apetite de um mal-estar cuja consumação, entre os turbilhões da totalidade das coisas existentes e pressentidas, provoca, no momento da eclosão, a felicidade".



Site oficial do filme: http://www.sonyclassics.com/midnightinparis/cast.html
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