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Melancholia (2011) – Uma conversa sobre o filme entre Eduardo Honorato e Denise Deschamps

Foi proposta a discussão por duas opiniões diferentes e divergentes, uma colocando-o como melhor filme do ano e outra dizendo que era tão bizarro quanto seu filme anterior “O Anti Cristo”. Fato é que Lars Von Trier é um diretor que provoca polêmica tanto por sua mão pesada nos roteiros e direção, quanto por suas ocasionais declarações, como as que deu no Festival de Cannes 2011 que causaram muito mal estar.


Eduardo
Melancholia superou todos que conheço. O filme é chato demais. Até tem seu toque melancólico mas o enredo é péssimo, interpretação sofrível e não tem nada de diferente ou interessante ali. Apenas mais um filme chato de um diretor maluco (risos)

Quando começou o filme na mesma hora reconheci Tristão e Isolda....e olha que eu vi a ópera apenas uma vez.

A tentativa, de recriar o ambiente melancólico, foi “fundo” demais. Achei a “mulher aranha”* fraca e o filme arrastado. Lindos surtos psicóticos mas não valem as duas horas que duram pra sempre....

Participante pondera que foi um filme aclamado pelo público “cult”

Denise
Melancólico...o problema é o sentimento que traz, e que me desculpem, mas vejo a mesma visão de"mão pesada" que combina bem com as declarações de Lars em Cannes, há algo de fundo que é extremamente prepotente e desagradável. Sim, um cinema diferente, sem dúvida, tem seu mérito por isso, nota especial para Claire, mas não tem a beleza de Wim Wenders, por exemplo, falando do bom cinema.

Eduardo

Explicando melhor o porque não gostei desse filme e porque NÃO o assistiria de novo...

O filme é dividido em duas partes iguais, de 1h03 minutos. Ele começa com uma introdução de quase 8 minutos com parte do primeiro ato da ópera Tristão e Isolda. Quem já viu a ópera reconhece de imediato. Diferente desta, o filme desperta sensações muito ruins porque as cenas são fotografias dos personagens em um quase psicótico surto. Cenas bizarras que já te contam todo o filme.

A primeira parte é focada em Justine, a “mulher aranha”. É seu casamento, e provavelmente é bipolar ou ciclotimica. As cenas são arrastadas, chatas e seu surto fraco demais. Cenas exageradas....infelizmente ela não é atriz para um suposto papel denso assim. Deixa muito a desejar. Você percebe que o filme se arrasta e fiquei com vontade de desligar, mas queria ver até onde iria aquela loucura toda. O som é muito alto para dar a impressão do incômodo que alguns pacientes com esses quadros relatam (hipersensibilidade). Ela tem um enredo familiar patético e exagerado, dando uma relação causal de que o quadro clínico seria causado por um enredo familiar. Uma mãe surtada, esotérica e um pai beberrão. Sua irmã, Claire, mais dominadora, ;e casada com um milionário e o filme se passa no “castelo” onde residem. Depois de assistirmos a todo um surto hipomaníaco durante o casamento, Justine entra em depressão e o filme se foca em Claire.

Essa é a segunda parte e passamos a vivenciar o possível surto de Claire. Com medo do planeta Melancholia colidir com a Terra, entra em um quadro de angustia profunda até o final, quando já sabemos o que irá acontecer porque nos foi contado nos primeiros 8 minutos do filme.

Assim como a Denise mencionou, achei o filme prepotente e nada muito verídico. Talvez tenham recriado o universo melancólico de UMA pessoa e generalizaram. Há um exagero e banalização no quadro de sofrimento psicológico e não há nada que o filme possa contribuir. Típico filme de pessoas surtadas, disfarçado de “cult”.
Eu tenho um “tombo” por alguns filmes cults, mas tenho o pé no chão também. O filme me pareceu um bando de lacanianos falando blablablablabla por duas horas sem chegarem a qualquer conclusão, onde o prazer ficou todo retido no blablabla....


Denise
Sim, concordo. Mas acho que é no caminho dessa prepotência que ele representa bem a melancolia, como dizia um antigo supervisor meu, a melancolia é a prepotência às avessas(ser melhor no pior), por isso, muitas vezes, o discurso melancólico, tipo delírio de ruína, de fim do mundo, a desesperança etc é tão cultuado, vide como exemplo, os aforismos que abundam melancolicamente nas redes virtuais. Então, também vendo esse aspecto, não há nesse filme nenhum discurso inovador como pretende seu diretor, mas, muito embora isso, é um filme que tem qualidade, principalmente de nos fazer conhecer o "tempo" e "clima" melancólico que todos nós, em algum momento da vida, experimentamos em pequenas porções.

Eduardo
Bem lembrado sobre a Claire... é o que salva parte do filme. Acho que eles erraram na escolha da “mulher aranha”. Parece que era a Penélope Cruz, mas não pôde por causa de outro filme.

Denise
Sou suspeita pra falar porque adoro esse estilo de "dar banho" em uma interpretação no modelo "contida", muito uso de pequenas expressões faciais, e a personagem Claire usou e abusou disso, de maneira bastante eficiente. Mas continuo com a opinião de que o filme promete mais do que entrega. Estou rindo muito da sua "mulher aranha", acho que se pensarmos no filme isto pode dar muito "papo cabeça" (risos)

Também li que o papel seria da Penélope Cruz que acho que saiu de fininho(risos). Durante o filme pensei na Geraldine Chaplin, caso ainda tivesse a idade da personagem, fazendo a Claire. Caramba, imagino que seria ser muito bom de ver!



Eduardo
O que mais me incomodou no filme foi o áudio. Entendi a intenção dele, mas acho que perdeu a mão.

Denise
Concordo novamente. Mas, o que mais me incomodou no filme, e nem digo que ele seja ruim, não é, mas foi a obviedade travestida cerimoniosamente de uma pseudo grandiosidade, não tenho muita paciência para isso. Moral do filme...oras

Denise
É fato que o filme deu o que falar, ele dividiu opiniões, levantou polêmica. Penso que a angústia e irritação que senti ao final do filme traduziu a intenção dele, e não acho que precisemos de mais arautos da desesperança neste mundo, embora perceba que cumprem uma função, talvez até importante, mas bastante batida já.

Confesso que ri quando John, marido de Claire, se matou com os comprimidos que cumpriram a metáfora da falta de confiança dela, foi ironicamente que pensei no ditado popular, traduzido pelo avesso: “A esperança (não) é a última que morre” risos. A caverna mágica como uma alusão à ilusão da crença, me pareceu de uma simplificação quase risível também.

Gostei da paisagem do filme, o campo de golfe, o castelo e seu interior, muito lindas as imagens, valem o filme também, junto com Claire, claro. Nosso homem “24 horas”, John, um personagem dúbio, com poder mas que traz uma marca de fragilidade e traços servis por demais, traduzindo uma incoerência. Se isso é a leitura do lugar do homem na atualidade feita pelo diretor, fica a dúvida.

Mas Melancholia vem e explode tudo, em sua potência destrutiva de fora pra dentro (retorno da agressividade), como bem já havia descrito o velho Freud. Há prazer no encontro com o planeta azul.
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