Filmes são instrumentos perfeitos para o que denominamos de Cinematerapia Acadêmica. Através deles, conseguimos trabalhar com alunos, nos mais diversos níveis, assuntos pertinentes ao campo psi. A proposta é a de levantar questões para reflexão, tarefa precípua de todo formador comprometido com seu espaço de ensino. Há anos que as grandes produtoras perceberam o fascínio que os transtornos mentais geram nos telespectadores, e usaram e abusaram de temáticas, como perversão, depressão e parafilias. Não é à toa, que centenas são os filmes que mostram estas questões. Porém, de alguns anos para cá, assim como as visões dentro das próprias ciências psi, a representação nas grandes telas vêm se modificando também, apresentando questões relativas a sofrimento psíquico em aspectos menos depreciativos, como os grandes clássicos “Uma Mente Brilhante”, “Shinning” e muitos outros. Levantam debates sobre temas e sofrimento que enfrenta o homem contemporâneo.
Nos últimos anos, além dos filmes, tivemos a entrada em cena, dos famosos seriados americanos que também perceberam o fascínio humano pelos comportamentos diferenciados. Vimos alguns recentes invadirem nossas televisões com as mais variadas ramificações da temática psi. Escrevemos aqui, algumas vezes, sobre o seriado Em Terapia (In Treatment), e agora, temos mais uma peça importante neste ramo, o seriado Mental, produzido pela Fox. Trataremos aqui dos primeiros quatro episódios da série, que já possuí treze disponíveis, e arrebatou estudantes, profissionais do campo psi e interessados na área.
Dr Jack Gallagher (Chris Vance) é um psiquiatra “caipira” que assume a direção geral de um grande hospital psiquiátrico na grande Los Angeles. Entre fenômenos organizacionais comuns e entrada de um estranho em tal grupo, veremos mais uma possibilidade de aprendermos e ensinarmos utilizando os recursos audiovisuais. Logo ao início o capítulo inaugural nos coloca frente a frente com as questões institucionais e jogo de papéis e poder que sempre encontraremos dentro da equipe em instituições. Somos presenteados, nos primeiros minutos com uma cena belíssima, onde todas as ferramentas possíveis são utilizadas para conter um paciente em surto psicótico, sem qualquer dano a saúde física dele e dos demais presentes, a partir dessa intervenção já se coloca em xeque inclusive todas as questões das normas institucionais estabelecidas naquele espaço. Concordamos que a intervenção mostrada não seria algo ortodoxo, talvez sequer recomendada, mas sabemos que em casos como este, de Esquizofrenia Paranóide, a necessidade de intervenção é imediatista, dado o risco de auto e heteroagressão iminente, e a cena dentro dessa série, traz em si toda uma mensagem de quem seria aquele novo diretor da ala psiquiátrica. Jack abre mão de todos os seus conceitos e pré-conceitos, em prol de um paciente, que ele jamais tivera contato antes. Isto é se DOAR ao seu trabalho e literalmente vestir (na cena literalmente despir) a camisa. Paralisada pelo episódio toda a equipe do hospital assiste a intervenção, sem se dar conta de quem seria aquele estranho que intervém, belo apontamento de por onde seguirá sua atuação ali dentro.
Podemos presenciar um surto psicótico em “primeira pessoa”, ou seja, ver exatamente e sentir exatamente o que o paciente passa neste momento. Todas as alterações das funções do ego nos são demonstradas, com os melhores recursos que a tecnologia pode nos dar. Vincent, o primeiro paciente, nos ensina como a realidade externa é angustiante, a ponto deste Ego cortar com a realidade e construir uma outra, a partir de suas fantasias. Percebemos o quanto Freud falava das angústias e da eterna briga entre os Senhores do Ego e como o sofrimento psíquico consome energia e desgasta aquele que sofre. Há o sofrimento dos familiares, mas há também demonstração do grande sofrimento que este frágil Ego tem com esta realidade aterrorizadora, e como seus surtos, por mais tenebrosos, são menos angustiantes do que a realidade externa que ele transborda com seus fantasmas em uma tentativa de ligar mundo interno e externo, sem uma clara divisão na psicose. Nesse capítulo inicial, através desse rico personagem e do complexo vínculo que Jack estabelecerá com ele, podemos começar a questionar a doença, não apenas como algo a ser combatido, mas como nos disse Freud, como também uma tentativa de recuperação de sua ligação com o mundo.
Vincent fora medicado durante anos. Não temos como negar a importancia e efetividade destas drogas. Mas não podemos acreditar que estas sejam as únicas formas de tratamento, e as demais linhas das ciências estão aí para nos mostrar isso. Vincent teve seus sintomas removidos, mas junto a eles, foram-se sua potência de vida e sua criatividade. Ele que antes havia sido um artista reconhecido. Sabemos que a criatividade está apoiada na base do caldeirão (Freud), ou seja, no Inconsciente. E com isso, ao medicarem este artista, tiraram dele o direito de sentir, e sem isto, não havia mais a possibilidade de expressar sua subjetividade através da sua arte. Em tratamento com Jack, acaba pintando, inclusive, as paredes de seus locais de tratamento. Técnica fantástica! Esta é a grande conflitiva deste caso, Jack consegue, com apoio de outros profissionais, encontrar uma forma de tratamento que re-insira este paciente em seu cotidiano. Uma belíssima forma de trabalho com saúde mental. Jack não é nada ortodoxo e passeia muito próximo a ações que poderiam beirar a inconseqüência e irresponsabilidade. Sua postura visa implicar a família no entendimento e tratamento de Vincent. Ao fazer isso, traz ao espectador a pergunta do que se visaria realmente com o tratamento dos chamados de transtornos mentais. O que se pretende com esse tratar? Jack já nos demonstra sua formulação frente as suas decisões, que sempre explica para a equipe e diretora do hospital com bastante propriedade, sublinhando de maneira evidente a importância do método que sustenta uma intervenção técnica, suas explicações são profundamente sustentadas por uma consistente teoria e é justamente isso que faz toda a diferença.
Traçando um paralelo Jack seria como o Dr House, um seriado também bastante polêmico onde o médico utiliza-se de métodos nada ortodoxos para diagnosticar quadros de difícil diagnóstico.
Outro caso interessante é o de Dr Richard (Ginecologista) e sua esposa. Aparentemente grávida de sete meses, entra em trabalho de parto. Porém, um pequeno detalhe chama a atençao: apesar da barriga dilatada, como de uma gravidez de sete meses, NÃO há feto, o médico responsável pelo atendimentona emergência aciona a equipe da ala psiquiátrica. Um caso clássico de livros de gravidez psicológica. Porém, se agrava quando são informados de que o marido da paciente foi o único ginecologista que acompanhou o caso. A equipe se verá frente ao raríssimo quadro de “folie a deux”, ou psicose compartilhada. Como lidar com isso sem destruir a reputação do famoso ginecologista, que com o desejo imensurável de ter filhos, acabou compartilhando seus surtos com sua esposa? Há sempre um núcleo saudável, dentro de um surto psicótico e ele (Jack) sabe como resgatá-lo. Não há como não se recordar do início clássico da carreira de Freud, quando fora motivos de piada entre os médicos. Acreditar na relação soma-psíquico(pulsão, fronteira entre o somático e o psíquico) era algo difícil naquele tempo. Hoje toda a clínica que estuda os chamados quadros da psicossomática avançou muito em estudos e relatos de casos e conhecimento sobre essas questões. Mente e corpo, cada vez mais se aproximam de ser um único conceito, embora se tenha evidenciado uma forte tentativa de correlacionar mente como o cérebro, isso em verdade, é uma longa discussão que várias linhas dentro do campo psi continuam encaminhando pesquisas e descrevendo suas conclusões a partir da prática clínica. No bojo dessa discussão as reflexões epistemológicas sobre o que seria hoje visto como ciência ou não, caminhos epistemológicosaos quais as ciências humanas não podem fugir ao debate.
Outro paciente nos orienta a entender a catatonia do ponto de visto DO PACIENTE, e as inferências de onde ele “estaria” perdido no Inconsciente, em uma batalha com um luto que se transformou em melancolia não expressa, nos faz ter outra visão do quadro. Pausa para a emoção de vermos David Carradine, o famoso Gafanhoto da série Kung Fu, uma das mais antigas apresentadas pela TV. Sua atuação silenciosa nesse episódio explode em nossa emoção, remete com intensidade à complexidade do personagem. A intervenção de Jack nesse episódio é apaixonada, literalmente. Ele admira aquele escritor trancado em um mundo à parte, em aparente catatonia e falta de resposta ao ambiente. A força da paixão de Jack em desejar seu resgate faz toda diferença. Dessa maneira todo o discurso que esse médico sustenta em relação ao que um profissional que lida com os chamados transtornos mentais deveria manter, fica emocionadamente sustentado e claro.
Aprendemos também como lidar com os chamados “transtornos modernos”, como o “Transtorno Explosivo Intermitente”, ou o caso de menino Conor, que faz um corte com a realidade, apresenta mutismo seletivo e reconstrói uma paralela realidade, baseada em seus jogos de videogame, com conteúdos persercutórios nítidos. Há uma grande reflexão sobre medicalização e diagnostico precoce em crianças, que merece toda uma atenção especial. Nada mais moderno e atual, e que farão deste seriado uma ótima ferramenta de aprendizado. Jack faz uma verdadeira demonstração da técnica com crianças e é realmente uma delícia sádica ser espectador do atendimento que ele assiste oDr. Carl Belle fazer, com erros grosseiros de escuta e condução que decorrem de uma aplicação fria da técnica. Cena essa representativa do terror de muitos psicoterapeutas.Assim, como é de uma beleza sutil a cena onde o enfermeiro contém corporalmente um dos ataques do menino Conor. Fica como resultado desse episódio a importância destacada no tratamento adequado e mais precocemente possível de alguns transtornos, onde a questão hereditária parece predispor alguns indivíduos. Levanta sem grande alarde, pano de fundo, uma problematização de uma sinceridade entre os pares em relação ao histórico familiar ao se disporem a ter filhos. Como será que pensamos isso no cotidiano e encaminhamento da vida?O diagnóstico de Transtorno Bipolar infantil fica de alguma maneira lançado nesse episódio. Complicada questão frente às estatísticas atuais quando aos enormes índices desse tipo de diagnóstico e tratamento, que quase sempre, requerem a utilização de medicação.
É claro que não poderiam deixar de fora a grande vilã das teorias conspiracionais do mundo psi: as indústrias farmacêuticas e seus remédios, retratadas aqui como vilãs, exploradoras, neoliberalistas em busca incessante por mercado, apoiadas por um médico arrogante e inescrupuloso, boicotador do trabalho focado na SAÚDE mental, o Dr. Carl Belle. Jack decide lutar contra o excesso de medicalização existente em seu hospital, e enfrentará batalhas nada agradáveis.
O mais interessante é como Jack modifica toda uma dinâmica de uma instituição psiquiátrica, transformando aqueles profissionais. Passaram de profissionais de Doença Mental, para profissionais de Saúde Mental. Sim, apenas uma terminologia, mas faz uma grande diferença.Deixa entrevisto, no quarto episódio, a temática do “dom” quando conversa com a residente Chloë Artis. Para pensarmos um pouco a respeito disso de uma forma quase poética, recomendamos o livro“Auto-retrato de uma Psicanalista”, onde Françoise Dolto, em uma conversa sobre psicose com o psicanalista Alain Manier,conta fatos de sua própria infância e juventude e nos remete muito à questões desse ser “psicanalista” que aqui estenderemos a esse ser profissional do campo psi em toda sua abrangência. Ela usa uma expressão muito bela com a qual já podemos perceber que Jack Gallagher concordaria: “Fazer o bem”.
Ele chama a todos, todo o tempo, para se comprometerem integralmente com cada paciente assistido. Logo no primeiro capítulo o embate entre a dedicação profissional engessada nos é apresentada através da Dr. Veronica Hayden-Jones, bastante empenhada em seu trabalho, com progressos inquestionáveis para seus pacientes, mas amarrada por uma rigidez que atravessa não somente sua prática, mas toda sua vida, que nos será apresentada por sua relação com seu marido, músico de jazz nada bem sucedido, que chega ao hospital para tocar para as crianças internadas.
Parafraseando nosso personagem principal, temos que ter em mente que trabalhamos com o PACIENTE, e não com a doença. Nosso foco deve ser sempre sua saúde, e não sua doença. Foi-se o tempo onde a doença era o principal, e o significado desta terminologia já se modificou. De alguma maneira não se pretendia um bem estar para o paciente, mas sim que ele não ocasionasse transtornos às vidas de seus próximos, nesse aspecto no primeiro episódio o paciente Vincent nos traz importantes reflexões. Sem descambar para uma postura irresponsável, tenta Jack encontrar uma fórmula possível entre o bem estar do paciente e segurança dele próprio e das pessoas com as quais convive.
Basta um passeio teórico longo, porém delicioso, entre Foucault e Tenório, com paradas nos trabalhos de saúde pública, para entendermos que Saúde e Doença deixaram, há muito tempo, de serem antônimos. Saúde não é ausência de doença e nem todos os profissionais e estudantes têm isso com clareza. Assim como ensina Dr Jack Gallagher, temos que focar na Saúde e nas Pessoas, e não somente na doença e nos termos técnicos. É preciso HUMANIZAR o trabalho psi, enxergar humanidade em tudo que isso quer dizer, também no paciente, e de uma maneira singela, o menino Conor nos remeterá a isso com as perguntas que dirige à Jack sobre a vida do médico e de qual seria o sentido de felicidade, fazendo-o pensar em sua irmã(Beck) que faz contatos mudos pelo seu cel e cujo segredo ainda não nos será revelado até esse quarto episódio.
Dr Jack Gallagher faz seu trabalho com seu jeito diferente, quebrando algumas regras, sem ser anti-ético, mas muitas vezes passando muito perto disso o que torna esse seriado algo a ser comentado por profissionais já mais experientes e com seus tombos já elaborados de alguma maneira. Tira a rigidez arcaica e enraizada que o tratamento psi adquiriu ao longos dos anos, mostrando que o sujeito moderno precisa de técnicas modernas para seus sofrimentos antigos, com roupagens novas, mas que tudo isso se apóie e um método consistente baseado em firmes constructos teóricos. Interessante, voltamos a frisar, que quando é questionado Dr Jack nos brinda com explicações bastante fundamentadas e profundo conhecimento acerca das intervenções reconhecidamente oriundas do campo psi. Parece ter uma excelente bússola que o orienta e um consistente traçado metodológico que o acompanha, isso faz toda a diferença nesse caso.
Ao assistirmos as intervenções coordenadas por Jack, não podemos deixar de pensar no modelo CAPS que vem sendo implantado no Brasil, a proposta de experimentação de novos espaços, oficinas, técnicas e intervenções e no quanto o comprometimento do qual Gallagher nos fala é importante para compor intervenções realmente voltadas para a re-inserção do paciente e não apenas sua manutenção em isolamento institucional. Acho que poderíamos levar o grupo carioca do Hospital Pinel, o “Harmonia Enlouquece” para uma das festas de Gallagher e dançar comemorando porque “de perto ninguém é normal”.
Quem sabe, tenhamos alguns Dr Jack espalhados por aqui, e a saúde mental possa ser realmente chamada de SAÚDE. Por seus erros e por seus acertos, vale a pena conferir essa série e “bagunçar” um pouco nossas convicções. Fica a recomendação! Voltaremos em breve a abordar esse seriado em seus capítulos subseqüentes.