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| Minhas Mães e Meu Pai (The Kids Are All Right, 2010)
Por Eduardo J. S Honorato e Denise Deschamps
Baseado na canção do grupo The Who, The Kids Are All Right, o filme Minhas mães e meu pai aborda o novo contexto da família moderna e seus conflitos, sem apelar para os retrógrados chavões da homossexualidade
O longa com a melhor média de renda de sala nos Estados Unidos, esteve praticamente ausente na premiação do Oscar, fato contestato por diversos grupos. A direção foi de Lisa Cholodenko, roteiro dela mesma e de Stuart Blumberg e traz no elenco Nic (Anette Benning) e Jules (Julianne Moore), seus filhos, Joni (Mia Wasikowska) e Laser (Josh Hutcherson) e o pai Paul (Mark Ruffalo). Para falar desse filme vamos começar pelo final, como um pequeno toque de direção, compondo assim a nossa rota aqui nesse texto. Iremos ao encontro da face de Paul, olhando pelo lado de fora da casa, por meio da janela para dentro do interior da sala, isso após ouvir a dura sentença de Nic: “-Se quer tanto uma família, construa uma pra vc”. Isto se dá quase ao final do filme e anuncia seu desfecho. Deixa-nos frente a uma pergunta mais atual que nunca: do que são feitos os vínculos que constroem as relações familiares? O filme bem poderia ter começado nesta cena. Longe, muito longe estamos de poder “naturalizar” o modelo de família nuclear, até mesmo de “naturalizar” qualquer atividade que fale da sexualidade humana dentro da nossa organização social que sabemos ser completamente orientada pelo heterocentrismo. Mas, aos poucos o mundo ocidental vem convivendo com transformações em torno daquilo que entendemos como família e afeto humano. Obviamente, sabemos que a origem dela dada pelo casamento segue a máxima de Marx que diz que ao final, ou seja, “em última instância tudo é econômico”. Nasceu o casamento muito ligado sempre à defesa do patrimônio, a questão dos herdeiros, tudo isso passando por um lugar de submissão da mulher que garantia todos esses acordos. Começava ali na família, enquanto do lugar de filha, o passe que garantia muitas vezes a ascensão pelo casamento, ou ainda, a manutenção de privilégios. Mas o mundo se transforma. Inventaram a pílula, a mulher tomou para si a posse do corpo, da sua sexualidade, buscou sua autonomia, inseriu-se no mercado de trabalho, e começou a questionar a menos valia quanto a sua produção (objetiva e subjetiva). Mudam aos poucos as arrumações familiares. A sexualidade passa a ser discutida com maior profundidade, e deixa de ser assunto só de homens e abre a questão da sua função natural voltada e abençoada para a procriação. Nessa onda, entram também os questionamentos em torno da heterossexualidade como a única via normalizada. Freud dá o golpe final ao afastar a sexualidade humana do instinto, substitui pelo conceito de pulsão algo que fica em uma fronteira entre o somático (físico, biológico) e o psíquico. Há na sexualidade algo que promove a vida como um todo. Sua função vai para muito além do ato sexual. Para um olhar mais íntimo, recomendamos a leitura de um livro que fica entre o ficcional e o histórico, baseado em relatos concedidos pela paciente que levou Freud a escrever seu texto conhecido como “Sobre a psicogênese de um Caso de Homossexualidade Feminina”. O livro chama-se Desejos Secretos – A História de Sidonie C., a Paciente Homossexual de Freud. Na verdade chamava-se Margareth Czonka-Trautenegg, mas seu nome só foi conhecido depois de sua morte em 2004. Então, chegamos à atualidade dessa questão, em muito modificada até mesmo naquilo que antes o campo psi utilizava como compreensão da homossexualidade. Hoje não mais encarada com qualquer noção de patologia ou desvio e contemplada a questão com uma orientação constante do Código de Ética do Psicólogo que deixa claro que não será permitido a esse profissional, estabelecer como patologia a homossexualidade e muito menos estará autorizado a oferecer qualquer procedimento que tenha como meta a mudança da orientação sexual, até porque, está mais do que demonstrada a impossibilidade de ser esse um tratamento possível. Simples e direto Nossas personagens nesse filme, Nic e Jules, formam um casal homoafetivo em um casamento de muitos anos e dois filhos, esses concebidos via inseminação de doador anônimo. O início do filme apresenta ao espectador uma família de classe média nos Estados Unidos, nada a observar que seja estranho, dentro dessa perspectiva. Os gêneros dos componentes do par ou sua orientação sexual não interferem no cerne do que definimos como família. Se esse mesmo roteiro contemplasse um casal heterossexual, não mudaria muito o rumo do filme, e talvez esteja aí sua principal qualidade. Uma das falas finais de Jules frente à família deixa clara a abordagem escolhida por esse roteiro. É um filme que poderia ser descrito como leve, essa é sua maior originalidade frente ao que se faz com o tema, na maioria das vezes, em concepções cinematográficas. Seu roteiro é direto e simples. A diretora alegou que procurou ter muito cuidado para não apresentar Paul (Mark Ruffalo), o pai biológico, como o vilão da história, e realmente pensamos que tenha conseguido seu objetivo. Paul é um personagem que causa simpatia, sua evidente desorientação apenas promove um toque a mais de empatia com o público, emociona em grande medida, consegue quebrar qualquer barreira ao fato de ele ter se disposto a ser um doador de sêmen. Simpático sem dúvida, mas ao longo do filme “desconstrói” qualquer identificação possível com aquilo que seria idealizado em um pai. Paul é sem dúvida um excelente amigo. Ele entra na vida dessa família por meio da curiosidade do caçula, o rapaz de quinze anos chamado Laser (Josh Hutcherson) que pede a sua irmã Joni (Mia Wasikowska) que está prestes a ingressar na faculdade, que localize o pai. Os dois são filhos do mesmo doador, porém cada um gerado por uma das mães, Mia por Nic e Laser por Jules. O enredo do filme trará questões que envolvem não somente famílias homoparentais, mas famílias constituídas por adoção ou inseminação in vitro com uso de doador. Sem dúvida que, aos mais conservadores ou para aqueles que, via dogmas religiosos, ainda tentam agarrar-se a qualquer resquício de compreensão da família a partir de uma perspectiva de naturalização da heterossexualidade, o filme será uma surpresa e fará pensar com mais profundidade sobre a questão. Mas para todos aqueles que já puderam se afastar, um pouco que seja, dessa concepção tão estreita e extemporânea, esse longa se apresentará como mais uma película de história de amor e conflitos familiares Já temos conhecimento no Brasil de inúmeras famílias homoparentais, sejam essas constituídas com filhos de relações anteriores heterossexuais, seja por inseminação ou adoção. Já existe, inclusive, de fato, a possibilidade da adoção a partir da colocação de ambos constituintes do par como os novos(as) cuidadores(as), dando à criança o direito ao uso dos dois sobrenomes. Embora no Brasil ainda não tenhamos a possibilidade legal do chamado “casamento gay”, questões que versam em torno da relação com os filhos, já ganharam algumas decisões tomadas, via justiça, que garantem a possibilidade de reconhecimento pleno. O filme nos apresenta a uma dessas possibilidades de maneira bastante direta e íntima. Resoluções possíveis
Os filhos aparecem como personagens quase comuns, trazem aqueles conflitos de gerações que sempre se apresentam nessa fase da adolescência e passagem para o mundo adulto. A curiosidade de conhecer o pai biológico, em nenhum momento, os faz questionar a família na qual estão inseridos enquanto um lugar legítimo. Entre um conflito e outro, a manifestação da sexualidade como um forte componente, até mesmo a dificuldade que Nic e Jules encontram para enfrentar a questão frente a uma suposta homossexualidade que Laser poderia estar vivendo. De forma sutil, o filme aborda uma das questões que é sempre apresentada pelos homofóbicos, aquela que constrói a fantasia que filhos criados por casais homossexuais trariam também uma orientação homossexual. Dessa maneira, vemos mais uma vez, o debate de tudo que ainda se ergue como tentativa de entender a formação da orientação sexual. Segundo Freud todo indivíduo nasceria com uma constituição bissexual, definindo de certa maneira na passagem pelo Complexo de Édipo, tanto sua orientação sexual, quanto suas matrizes que compõem seu processo de identificação. A tese freudiana não cai por terra totalmente frente aos novos postulados que tentam colocar a orientação como fator inato, porque Freud não chegou nunca a desconsiderar o biológico, ele está, como já pontuamos anteriormente nesse texto, incluído no conceito de pulsão. Em qual medida algo genético ou os vínculos formados com o mundo em tenra infância orientam a libido, disso não temos ainda uma certeza construída, porém, já está lá no velho Freud, que qualquer que seja essa orientação, é uma das resoluções possíveis dentro de um critério de normalidade, ou ainda como alguns gostam de dizer, de boa resolução.
*****A mudança nas configurações familiares é algo que ainda remete-nos à angústia, famílias mistas, monoparentais, casais homoafetivos e até mesmo ao grande número que se concentra em alguns lugares de pessoas que simplesmente rejeitam a possibilidade de casar-se, de manter a monogamia ou de procriarem. Isso tudo, convivendo, com pólos conservadores, quer seja dentro de um mesmo recorte geográfico da civilização, quer seja em pólos opostos como ocidente e oriente.
No caso desse filme teremos, então, no mínimo dois pontos fortes de resistência, o fato de ser mulheres o casal em questão e por sua homoafetividade. Na abordagem da segregação sabemos que homofobia e misoginia se aproximam.
O que assistimos nesse filme é uma história sobre uma crise familiar, enfrentada com muita coragem e transparência. Mesmo diante dos percalços que atravessa a personagem Jules, a questão da homoafetividade dela se torna algo da qual tem muita consciência. O longa pode ser muito interessante para abordar o tema de que práticas sexuais não necessariamente correspondem à orientação sexual. Este mesmo assunto, que estamos acostumados a ver tratado de maneira diferente, quando falamos de sujeitos que preferem manter sua homossexualidade longe da censura social e optam por uma vida heterossexual, formam laços, têm filhos e onde nada disso os afasta da consciência do seu desejo, esse sim claro e imperioso que alimentará, quase sempre, outro tipo de angústia crescente. O “armário” que via de regra precisará ser aberto para que esse sujeito encontre paz e alegria, para recuperação de parte fundamental de sua auto-estima. Jules, com sua vivência com Paul, não se aproximou mais dela mesma e deixa isso claro. Apenas faz um desvio, perdida e sem rumo. O afeto será aquilo que realmente a levará de volta pra casa. Por sua vez, Joni sai de casa pronta pra vida, e como todos os filhos, precisa pedir que sua família a permita encarar seu crescimento. Nada mais corriqueiro.
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