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Artigo original publicado na Revista Psiquê Ciência e Vida v. 48, disponível online no site (clique aqui)


This it It (2009) - A Morte de um artista, o nascimento de um Mito….

Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps

 

Apagam-se as luzes em um fim trágico, morre um ícone da música que marcou algumas gerações, apresentações alegres, melancólicas, ousadas, bizarras, às vezes convite pra pensar um mundo melhor. Um mundo que olhe para o estranho de cada um de nós sem tanto espanto e riso. This it It....Michael Jackson.

Este ano (2009) entrou para história. Como em muitos outros, alguns fatos importantes aconteceram, entretanto, este será lembrado eternamente como um marco na história da música pop internacional. O astro, chamado de Rei do Pop, morreu em circunstâncias Hollywoodianas, e assim como sua carreira e vida, sua morte também se tornou motivo para especulações. Desde o furo de reportagem do site de fofocas TMZ.com (que primeiro notificou o acontecido) até as teorias conspiratórias e brigas familiares por bens.

This is It não é um filme. Está mais para um documentário ou “making of”de uma turnê mundial. Espetáculo que se ocorrido, entraria para história como tantos outros, dada a grandiosidade, tanto tecnologica como de talento, que apresentaria nas 50 vezes que fosse visível ao público.

A estes milhares de fãs que compraram os ingressos, e aos milhões que assistiriam o DVD posteriormente, restou apenas esta breve homenagem, de uma figura pública contraditória, mas marcante no cenário musical.

Sabemos de Michael uma criança sofrida, explorada, abusada que viu seus sonhos e seu grande talento serem triturados pela máquina do dinheiro e do espetáculo. Podemos aqui dar uma pausa e pensar no filme “The Fever” para nos inspirar a pensar. Pensar no pequeno Michael nesse mundo. O valor de cada produto, as vidas envolvidas na confecção de cada um, no Deus da atualidade, o Senhor Dinheiro.

Todos foram pegos de surpresa com a morte de Michael Jackson. Quem leu na Internet, jurou que era um hoax, uma pegadinha. Quem ouviu nas rádios, achou que era alguma referência a programas de comédia. Quem viu na televisão talvez tenha acreditado com mais facilidade, porém não com menor espanto.

Morre Michael, o homem Nirvana, e nesse momento, nasceu o Mito, agora eternizado com “This is It” e tantos outros produtos que virão na sequência. Ele era famoso, era adorado e idolatrado. Era venerado e talvez um dos artistas mais completos que existiu. Mas até então, ele ainda era humano. Tinha carne e osso (há controvérsias), ainda era algo paupável, existente, e assim, dotado de defeitos.

Difícil classificar esse ídolo pop, entre a criança com voz de anjo e o adulto com cara de menino que dançava com os zumbis nos trazendo uma metáfora dos tempos modernos, talvez como o outro gênio, este no cinema, Charles Chaplin. Trabalhava brincando e talvez brincasse trabalhando, entre o lúdico e o perverso que constrói humanidades naquilo que é possível. Entender as possíveis polêmicas que giram em torno da sua suposta pedofilia, ver o filme “O Lenhador”, quem sabe nos ajude, a pensar nisso a partir do nosso próprio estranho.

Sem que com essas reflexões se procure legitimar a pedofilia, porque isso não é possível, pelo ato dela que invade ao direito a um desenvolvimento psicossexual garantido por um adulto interditado e interditor, que possibilitará o simbólico tão caro à construção do que há de civilização em nossos possíveis vínculos.

Endeusado ou acusado, alí a expor feridas que nunca cicatrizavam. Todos sabiam das suas acuações de abuso e dos imensos acordos. Todos sabiam da sua infância abusada e sofrida, com muitas agressões. Todos sabiam do seu exagero de plásticas e deformação e possível distorção de imagem corporal. Todos sabiam dos seus problemas de pele e suposta mudança de cor. Mas ele ainda atraía multidões e era um ser acima dos normais. Talvez porque escancarasse para nós essa busca contemporânea de uma uniformização de valores, uma hegemonia que atravessa até o estado emocional que devemos almejar, como o Soma de Huxley em seu “Admirável Mundo Novo”. Ou ainda como os seis personagens de Luigi Pirandello, em busca de um autor. Quem será o autor do texto dessa contemporaneidade?

As declarações de abertura deste documentário mostram os balarinos no início da seleção. Importante notar o quanto essa figura mágica de MJ foi parte da infäncia e adolescencia de muitos e como era idolatrada por aqueles que pretendiam seguir carreira nas artes, especialmente, na dança.

Com a sua morte física, ocorre no ambito social o que também ocorre no psíquico, no processo de elaboração do luto proposto por Freud. Com o tempo, as boas “conexões” se mantém, e algumas outras não tão boas, perdem o investimento libidibal.

MJ será lembrado pela suas qualidades e exentricidades, assim como são hoje Elvis Prestley e Janes Joplin. Será também lembrado como gênio, como Da Vinci. Sim, porque ele mudou muita coisa pelo mundo, em diversas áreas, mesmo não sendo inventor ou intelectual. Conseguiu mover multidões maiores que quaisquer políticos. Conseguiu convencer bilhões de fãs a seguirem sua música, seu estilo, suas mensagens. Foi um dos maiores articuladores de grupo já existentes. Criou seu próprio mundo mágico e vendeu ingressos pelo mundo todo. Ele nos permitiu que vivenciássemos sua vida, suas fantasias. Seu próximo engajamento seria uma campanha global para revertermos os malefícios ao planeta. Segundo ele, teríamos apenas quatro anos para repararmos todos os danos já causados.

Elvis e Janes talvez não tenham usufruído do poder que a mídia moderna tem. Com a tecnologia, os espaços físicos foram abolidos, bem como questões temporais. Talvez se igual aos recursos de hoje, tivessem tido impacto tanto quanto Michael, se pudessem contar com tudo isso, essa grande mídia que se transformou o planeta.

Mas MJ TINHA que ser diferente. Ele é mais especial, ele era mais excêntrico. E isso nos explica o motivo das imediatas desconfianças no mundo virtual e real, sobre sua morte. TEM que ter algo misterioro para que o mito seja maior ainda.

A mídia jamais o deixará. Ele terá sua morte transformada em Reality Show. Tudo vai ser investigado, vasculhado, alertado. Câmeras de televisão 24h em todos os locais, todos os furos. Era a informação perfeita que faltava para alimentar muitos e muitos canais e programas, por SEMANAS. MJ, que ao longo de sua vida deu muita matéria para esses meios, não pode “ir assim” sem dar mais um pouco de lucro.

Vemos jovens hoje declarando que queriam a vida “dele”, “ser ele”, “ter o sucesso dele”, que, qual preço foi pago para essa transformação em produto? O filme nos mostra um MJ mais humano, mais recatado, e alguns diriam, até tímido. Sim, apesar de bastante decidido nas suas opiniões, em momentos do filme é possível ver um menino de sete ou oito anos, se transformando em um gigante dançarino, mas com a vergonha e embaraço que só uma criança as vezes é capaz de demonstrar.

Ele mesmo declarou ter tido uma infância abusiva, neutralizada, anulada. No que hora seria definido como trabalho escravo infantil. Mesmo não se comparando as condições mais invasivas, como de algumas de nossas crianças, os danos psíquicos de qualquer exploração nessa fase sempre aparecem. Não há como banalizar a forma como a exploração está sendo feita. Até onde vivenciar um talento ou explorá-lo pode ser definido com precisão?

Talvez a morte de Michael nos deixe, mais do nunca, às voltas com essas questões. Talvez Susan Boyle seja outro analisador importante nesses nossos tempos espetaculares, talvez Mozart o tenha sido em outra época (ver o filme “Amadeus”). Michael quando decidiu ser pai, optou por ter amiguinhos, como uma criança de sete anos que brinca de casinha. Aos filhos deu a máxima proteção contra a mídia, escondendo seus rostos. Não queria ver nenhuma exposição deles, nem mínima, mostrando-nos com isso o quanto o avesso pode ser apenas a mesma coisa colocada pelo o outro lado.

Apresentou ao longo de sua vida, significativos sintomas de quadros que necessitavam de auxílio psicológico e psiquiátrico. Centenas de cirurgiões plásticos, especialistas em todos os assuntos, já haviam declarado que ele havia passado dos limites e muitos chegaram a se negar a atendê-lo. Mas sempre tinha um “profissional” querendo um pouquinho da fama dele, e para isso, se faz tudo.  Assistimos todos calados, a uma pessoa se deformar ao longos dos anos, verbalizando apenas “duas” mudanças em seu rosto desfigurado. Tudo muito banalizado.

Mas até nisso encontraremos alguma beleza, alguma denúncia e resistência ao banal de todos nós.

Essa é uma constatação, outra que podemos trazer, enquanto pergunta, será a de que talvez ele tivesse o direito de fazer com seu corpo, sua imagem, o palco mesmo de suas representações, no mais profundo e complexo “Teatro do Corpo”?(MCDOUGALL, J.).

O corpo hoje talvez tenha mesmo ganhado uma possibilidade de demonstrar em si sua própria ausência, “desafetado”, ou ainda as tentativas de se rebelar contra a pasteurização do pulsional. Michael em sua angústia atuada nos deixa de legado essa questão sublinhada.

Vamos continuar permitindo que pessoas se deformem a todo custo, em rede nacional? Quantas e quantas pessoas ainda não fazem isso nos dias de hoje? Basta ligar a tv em qualquer canal nacional ou internacional. Até onde questionamos por repressão, transformando em cômico, até onde vai o limite que fala da preservação da vida?

Vímos uma criança milionária, sem freios fazer o que queria, nitidamente pedindo ajuda. Milhões de dólares envolvidos, falsos auxiliares, muitas drogas lícitas sendo traficadas. Tudo virou sinônimo de notícias e de assunto. Mas nada de concreto se fazia para ajudar. Agora com ele morto, acusa-se o médico que o acompanhou em seus últimos tempos, overdose de droga lícita. O menino Michael não dormia, dormiu eternamente então. Talvez dormir o lembrasse que alguma hora haveria que despertar. Belo adormecido, sem príncipe ou princesa para trazê-lo de volta dessa vez.

Poderemos também pensar aqui que a mídia dos dias de hoje torna tudo muito rápido. Fenômenos estão emergindo e submergindo. Pessoas são descartadas em menos de seis meses. Crianças voltam a ser usadas como atração. Tudo muito rápido e tudo muito seguido. Amy Winehouse será a próxima? MJ durou 50 anos, quanto tempo ainda restará para Amy? Madonna resiste imprimindo sua marca como produto, ao mesmo tempo que, como resistência ao canibalismo subjetivo das massas.

Se pensarmos na nossa mídia nacional, não temos muita diferença. Quantos Reality Shows temos hoje que cruzaram essa linha entre o saudável e o perverso ? Quantos programas viraram caça-tragédias ? Quantos noticiários passaram a expressar somente esses casos e deixaram o jornalismo de lado? Quem vai transmitir o primeiro assassinato ao vivo, em tempo real? Qual será a doença que é a “bola da vez” e servirá para nos manter amedrontados quanto ao contato? Quais serão as previsões delirantemente científicas do fim(do corpo ou do planeta)?

Na semana da morte de MJ, onde estavam os atos secretos, o Irã, as falcatruas e as notícias realmente importantes? Mas isso não vende. O perverso é que vende mais...o invasivo. Como podemos sentir que foi  assistir ao corpo do frágil Michael ainda ter que se apresentar em um show macabro por dias, antes que pudesse enfim perecer de vez.

Assim, nasce mais um mito. Escondendo muito que deveria estar à primeira vista no cenário mundial. Mas chegamos a um ponto no qual o mais excentrico e absurdo é o que interessa. Banalizamos a roubalheira, a violência, a politicagem, a vida é show e esse sempre tem que continuar: “-Às suas marcas...atenção...claquete”. Isso já é costume. E o que vende agora, é a trágedia real, próxima, obscura, mórbida. E que o digam Ladi Di e tantas outras celebridades já importunadas por este tipo de invasão. Quanto mais distúrbios mostrarmos, mais próximos estamos. Sejamos então perversos e exploremos a dor alheia!

O filme This it It nos mostra um outro MJ. Talvez na tentativa de que guardemos apenas as boas lembranças dessa figura controversa e polêmica, com tantas acusações de abuso sexual. Lembrar um mito só se faz presente quando as coisas boas são ressaltadas.  E que essse mito permaneça no imaginário coletivo, contribuindo com as fantasias de sucesso, em um nível saudável, de outras gerações que virão, assim como tantos outros o fazem nos dias de hoje. Que o pequeno grande Michael possa enfim se juntar, que sua fragmentação da sobrevivência nos tenha ensinado algo mais, valeu a pena vê-lo cantar e dançar, defender o planeta, o amor, a fantasia em sua realidade possível.

 

 

 

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