Cinematerapia®
Entendendo Conflitos
Mr Brooks

Instinto Secreto  - E uma aula de psicopatologia e psicodiagnóstico diferencial no cinema

(Mr Brooks, 2007)

Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps

Sinopse

Trailer

 

Assim como os pacientes podem ter insights com os filmes, você, uma vez que sabendo como trabalhar com a Cinematerapia poderá perceber novas formas de utilização dos filmes, em qualquer um dos ramos dela. De uma conversa informal em uma comunidade do Orkut, surgiu a idéia de um resgate a esse filme. Obrigado Danilo. J

Vamos fazer uma viagem no cinema e nos manuais de diagnósticos junto com os livros de Psicanálise, especialmente os do Freud. Prepare sua pipoca, seus livros e muita curiosidade para investigar a história e os sintomas de Mr Brooks. Não espere uma resposta fechada e definitiva, pois seguinhos linhas de orientações, deixando os caminhos para você pesquisar e quem sabe, terminar de montar esse quebra-cabeça cinematográfico.

O instrumento aqui é o que chamamos de “Cinematerapia Acadêmica”, já bastante difundido por Gabbard e Gabbard, e especialmente por David Solomon, na vertende psiquiátrica.

Se você se acostumou a ver o Kevin Costner como herói, guerreiro, homem bom e com suas charmosas personagens, esse filme pode ser meio incômodo. Interpretando a personagem que dá nome ao filme, Costner nos mostra uma psicodinâmica bastante peculiar. Nada melhor do que inferir alguns aspectos para tornar o filme útil a esta modalidade da Cinematerapia. Vamos então, estudar um pouco de psicopatologia utilizando esse filme.

Primeiro precisaremos pensar em alguns recados que o próprio cartaz e a tradução nos dão. A tradução usou o termo “instinto”, que na visão psicanalítica não estaria adequado. Seria uma “pulsão”, pois não somos animais. Freud desde o início dos seus estudos já situou tudo que diz respeito ao homem como algo que se faz entre o somático(físico) e o psíquico, naquilo que denominou de pulsional. Já o cartaz nos indica que há “algo por detrás”, algo “escondido” e não “perdido” ou “alucinado”. A idéia de contato maior com a realidade também é reforçada por aí.

Muitos também são os sites de cinema que alegam que Mr Brooks teria um Transtorno Dissociativo de Identidade (ou Transtorno de Multiplas Personalidade). Mas um psicodiagnóstico mais detalhado poderia verificar pontos importantes. Este “suposto” transtorno (porque ainda seria uma divergência teórica entre os especialistas se existe ou não), seria entendido como uma histeria. Sim, um processo de conflito convergido em uma cisão, que proporcionaria divisão desse Ego, e consequentemente, duas ou mais personalidades. Mas para que isso ocorra, elas devem ser usadas alternadamente como formar distintas de lidar com situações externas. Mr Brooks e Marshall interagem ao longo de quase todo o filme, bem mais próximo então, de um quadro alucinatório. Repare que o próprio DSM IV fala que as personalidades brigam entre sí, mas alternando. Nunca numa “vivência” de situações em “parceria”, como que “na mesma cena”.

Quem assiste ao filme se pergunta o que Mr Brooks teria? Seria esquizofrenia, como o John Nash Jr, de Uma Mente Brilhante (A Beautiful Mind, 2001)?  Temos que lembrar que John Nash Jr cortava totalmente com a realidade, criando algo “paralelo”, com apenas um pequeno contato com a realidade. Lembrando Freud temos que nos deter no fato de que o surto seria uma tentativa de religar-se à realidade e não a doença em si. Quando Mr Brooks conversa com Marshall, este é o único momento de perda de contato com a realidade.  Bom. Se não está em um extremo da psicose, nem um outro ponto na neurose, onde estaria então este caso psicodinâmico do filme? Continuemos tentando e comparando com outros filmes para ver onde poderemos chegar...e se poderemos.

Você já assistiu a Janela Secreta, com Johnny Depp? Aquele, até onde lembramos, era um caso de Transtorno Delirante (como do também filme 23). Só que envolvia menos maldade, era uma briga um a um, ou menos assassina mesmo, algo que alguns teóricos modernos chamariam de “self stalking”. Esse transtorno, também conhecido na Psicanálise como Paranóia, com o famoso Caso Schroeber. Embora até possamos pensar em algo projetado e perseguido fora, uma dinâmica paranóide com seu objeto excindido. Seria uma possibilidade de investigação clínica. Um filme que fala muito dessa fragmentação atuada é o “Identidade”, dirigido por James Mangold (Garota Interrompida).

Você poderá ainda, lembrar do filme da Kate Bates, que lhe rendeu um Oscar, Louca Obsessão (Misery, 1990). Mas, a maldade da enfermeira era apenas um “meio” para a sua obsessão pelo escritor Paul Sheldon. Mr Brooks mata por matar. O Prazer está nesse ato. Puro perverso, pura pulsão não barrada. Mais uma vez poderíamos então pensar em algo que se projeta e toma corpo fora do psiquismo e perseguido por esse no mundo real, prazer da destruição e ataque ao excindido.

Ora..pela bipolaridade, transtornos de humor, e este caminho de mecanismos, não poderíamos jamais ir, pois as diferenças são grandes, não somente de sintomas, mas também de psicodinâmica. Você que não é profissional de Psicologia, pode ver por esse caminho: Mr Brooks se assemelha com o personagem de Richard Gere em Mr Jones (Mr Jones, 1993)? Lembra de alguma maneira a personagem de Nichole Kidman em As Horas (The Hours, 2002)?

Nem lá nem cá...quem “balança” entre as duas estruturas? Os limítrofes. Esse grupo de estruturas (ou anestruturas) que instigam e intrigam os mais diversos teóricos. Este grupo atípico com características diferentes e semelhantes, mas não se enquadrando nem em um grupo, nem em outro. Iguais em algumas coisas, mas totalmente diferentes em outras. Muito divergentes em ambos grandes outros grupos.

Temos então os grupos de limítrofes, onde também estariam os chamados, em Psicopatologia, de Transtornos de Personalidade. Então, dentro dos transtornos de personalidade, eles se subdividem em 3 outros grupos[1] (No Dsm-IV).  Todo perverso é um limítrofe, mas nem todo limítrofe é um perverso. Isso ajuda muito nessas horas. Se pensarmos no Transtorno de Personalidade Boderline, não tem como não lembrar de Winona Ryder, em Garota Interrompida (Girl Interrupted, 1993), ou do filme Geração Prozac. Não! Estas personagens eram confusas, difusas, complexas e “complicadas”, mas não eram tão malvadas como Mr Brooks.

Em outro agrupamento de Transtornos de Personalidade (TP), teríamos então Aileen Wornos, personagem com a qual Charlize Theron  ganhou um Oscar em Monster - Desejo Assassino (Monter, 2003). Será? Aileen não aparece, no filme, tendo cortes com a realidade, mesmo que breves e muito menos tendo alucinações, e Mr Brooks não satisfaz vários dos critérios para este transtorno. Sua vida muito certinha e muito coordenada e controlada, quase normopata, já o diferencia bastante deste quadro. Não nos deixemos levar pela sua perversão e seus crimes.

Se Mr Brooks não está no grupo C (transtornos ansiosos ou receosos), não está no Grupo B (transtornos dramáticos, imprevisíveis ou irregulares), só pode estar no Grupo A (transtornos excêntricos ou estranhos).

Se voce buscar o referencial da Psicologia de Orientação analítica, irá encontrar que em muitos pacientes fronteiriços (como grupo e não como TP apenas) existe sim a possibilidade de surto psicótico. Claro. Alguns deles estão mais para a psicose do que para a neurose. Alguns autores subdividiram em “fronteiriços psicóticos”, mas estes episódios precisariam ser breves, ou seja, transitórios – como os de Brooks.  Se fosse um caso de TP Boderline, esses surtos momentâneos envolveriam auto-agressividade, e Brooks tem uma heteroagressividade muito forte. Parece que os roteiristas do filme querem nos levar a pensar nos sociopatas ou em psicopatia e sua fundamentação genética, quando nos levam para o fato da repetição do comportamento de ataque encontrado na filha de Mr Brooks.

Dentre esse grupo, verificando os critérios, você provavelmente chegará aos Transtornos de personalidade paranoide ou esquizóide, que já foram também referenciados como uma das Personalidades Psicopáticas. Estes transtornos costumam estar associado, na forma de “pré-morbidos”, com casos de esquizofrenia. Porém, os critérios para TP Esquizóide são bem claros e nao cabem a Mr Brooks.

Onde chegaremos então? Muito é dito que a violência do paciente com TP paranóide é defensiva e este transtorno ficaria de fora. Por outro lado a literatura nos aponta para casos onde esses ataques poderiam aparecer não com a estruturação de perseguição e defesa, mas como algo que se encontrará como parte desse ego localizado e atacado no mundo externo.

Vejamos em Otto Fenichel em sua obra “Teoria Psicanalítica das Neuroses”, um trecho que poderá nos ajudar a pensar no intrigante Mr Brooks:

O mundo é sentido como vital e significativo enquanto está investido de libido. Quando um esquizofrênico se queixa de que o mundo parece “vazio”, “sem sentido”, “monótono”, quando diz sentir que alguma coisa mudou, como se as pessoas fossem imagens fluidas, quando afirma que se sente perplexo e abandonado neste novo mundo, está refletindo em tudo isso o fato de que sua libido se retirou dos objetos”.(pág. 389)

É claro que Mr Brooks não tem somente estes sintomas, mesmo que amenizado, mas sua psicodinâmica poderá nos fazer pensar neste transtorno.

Repare que em se tratando de TP estamos nitidamente frente a modelo “cebola” onde muitas vezes os pacientes apresentam sintomatologia que satisfariam critérios de diagnostico para um ou mais TPs. Nisso a psicanálise contribui em suas escolas como as de W. Ronald D. Fairbairn onde encontraremos aquilo que se nomeia de estruturas subjacentes.

Podemos deduzir, portanto, que em todos está presente uma tendência esquizóide ou depressiva subjacente segundo tenham sido na fase oral primária ou na secundária as dificuldades que acompanharam principalmente as relações de objeto infantis”.*

Devemos ter também em conta que para Freud as psicopatias não se classificariam no que chama de doenças mentais ou psiconeuroses, seriam vistas como falhas ou distúrbios de caráter, e sendo, portanto, impraticável, a análise em sujeitos com esses funcionamentos, mas que não impossibilitaria que também, em conjunto com sua psicopatia, tenham agregado um quadro de psicose. Vejamos mais um pouco de Fenichel:

...é que a índole fugidia e pouco confiável dos atos transferenciais dá a impressão de estes pacientes, deixando um estádio narcísico e tentando recuperar contato com o mundo objetivo, só o conseguem em explosões repentinas e durante curto espaço de tempo. Estes tipos de comportamento para com os objetos são parte dos sintomas ‘restitucionais’.”(pág. 390)

Assim, você pode chegar a uma Hipótese Diagnóstica (HD), usando o DSM-IV, a Psicanálise e a Psicologia de Orientação Analítica, usando a Cinematerapia Acadêmica como instrumento, além de engordar alguns quilos, comendo muita pipoca, enquanto tem sobressaltos com as imagens dos atos de perversidade que realizam Mr Brooks e sua filha. J

Leia esse artigo quando tiver tempo:

http://www.polbr.med.br/arquivo/para1099.htm

*Estudos Psicanalíticos da Personalidade - W. Ronald D. Fairbairn

Sugestão de atividades:

-          Procure outros filmes com transtornos tente identificar quais sintomas são comuns a estes personagens.

 



[1] Excentricos ou estranhos, dramáticos, imprevisíveis ou irregulares e ansiosos ou receosos.