As Fantasias de Nárnia, incluindo o Leão, a Bruxa, o Armário e o Príncipe Caspian....
Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps
São poucos os filmes sequenciais que mantem um mesmo padrão de qualidade, agradando aos antigos fãs e arrecadando novos. Aos que se sentiram “presos” aos filmes, restará apenas ler e usar a imaginação, através dos livros de Clive Staples Lewis, até que a próxima saga destes irmãos chegue aos cinemas em 2010.
Os irmãos Pevensie são nossos heróis e companheiros nessa imensa fantasia. Assim como em “O Mágico de Oz” e em muitas outras obras, temos o famoso quarteto: coragem (Peter), razão (Susan), jovialidade e imprudência (Edmund) e coração (a eternamente fofa, Lucy). Mas esse quarteto novo não é o fantástico, apesar das semelhanças. Seus “superpoderes” aqui são valores, são sentimentos, são suas subjetividades” e é através destes personagens que poderemos embarcar nesta imensa fantasia criada pelo autor, e entender, alguns símbolos quase que universais que ela nos apresenta. Trata-se portanto, de interpretar uma obra de arte, uma poesia literária, usando os conceitos e ideias da Psicologia de Orientação Analítica. Não objetiva-se esgotar o tema, nem tampouco propor uma verdade, mas sim, um exercício de imaginação utilizando a aplicabilidade destes conceitos. É apenas UMA maneira de se ler um “filme”.
Para os que usam os conceitos da Cinema Therapy, complementação de técnica, indicada pela American Psychological Association (APA), este é um filme que pode ser utilizado com a temática “Psicose”, ou “construção de surtos”.
É guerra...e sempre sinal de sofrimento e de dor. Não existem relatos que envolvam “guerra” que sejam 100% positivos e não tragam a nossa lembrança algo de negativo. A essência deste ato é destrutiva e nos remete a pulsão de morte. Morte como o retorno a um estágio anterior.
Logo na estação de Trem, uma fantasia nos é apresentada, com o intuito de nos colocar “no clima fantasioso” que a obra requer. A eterma mãe de todos, sensata e centrada na sua dor, abre mão dos seus mais preciosos bens, os enviando para um local seguro.
Toda mãe DEVE amar ao filho e fazer de tudo pelo seu próprio bem. Isto é uma fantasia quase que coletiva e que invade nossas vidas em todos os momentos, seja nos filmes, nas novelas, ou chocados por acontecimentos midiáticos. Porém, não existe o tal “instinto materno”. Instinto é algo animal, inerente a espécie. Somos humanos e temos PULSÔES, e infezlimente, materna é uma pulsão, e não um instinto.
Isso quer dizer que nem todas as mulheres querem, irão, ou PODEM, ter filhos. Isto quer dizer que há mais e mais coisas inconscientes no desejo e no ato de TER filhos, do que um simples “instinto”. E por isso que nos chocamos quando vemos atos perversos contra crianças, exercidos por pais, pois isto é uma total afronta a nossa fantasia coletiva, além de um ato cruel e criminoso para com a vítima.
Porém, Mrs. Pevensie é a nossa mãe boa, que se dõa, entrega. É a LEÕA do filme, que faz de tudo para seus filhos. Ao enviar os filhos, dá a maior prova de amor para protegê-los. Mas, infelizmente, é uma prova de amor que não pode ser entendida por todos da mesma forma, e depende de certa maturação psicológica. Coragem e Razão entendem. Jovialidade fica com raiva, e coração, sempre sente....como sente.
Toda fantasia tem um limite, e assim, existem regras nesse novo local de morada. Mas isso não impede que algumas fantasias sejam burladas. Vamos achar uma maneira de fazer com que as fantasias sejam aceitas egoicamente, causando o menor sofrimento possivel. Pronto....é só disfarcar, mudar, distorcer, colocar em situações diferentes, para que eles possam passar e serem realizados. Eureka!.....temos o espaço mais perfeito, e ele se chama INCONSCIENTE. Vamos apelidá-lo de NÁRNIA, por enquanto.
O Coração (Suzie) é a saída para o ICS. É através dele que Razão, Coragem e Jovialidade aceitam entrar nesse mundo mágico. Coitada do coração, quando a jovialidade lhe passa a perna e a faz sofrer. A razão mostra o óbvio os sentimentos dizem outra coisa, e xeque-mate.....temos um sintoma. Tudo tão parecido...
Nárnia é Atemporal, assim como o inconsciente. São tantos conteúdos alí representando as pulsões aí que parece que estamos vendo um caldeirão. É preciso ter cautela e tentar ver a lógica alí....logica bastante peculiar.
Através da música (pecado), fogo (pecado) e da ganância, o Fauno Mr Tummus (besta) quase traí o coração. A partir daí, nós somos apresentados a algumas dessas fantasias.
A Bruxa má e sedutoria. A Frieza que o poder e a ganância nos remota. Assim como nas religiões, ela vêm em um trono, tem um castelo e pode mandar em todos. A Maldade seduz a jovialidade, para atingir a todos, através da gula. Ela é o superego desse mundo inconsciente, no qual só permite que passe aqueles que ela modifica, congela, traduz.
O Leão é o marido da Leõa. É o pai da horda primeva. É aquele que só aparece quando é preciso, para salvar, mesmo que seja em conselhos. É ele que reune as forças para salvar, mas antes, algumas outras fantasias precisam ser resgatadas. E fantasia não seria fantasia, se não tivesse ligação direta com situações infantis. É nessa hora que “Papai Noel” vem à tona e resgata essa fantasia quase que universal. E trás com ele as armas necessárias para se vencer a maldade do superego, digo, da Rainha.
Para vencer esta batalha, o coração precisará ter habilidades de cura, a sí próprio e aos demais. A coragem terá que proteger, a Razão, contra-atacar e a jovialidade, mais parcimonia. Essa seria a receita pra viver em harmonia com seus conflitos. Pois todos os temos, de uma maneira ou de outra. Ainda bem!
Todos esses conteúdos inconscientes estão, de certa forma, modificados e plastificados. Castores falam, centauros se reunem, lobos são malvados. Tudo precisa ser mantido assim para que o recalque funcione. Mesmo assim, os filhos de Adão e o pecado, desta vez não “culpam” o homem, mas sim, os SALVAM de algumas prisões. Na vida real, isso teria grande impacto na vivencia que temos da sexualidade.
O armário que dá nome ao filme, nada mais é do que a passagem, o caminho. É a porta de entrada e saída do inconsciente. Nele podemos viver todas as nossas fantasias, sem limites, mesmo que seja na forma manipulada como se encontram. O armário é uma passagem da consciência para as profundidades do psiquismo humano. E assim fica mais fácil conseguirmos entender o surto psicótico. Neles, os pacientes vivenciam uma fantasia, em um corte com a realidade. Vivem seus sintomas e acreditam fielmente na sua existência, não seguindo a RAZÂO que vivenciamos, assim como disse o Professor. O que seria então esse surto ? Apenas uma tentativa de leitura do real baseado no recalque. "O significado de uma atitude delirante pode e deve ser compreendido e referido à estrutura da qual emergiu esse delírio. Sem um conhecimento de tal estrutura nosso conhecimento do delírio será parcial, como será parcial a relação de causalidade"(Pichon Rivière - Teoria do Vínculo)
Com isso, podemos ver que algumas fantasias conseguem convencer a si mesmas de que são verdades. Se Peter, Edmund, Susan e Lucy se convencem de que estão na profecia, quem dirá o paciente que supostamente vivenciaría uma fantasia dessas. E com isso podemos entender que mesmo em um surto psicótico há um “núcleo saudável” que pode ser usando como ponto de partida para um resgate. “No entanto, o fato de haver, em algumas fantasias, simulação clara da realidade tanto mostra tentativa de retornar ao mundo objetivo quanto serve aos fins da defesa” ( Teoria Psicanalítica das Neuroses - Otto Fenichel). Assim, o sintoma pode ser compreendido como uma forma de se “ater” a realidade, e não somente a desligar dela. O sintoma (surto) seria como a VIVÊNCIA de um sonho, em tempo real, onde os conteúdos se alteram, interferem nas funções do Ego, mas há uma possibilidade de acordar.
Então, temos todos os mecanismos de defesa mobilizados nessa nova batalha, que se trava eternamente. A produção cinematográfica atinge seu auge nesse ponto do filme....Todos estão presentes dentro do guarda-roupa mágico e são filhos de “Adão”, ou melhor, do Professor, que já vivera muitos anos naquele mundo.
Algo os trás de volta pra realidade, depois de alguns anos atemporais vividos naquele ambiente. Somos transportados então para a sequência, Nárnia e o Píncipe Caspian. Algo aconteceu com aquele mundo mágico e lindo que foi deixado para trás. A “evolução” do homem trouxe inveja, corrupção, poder. Temos a Nárnia nova, centenas de anos depois, em uma crítica social diretiva.
A Idade Medieval, junto com a Magia, deve ser o tema mais abordado em filmes recentemente. Claro que os desenhos em quadrinhos ganharam força, mas esses são clássicos. Mesmo em outra época, outros costumes, e outras tradições, algumas outras fantasias são apresentadas, deste mundo mágico do inconsciente.
O mito do Adão e da Profecia foi substituído pela lenda dos 4 reis de Nárnia. Mas como a idolatria é algo necessário aos fihos de Adão, eles crrêem numa segunda chance, dada pela Nova Profecia do Principe Caspian. O foco desta continuação está mais direcionado a críticas sociais. Em um momento de sofrimento e de dor, onde não havia mais esperança, ele foi solicitado a se comunicar com o Divino. E foi ouvido.
Enquanto isso, no mundo real, a passagem de tempo continua despropocional. Alguns meses por aqui, muitos e muitos anos por Nárnia. Os conteúdos antigos não morreram, mas receberam novas roupagens agora. Nos séculos que se passaram em Nárnia, o homem veio da magia para a razão e agora se chocava com o retorno da magia uma vez recalcada da sociedade.
Os animais que antes eram seres, voltam a ser apenas animais. O mundo real cada vez interfere mais e mais na fantasia, destrupindo ela. A primeira batalha de Nárnia pode ser entendida como um sintoma. Anos depois, esse mesmo conteúdo, agora modificado, pode ser relacionado com um novo sintoma....uma nova batalha. Um mesmo conflito pode causar vários sintomas, assim como vários sintomas podem ser causadospor um outro conflito diferente. A relação não é direta, mas tem sua lógica. Agora, só precisamos entender essa segunda batalha, desses mesmos conteúdos, na nova roupagem que receberam no segundo filme.
Esse Ego teve vivências novas, com novos conteúdos. Alguns foram reprimidos totalmente – como as árvores que não falam mais – e outros foram modificados – animais ganharam maldade e ferocidade. O Anão trás a de volta a fantasia do abandono, nos remetendo a primeira mãe boa, que assim o deveria ser.
Mais batalhas acontecem e o não lógico passa a ganhar da lógica. A magia toma conta do filme que encerra a fantasia com um monstro de água engolindo os malvados. Nada mais oral possível! E assim, depois de outros percursos, os 4 irmãos retomam a realidade, onde a fantasia não é tão permitida assim, só através dos símbolos universais. Porem, uma abertura foi deixada. A lanterna é a passagem, pois não se precisa mais do armário. Uma vez aberto o canal para satisfação de uma pulsão, ela pode retornar pela mesma saída, mas na forma de um outro sintoma.
E assim, fica a curiosidade para saber o que estes conteúdos irão se apresentar no próximo surto, digo, batalha, em Nárnia...Como serão modificados e apresentados? Só nos resta ler os livros agora.
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