Cinematerapia®
Entendendo Conflitos
Na Natureza Selvagem

 

Na Natureza Selvagem

(Into the Wild, 2007)

 Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps

A real alegria só existe quando é compartilhada

 

Sinopse

 

Trailer

 

Dirigido por Sean Peann

 

“Sean Penn aguardou 10 anos para rodar Na Natureza Selvagem, pois queria ter a certeza da aprovação da família McCandless para que o filme fosse realizado”.( informação do site adorocinema.com.br)

 

Filme encantador, de uma beleza que não reside nas paisagens mostradas, nos lugares percorridos pela personagem, embora todos esses fatos mereçam destaque. A beleza desse filme pode ser resumida nessa frase final que destacamos no início do texto. Filme que fala da natureza humana em uma extensão impensável, mais do que quaisquer outros aspectos que são tocados ao longo do filme, e são muitos os aspectos tocados, a natureza dos vínculos é seu ponto forte, segundo nossa leitura sobre ele.

 

Sublinha o inferno e a alegria que os vínculos nos trazem, fonte do pior sofrimento e do maior prazer, segundo Freud¹. Lindo, comovente, “impactante” mesmo. Daquele tipo de filme que ao terminar fica-se com a certeza de que alguns filmes são capazes de mudar vidas. Sabê-lo baseado em fatos reais, torna-o ainda mais tocante.

 

Conta a história de um rapaz de 23 anos(na vida real Christopher McCandless representado pelo ator Emile Hirsch) que no início da década de 90 decide empreender uma viagem pelos Estados Unidos, traça como meta chegar ao Alasca, sua idéia é despir-se da cultura e suas imposições sociais e entrar em contato com a natureza selvagem. Mais do que perceber o conteúdo dessa intenção, a beleza reside em seu trajeto e principalmente nas relações que estabelece ao longo de sua caminhada. Percurso humano que pulsa e grita através das várias personagens com as quais ele vai construindo um invejável traçado de afeto. Um rapaz peculiar dotado de um conceito de justiça e ética, quase angelical, cruel com suas lembranças, e sábio em seus novos vínculos.

 

Oriundo de uma conturbada família, descobre segredos sobre ela, sobre as bases que a constituíram, que o levam ao inferno de suas emoções, tudo isso é narrado ao longo do filme pelas memórias de sua irmã, sobrevivente a toda trama familiar. A narrativa se entrelaça com suas vivências em sua caminhada rumo ao Alasca, feliz maneira que Sean Penn escolhe para nos apresentar sua temática. Direção poética encontramos nesse filme, surpreendente Sean Penn que igualmente à descoberta que vemos a respeito da direção de Clint Eastwood(As Pontes de Madson – 1995, onde o descobrimos), nos mostra uma face de possibilidades múltiplas de um ser no mundo.

 

Segue essa trajetória nossa personagem Christopher, comovente ser em angústia e alegria, isolamento e vínculo mais afetivo e completo que possa ser possível, baseado na crença de que partirá, no como está sempre chegando e partindo, se lança em direção ao vínculo com toda a potência de vida. Belo aprendizado que culmina na relação que desenvolverá, quase ao final do filme, com o solitário Ron Franz(Hal Holbrook ) que revela um “refúgio psíquico”² contra a dor da perda.

 

Por que falamos aqui de refúgio? Estamos nos baseando na concepção de Anne Alvarez

quando propõe que podemos buscar frente a dores muito intensas, como é o caso de Ron e

também de Christopher, um lugar conhecido, porém lugar do sintoma, para lidar com o insuportável da dor, no que ela tem de desmesurada. Buscamos então àqueles acordos primitivos que fizemos, muitas vezes esse acordo ocupa um lugar onde a palavra (representação) não alcançará. Ron e Christopher fizeram acordos com a vida, aparentemente, completamente opostos, por isso mesmo, descobrimos na proposta que Ron faz a ele de adoção, o quanto de igual, de similar, há nos refúgios que buscaram, muito embora em um primeiro olhar a aventura e juventude de Christopher possa nos parecer mais atraente e o isolamento e uma certa melancolia de Ron algo a ser modificado. O vemos, Christopher, ao longo do filme, “namorar” a morte em inúmeras circunstâncias, poderíamos talvez supor que ali encontraremos o mecanismo de identificação, introjeção e ataque ao objeto introjetado, tão bem descrito por Freud em seu texto “Luto e Melancolia”.

A maneira como nossa protagonista se coloca em risco de morte por inúmeras vezes durante sua aventura, até o desfecho onde realmente a encontrará. Cena final de sua busca, o perdão aos pais, imaginado em seu leito de morte sob o mais profundo abandono e desamparo. Essa mensagem do final desse filme nos remete de maneira intensa para os mecanismos que envolvem a elaboração de uma questão para o psiquismo. Christopher não suportou a verdade do segredo familiar, mas de alguma maneira repete o abandono do pai em relação à primeira família com cada vínculo que faz ao longo de sua aventura, como se sucessivamente tentasse compreender a escolha paterna e talvez perdoar.

 

Ao mesmo tempo podemos ler nesse filme, paralelamente ou complementarmente, toda a questão que envolve os questionamentos próprios da juventude, esses que mudam o mundo a cada nova geração. Nosso protagonista não se sente com vontade de corresponder às expectativas que supõe que o mundo adulto tenha a seu respeito, e em mais de uma ocasião durante o filme somos confrontados com suas dúvidas. Ele se sabe um jovem capaz, explica que já cumpriu o ciclo universitário, mas emocionalmente não consegue encontrar um caminho possível que atenda a sua necessidade criativa e os modelos de trabalho que vê a sua frente. Essa é de alguma maneira uma questão que atravessa jovens de todas as partes do mundo nessa faixa etária. A pergunta infantil formulada por cada um: “O que vou ser quando crescer”, torna-se um impositivo e exige resposta. Muitos jovens frente a esse momento entram em crise, assim como nossa personagem. Outro belo encontro, que não podemos deixar de mencionar, é o que ele terá com o casal Rainey(Brian Dierker) e Wayne Westerberg (Catherine Keener), dois momentos desse encontro ao longo do filme. Ela revelará a ele um sofrimento bem próximo ao que sua própria mãe deverá estar passando, uma história muito semelhante a dele próprio, onde de alguma maneira ele pôde ouvir confidências de uma mãe que sofre a ausência de notícias de seu filho. De alguma maneira no encontro dos dois ela pode resgatar seus aspectos de maternidade acolhedora e ele de uma filiação capaz de cuidar, sentindo-se respeitado em sua autonomia e possibilidade de  fazer escolhas, encontro com uma mãe com traços amorosos sem cobranças ou agressividade e verdades não reveladas, como é o caso em sua própria família.

 

Nesses vínculos estabelecidos na passagem, que todos sabem com tempo limitado, de alguma maneira cada um irá resgatar aspectos fundamentais de si mesmo. E em Rainey, para Christopher,  o próprio resgate de um pai amigo, sem os traços sádicos encontrados naquele que construiu essa máscara que Christopher levará toda a caminhada tentando exorcizar ou matar na solidão de um ser sem identificação possível, tanto com o que se constrói como imagem do masculino naquilo que ela tem de individual , assim como naquilo que se representará como cultura.

 

A foto final dele(auto retrato) encontrada pelos caçadores em seu “ônibus mágico” de alguma maneira nos remeterá ao questionamento a respeito do que ele mesmo diz: “-Agora subjugado completamente pela natureza”, quando se vê impedido de abandonar o local pela subida do rio e completamente destituído de comida acaba ingerindo “por engano” um poderoso veneno que mata por inanição, incapacidade receber cuidados básicos para o corpo. Restará a pergunta para nós: qual natureza afinal o subjugou? Talvez ela em sua perspectiva mais pulsional, no seu para além do princípio do prazer.

 

Sugestão de atividade:

  • Dividir a turma em pequenos grupos(5 ou 6 pessoas)
  • Leitura prévia dos textos “Luto e Melancolia” e “Mal Estar na Civilização” – Freud
  • Dividir em pequenos grupos e discutir juventude, cultura e suicídio
  • Montar uma cena para ser apresentada pelo grupo que traduza a emoção dominante
  • Discutir o que há em comum entre as diferentes cenas montadas pelos diferentes grupos
  • Tentar entender isso dentro dos texto sugeridos.

  

¹ Freud, Sigmund –  Mal Estar na Civilização e Luto e Melancolia

²Alvarez, Anne - (1994) Companhia viva: psicoterapia psicanalítica com crianças autistas, borderline, carentes e maltratadas, Artes Médicas Sul