Cinematerapia®
Entendendo Conflitos
O Nevoeiro
Artigo  publicado na revista Psiquê Ciência e Vida, edição 35


O Nevoeiro (The Mist, 2007) 

 Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps

O mestre do terror chega as telas com mais um de seus filmes. E em época bem oportuna. Quando se pensa em terror, o primeiro e único nome que nos vem a mente é Stephen King e sua coleção de obras literárias, que, nem todas com grande sucesso, foram adaptadas ao cinema. O Nevoeiro foi uma das que deu certo!

Lançado nos cinemas brasileiros ao mesmo tempo que o projeto LHC (Large Hadron Collide), tomou conta da mídia, onde os cientistas tentavam recriar, na Europa, o Big Bang, e pessoas no mundo inteiro temiam que um buraco negro engolisse o planeta como resultado desta experiencia, o filme atraiu diversos espectadores, fascinados pelas teorias sempre mirabolantes e quase perversas, propostas pelo pacato escritor. Sua capacidade de amedrontar aqueles que lêem ou assistem as adaptacões de suas obras é unica e qualquer amante de suspense ou terror concorda com sua peculiar forma de se expressar.

Mas, o que um filme de suspense interessa aos profissionais e estudantes psi ? Muita coisa! São nessas situações, onde os personagens são levados aos seus limites de tolerância psicológica, que alguns quadros interessantes são apresentados, e passíveis de inferências.

E porque temos tanto interesse em filmes de suspense ou ficção cientifica ? Estaria isto relacionado a nossa necessidade de entender ou prever o futuro? Freud ja postulava que quanto mais se conhece em relação ao passado e ao presente, mais inseguro nos tornamos em relação ao nosso proprio futuro. Talvez a ficção cientifica venha preencher essa lacuna no nosso psiquismo, ocupando um espaço que nem mesmo as nossas mais positivas ciências conseguem prever. Outra análise possível seria pela própria experimentação da angústica como uma certa realização de desejo por parte do psiquismo, aquilo que popularmente chama-se de “injeção de adrenalina”.

Em momentos de alto nível de estresse, os personagens tentam recorrer à racionalidade, em meio a uma situação digna da ficção, dificil e distante de acreditar. É nessas horas que a irracionalidade toma conta e vemos claramente o que Freud escreveu em 1927, em “O futuro de uma Ilusão”, quando afirma que os regulamentos, instituições e ordens da sociedade existem para preserva-la e a defender do PRÓPRIO individuo “O estado proíbe ao indivíduo a prática de atos infratores, não porque deseje aboli-los, mas sim porque quer monopolizá-los.” Quando não se tem mais policia, bandido, juizes e legislação, ou a quem recorrer, as “pulsoes hostis” podem tomar contar e causar estragos. Sem ter para onde correr ou a quem pedir ajuda, os “habitantes” da micro-comunidade que se forma dentro do mini-mercado passam a agir por conta própria, com suas próprias leis, novas regras ou normas estabelecidas. Fragilizados pela situação atipica em que se encontram, se tornam vulneráveis às pulsões mais hostis, como se seu superego tivesse “adormecido”, uma vez que não pode ser reforçado pelas normas existentes, deixando a mostra o que Freud chamou de “tendências destrutivas”.  Essas tendências destrutivas seriam próprias da pulsão de morte, que se move sempre aliada a pulsão de vida que é composta pela primeira dualidade da teoria freudiana, englobando então as pulsões sexuais e de auto-preservarção que atuariam juntas em uma mesma corrente. O organismo tende a destruição, mas preservará sempre sua tendência a morrer como escolhe. Salvar-se é uma premissa anterior a qualquer outra e para esse fim o aparelho disporá de toda sua agressividade contra tudo e todos. Afrouxam-se os laços afetivos e volta-se para um estado anterior às normas civilizadas, criando novas regras dentro das novas relações de vínculo e sobrevivência. Temos relatos na vida real de várias situações onde grupos para sua sobrevivência compuseram novas regras e superaram todos os seus impedimentos superegóicos civilizados.

E a partir deste momento, no filme, que temos exemplificaçoes do que Freud chamou de “frustrações, proibições e privação”.

Um dos personagens mais interessantes do filme e Mrs. Carmody, interpretado por Marcia Gay Harden. Reparem como no começo do filme ela e apenas vista pelos demais habitantes do vilarejo como a “fanática religiosa” e com “mania de limpeza”. Ao longo do filme seu personagem cresce, em meio ao desespero dos demais, e suas “loucuras” passam a ser compartilhadas, como normas superegóicas infantis de identificação e dependência ao superego parental. Sua capacidade de argumentação cresce a medida que o desespero toma conta dos demais confinados aquele pequeno espaço de terror e desinformação. Ao se verem totalmente desamparados das restrições sociais, a merce da natureza, mais do que “natural” que se apegassem a questões religiosas. Freud já nos remeteu a esse sentimento de desamparo como a sustentação das religiões em seu texto “O Futuro de uma Ilusão”, onde aponta para toda a importância que o homem conferirá a alguns símbolos como tentativa de se proteger de um desamparo primordial, repetido nas sensações do bebê deixado sozinho em seu berço. Ali naquela vivência, cada sujeito será remetido a essa profunda sensação de desamparo frente a natureza e suas ameaças.  Isto abre espaço para Mrs Carmody impor sua vontade sobre os demais, devido a remoção das restrições sempre propostas pela civilizaçao, se tornando nada mais do que uma tirana, governando os demais pelas suas proprias pulsões.

Nesse caso nos parece que seria um grupo, dentro dos pressupostos de Bion, com uma crença em um lider messiânico e esperando dele uma liderança e ordem. Nesses momentos, sabemos que a capacidade do grupo pensar por si mesmo ou escutar outras vozes dentro dele mesmo, ficam absolutamente reduzidas. Se encontrarem um líder que se investe desse suposto saber, isso poderá se transformar em momentos de extremo autoritaritarismo, tivemos ao longo da história inúmeros acontecimentos que serviram para exemplicar o que o filme aponta e nos faz rever, nossa capacidade de perdermos a visão individualizada e nos deixarmos levar por movimentos de massa. Para pensarmo nessa questão a tese de Wilhelm Reich sobre peste ou praga emocional é bem adequada também.

So quando reconhecem alguém como lider, as massas podem ser induzidas a algo. Que algo é esse é a grande questão que nos faz sempre pensar. Em “Psicologia das Massas e Análise do Ego” o texto freudiano nos levará a profundas e atuais concepções. E é justamente o que ocorre quando o fanatismo de Mrs. Carmody toma conta da situação e no desespero, essa passa a ser lider, juiza, policia e detentora de todas as decisões daquela “tribo”, tal qual o “pai primevo” descrito nos textos freudianos e inspirado na tese de Darwin sobre esse homem primitivo. Porém, segundo Freud, este lider deve ter “insights superiores a necessidade da vida” e infelizmente, no quadro patológico apresentado pela personagem, isto não era possível.

Sabemos  o quanto essa liderança e a composição dos rede grupal podem atuar no sentido de avanço civilizatório ou retrocesso. Como Freud pontua inclusive, em sua carta para Einstein, que poderia ser por esse caminho que a humanidade poderá vir a esgotar seu impulso para as guerras e destruição.  Grupos formados por identificação e ideal de ego, desde que esses sejam justos e possam de alguma maneira prescindir dos instituídos por demais repressivos e dominadores.

Em tempos de incertezas e crises economicas mundiais, furacões e catastrofes naturais, cientistas tentando recriar o “big bang” a procura das “particulas de Deus”( partícula de Higgs), Stephen King nos apresenta um possivel futuro de nossa sociedade, onde o homem desafia a natureza até os seus limites, e esta, como diz Freud, nos mostra nossas fraquezas e desamparos, que “achamos” ter vencido através do processo de civilização. E as consequências psicológicas são apresentadas ao extremo.

Nossos laços de grupo em momentos onde somos testados em nossos limites tornam-se uma matéria por demais importante, avaliar esses vínculos que formaram a tal rede do tecido social. Momentos extremos mais do nunca exigem de cada um de nós reflexões acerca daquilo que se inscreve como nosso “ideal de ego”, nossas aspirações mais sublimadas e comumente chamadas de civilizadas e nobres.

Bom filme para instigar então análises contemporâneas mais do que necessárias e urgentes.