Cinematerapia®
Entendendo Conflitos
O Leitor

O Leitor (The Reader, 2008)

 

Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps

 

Sinopse

Trailer

 

Hanna, analfabeta.

 

Há uma forma de contar a história desse filme e temos que começar pelo fim, sua revelação, o analfabetismo de Hanna. Outras tantas seriam possíveis e cabíveis.

 

Tomemos essa incapacidade como algo que amarra toda a trama que constrói esse filme, que começa como uma história de sedução e primeiro amor, lembrando um pouco um clássico do cinema com sua trilha sonora inesquecível, o filme “Verão de 42”(Summer of '42, 1971) vencedor do Oscar. No Brasil foi lançado com o título “Houve uma vez um verão”. Os dois filmes tratando de aspectos da 2ª Grande Guerra, em abordagens e contextos bastante diferentes, mas que trazem algo que os aproxima e que não é somente a aparente semelhança do enredo, meninos adolescentes em suas primeiras experiências sexuais com mulheres mais velhas que de alguma maneira nos transportam para a história emocionada da guerra.

 

Há algo a mais que amarra os dois, mas que somente o filme “O Leitor” irá nos contar, como se respondesse a uma pergunta que tenha ficado suspensa no ar, como parece ser a intenção do diretor(Stephen Daldry) ao encerrar o filme com a cena do nosso protagonista Michael Berg (interpretado por Ralph Fiennes quando adulto, e por David Kross quando jovem) narrando para sua filha, já  mulher adulta, tudo que aconteceu com ele e Hanna quando ele tinha apenas 15 anos. E será que essa pergunta se refere apenas a vida desses jovens depois dessa experiência? Com certeza que não, embora também a isso tente responder e ao fazê-lo responde a bem mais que isso.

 

Essa talvez seja uma pergunta que tenha ficado pendente ao final do outro filme que nos referimos o Summer of’ 42: e depois, como seguiu a vida desse menino? O que teria acontecido ao mundo após a 2ª Grande Guerra? O que aconteceu com as relações que estabelecemos a partir disso? Logo de cara pensamos na grande transformação que houve do papel da mulher no mundo, sua inserção nele que se transforma radicalmente a partir desse episódio, a guerra. Hanna nos faz pensar nisso ao responder frente ao tribunal sobre o porquê não teria aberto as portas da igreja onde 300 prisioneiras sob sua guarda teriam morrido, responde Hanna: - mas nós éramos guardas, nossa tarefa era não permitir que fugissem! Mulheres cumprindo ordens, como lhes cabia muito bem. Essa de cara é uma mudança que sabemos ter ocorrido a partir das modificações que aconteceram via a entrada no trabalho de guerra da mão de obra feminina, como nos conta Marie Langer:

 

“Terminou a guerra. Voltaram os homens e se encontraram com uma mulher independente economicamente, consciente de seus valores, de cabelo cortado à “garçonne” e com uma liberdade sexual comparável à do homem. Ao não implicar conseqüências biológicas para ela, o ato sexual corria o risco de converter-se somente em fonte de prazer, de ter perdido transcedência e adquirido autonomia”(LANGER, M. in “Maternidade e Sexo”)

 

Mas, se pensarmos apenas nesse aspecto, a história de Hanna, não será contada como deve, afinal ela retrata o extermínio, a ausência de pensamento crítico, seu analfabetismo social, como em determinado ponto do filme, em uma discussão acontecida na aula de direito que Michael freqüenta durante o julgamento, seu colega pergunta a partir da sua revolta do como todos participaram daquilo, se todos sabiam o que estava acontecendo na Alemanha de Hitler, o que levou a que ninguém fizesse nada? Essa é uma pergunta que ainda dói e constrói a culpa dos países que compuseram o Eixo. Outros grandes diretores, como por exemplo, Rainer Werner Fassbinder, abordaram com grande precisão essa temática da opressão da culpa nos anos pós guerra.

 

Freud já nos falava da construção do sentimento de culpa como o grande herdeiro do Édipo, aquilo que permite que não nos matemos a todos, que não operemos nossos impulsos hostis mais constituintes do nosso psiquismo. Isso está presente na filogênese atualizada na ontogênese. Quando essa culpa é por demais aumentada, sucumbimos incapazes de atuar de forma elaborativa, em relação ao mundo externo, quedamos paralisados(obsessivos), como vemos acontecer a Michael ao longo da película. Hanna teria sido a representação da realização das pulsões mais sexuais, mas é ao mesmo tempo a entrada da cultura, representada na história pelos livros, mas propriamente pela leitura apaixonada que Michael fará para ela. Ao fazer essas leituras, Michael faz a junção das pulsões naquilo que elas têm de mais bela, a paixão de objeto, sexualizado, investido de libido, e ao mesmo tempo, em linha contrária, a mais linda sublimação e descoberta da pulsão que se realiza modificada pelo sublime através da cultura. O perverso da relação que encontra o caminho da transformação. Hanna abandona Michael, abandono pela impossibilidade de suplantar seu narcisismo, não pode reconhecer a grande fenda que a marca, sua incapacidade de leitura.

 

Corte no tempo e encontraremos Hanna no tribunal, julgada por suas funções de carcereira da SS, não pode lidar com a culpa, porque mais uma vez se mostra incapaz de ultrapassar a barreira do reconhecimento da falta, Hanna prefere a prisão, que confessar sua incapacidade, assina o que não atuou, representado pelo relatório que remete à responsabilidade pela morte das prisioneiras, assumindo assim sua perversidade. Michael se vê para sempre o depositário da culpa, incapaz de dizer, nomear a grande falta de Hanna.

 

Ao final do filme encontraremos Michael frente a frente com a sobrevivente do incêndio assassino pelo qual Hanna será considerada responsável em seus crimes de guerra. Na cena desse encontro, olhares trocados que falam da marca do perverso que ficou para ambos, prisioneiros os dois dos atos de perversidade no âmbito individual e coletivo. A cena resgata os conteúdos infantis preciosos, representados na latinha onde Hanna guardou seu dinheiro, investida de lembranças para a escritora sobrevivente, em seus tesouros infantis, outros tempos onde ainda podia colecionar as boas marcas da passagem pela infância com suas relações fundantes.

 

A essa altura chamaremos a falar aqui o diretor Volker Schloendorf - Palma de Ouro de 1979, em Cannes, com o filme “O Tambor”(baseado no livro de Günter Grass) , outro filme que nos trará para as questões que envolvem a construção do III Reich e suas decorrências. "O que aconteceu na Alemanha continuará a justificar livros e filmes, mesmo dentro de cem anos", disse Schloendorf(fonte: site do jornal Estadão).

 

O que podemos ver então ao longo desse muito bem encaminhado filme, “O Leitor”, traz toda uma possibilidade de leitura naquilo que o coletivo pode revelar dos descaminhos das questões que envolvem o desenvolvimento do aparelhamento psíquico, nos laços que Freud fala que compõem a construção da civilização. Inúmeras questões aos olhos da psicanálise se fazem revelar por ele, inclusive a discussão em torno da pedofilia antes marcada no social, naquilo que inscreve o masculino, apenas como um rito de passagem. Aqui nesse filme, nessa história, levando ao aniquilamento do sujeito e ao congelamento de sua capacidade de investir amorosamente, resultante de um Édipo atuado em abuso, sem o interdito. O ato pedófilo feminino é visto com bem maior tolerância. Ainda hoje o estupro feminino não é encarado com o mesmo rigor do exercido pelo homem, no Brasil considerado apenas como “atentado ao pudor”. Com toda certeza isso nos remeterá a outra complexa discussão, passando pela questão da sexualidade inscrita pelo gênero e suas diferenciações.

 

Michael adulto resgatará daquela vivência o sublime da ação da leitura, investido de culpa advinda pelo reconhecimento da omissão, por seus novos atos levará à Hanna a capacidade de superar aquilo que nega, o analfabetismo, que uma vez superado poderá remetê-la à culpa. Investe tudo recriando o laço com Hanna através da gravação de fitas contendo leituras de livros, esse ato carregado de afeto no sentido maior da psicanálise, investimento, resgatará para ela a possibilidade de se pensar sujeito da história, aprende a ler, permite-se ultrapassar as marcas narcísicas que a mantiveram prisioneira. Pela primeira vez ela é livre, embora se encontre fisicamente encarcerada. Hanna não suporta a possibilidade de voltar ao mundo carregada com sua marca da cultura, sua culpa, suicida-se na prisão na véspera da sua libertação, ainda em busca da marca social, deixa como herança suas parcas economias para serem entregue a menina que junto com sua mãe contou os horrores do crime cometido por Hanna, incumbindo Michael de procurá-la, talvez em seu último ato de inscrição para Michael, a possibilidade de falar sobre o que nunca antes havia encontrado o caminho da palavra, do encontro da escuta do outro que inaugura as possíveis representações que nos fazem sujeitos da nossa própria história. Ao encontrar o caminho do discurso, a angústia e isolamento de Michael poderão encontrar uma via de resolução, em representações possíveis e investimento do afeto.

 

Voltamos à cena onde Michael leva sua filha até o túmulo de Hanna e inicia sua narrativa: “Eu tinha apenas 15 anos quando uma mulher me ajudou...”  Outro corte e antes uma cena quando leva sua filha ainda criança para visitar a avó, mãe dele, para falar do seu divórcio e onde vislumbramos toda dinâmica familiar que foi apresentada ao espectador ao longo do filme, mãe fria, pai ausente. O sentido da solidão do nosso protagonista, que se apega ao cuidado que uma desconhecida lhe ofereceu, essa que marcará para sempre sua história, destituindo-o dela mesma. Fica-nos a pergunta ao final dessa película a respeito da ausência dessa lei organizadora, a lei do pai. Como exercê-la em uma Alemanha que aceitou a lei sádica de um pai tirano?

 

 

Para esse filme sugerimos principalmente atividades voltadas para cinematerapia acadêmica, discussões no âmbito da psicologia social ou ainda de cunho socionalítico.

A Letra Escarlate
Ensaio sobre a cegueira
Duro Aprendizado
A Vida e Bela
Era do Gelo 3(D)
O Adversário
Em Terapia
Em Terapia (resumão)
Homofobia no Cinema
Divinos Segredos
Na Natureza Selvagem
Jean Charles
Mr Brooks
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Perverso no Orkut
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Amor nos Tempo do Cólera
Os Esquecidos
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A Prova
23
Lost
O Exorcismo de Emily Rose
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