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| Mais um texto que surgiu a partir de um bate papo no Facebook. Novo formato para comentarmos alguns filmes.Ópio - Diário de uma Louca (Ópium: Egy elmebeteg nö naplója, 2007) EduardoQue cenas lindas de reforma psiquiátrica, testes projetivos, início da psicanálise, normalidade x loucura. Perfeito pra todos esses temas....Relação paciente x terapeuta, surto psicótico, sol-schroeber.... “Não tenho cérebro = sou louca. (risos) Adorei a relação. DeniseEsse filme é uma pancada, uma mulher incrível, onde a sua potência é transformada em seu mal. Toda a época daqueles tratamentos absurdos e uma nova leitura, a psicanálise, chegando e provocando uma resistência. A atriz é algo de maravilhosa, imprimiu uma verdade a personagem que me arrepiou. Filme que indico para todos interessados pelo campo psi.
Ah e uma beleza pra contrapor aos que ainda confundem psicanálise como proposta de cura via atividade sexual, bom pra ler "Psicanálise Selvagem"Eduardo
Um filme intenso que fica tenso. Grande virada no final.
Realmente Psicanalise Silvestre/Selvagem é um texto bom pra trabalhar com ele. Talvez para alunos de uma pós-graduação, pois tanta sexualidade e agressividade podem causar angústia nos menos analisados. rs
As questões sobre a Reforma Psiquiátrica ficam bem presentes, especialmente com as cenas fortes do início, que mostram os recursos de tortura utilizados como supostos tratamentos. A perversão disfarçada de branco, encoberta por uma suposta “vontade” de ajudar ao outro.
Muito bom ver o suposto psicanalista Dr Brenner usando um teste projetivo, que seriam tão úteis aos psicólogos. Me questionei muito ao longo do filme quem seriam realmente os “loucos” desse hospício. Em qual lado estaria a loucura e em qual lado estaria a perversão. Acho que um pouco de cada em ambos, no final.
A atriz que interpreta a Gizella (Kirsti Stubø) merecia um Oscar pela performance. Há tempos não assistia algo com tanta dramatização. Ela carrega boa parte do filme no corpo e as cenas são bem reais. Acho que quem só vivenciou a insanidade de uma instituição assim sabe reconhecer a perfeição dos seus maneirismos e contornos corporais. Me lembrou meus tempos de estágio de psicopatologia.
Fiquei preocupado com essa questão da distorção da psicanálise, especialmente na questão da transferência erótica. Se esse era um gancho do filme, erraram feio. Ou apenas queria distorcer a teoria do bom velhinho, como aqueles que confundem pulsão com sexo.
Os surtos de Gizella com o Deus Sol devem ser menções aos textos de Freud sobre o Schroeber e todos os seus sintomas são construídos nessa linha. Acho apenas que sexualizaram demais um quadro com um Ego tão fraco, talvez nem em fases tão genitais assim. Tive a sensação de que quiseram criar uma histérica psicótica ou uma psicótica com sexualização excessiva. Ficou um pouco salada de frutas, mas no final, os erros teóricos são compensados pela intensidade do drama.
Não dá pra esquecer a pincelada de maldade sobre a sexualidade das freiras. Sabia que não deixariam isso de fora.
Tanto fizeram que conseguiram transformar Gizella em uma “louca”. Alguém “queimará no fogo do inferno”, mesmo que seja apenas no simbolismo dos seus escritos.... :)DeniseNão entendo porque esse filme é tão pouco comentado, é excelente para debates na nossa área. Não penso que o roteiro tenha se preocupado em dar uma consistência em relação a um quadro específico em psicopatologia, talvez daí venha a dúvida que você pontuou bem. Mas, de qualquer maneira, fica a questão das “bocas de ouro” e da loucura que se associa a uma mulher que detém potência e sexualidade. Mesmo em termos de psicanálise, ainda há muito a se avançar em debates em relação ao feminino.
De maneira cruel o filme aborda, penso eu, alguns dos mitos equivocados construídos em torno da psicanálise e aborda cruamente a questão da transferência erótica que tanto assustou a alguns que começaram ali pertinho a Freud, ao mesmo tempo, mostrando de forma clara, que a vivência sexual propriamente dita não resolve o conflito que alimenta o quadro de sofrimento. Essa mulher representa toda a necessidade de falar, de representar-se, de soltar as amarras que a prendiam à figura de uma mulher paralisada, no filme representada por sua enferma mãe. Escrever como sintoma, havia algo que precisava ser dito, e ela diz, do jeito que pode. Parte, o médico, ao final, com seus escritos roubados, agora assumidos como pertencentes a ele, enquanto opera a lobotomia nela para que a angústia do dizer cesse na paciente. Sabemos bem, a psicanálise deve muito ao adoecimento das mulheres, que gritaram via seus sintomas e soltaram espartilhos, para ambos os gêneros. E ainda assim, em muitos aspectos, ela, a psicanálise, ainda se associa em alguns momentos, ao discurso que quer calar o feminino, aproximado teoricamente somente ao que "falta". Como trataríamos Gizella na atualidade? Acho que seria uma boa questão pra se pensar e debater.EduardoAcho que uma coisa ficou mais clara pra mim agora. Quando você mencionou a questão do quadro nosológico me caiu uma grande ficha de orelhão, daquela prateadas para fazer DDD. (quem dera eu fosse do tempo apenas do cartão telefônico....risos). Acho que essa questão é mais um erro ou furo de roteiro. De novo, fiquei com a sensação de “saladão” mesmo. Acho que pegaram muita coisa “selvagem”do bom velhinho e juntaram tudo em um sacolão. Tentaram questões bem psicóticas do Schroeber com dados neuróticos das pacientes do Freud. Revi algumas cenas ontem à noite e percebi quase que fragmentos da obra dele, mas em contexto distorcido. A própria transferência erótica, os “surtos” o “Sol”. Acredito que tenha sido isso....assim como em Freud Além da Alma eles compactaram todas as pacientes em Cecily. Mas mesmo assim, acho que o filme tem essa questão de quebrar com a selvageria da sexualidade x “cura”.
Daria muito bem pra trabalhar esse filme e o primeiro episódio da Laura em In Treatment - S01E01 e o texto “Sobre o Amor de Transferência”. Uso bastante ele com os alunos e acho que vou utilizar algumas cenas desse filme.
Se Gizella fosse uma paciente nos dias de hoje, como teríamos então esse “sintoma”da escrita? Talvez algo mais conectado? Algo mais cibernético?? Ou seria uma academia, em uma espécie de Vigorexia? Ou seria também na escrita? Não é essa uma forma universal e atemporal de catarse? MUITO INTERESSANTE pensar essa questão.DeniseSem dúvida há uma compilação de vários relatos na Gizella, podemos ver traços de alguns casos conhecidos, mas de qualquer maneira, embora o “sacolão” que você cita, há também o fato de que na clínica do cotidiano dificilmente encontramos um quadro(ou estrutura) tão simples em se identificar, a velha “cebola” que gosto de citar pode ser bem aplicada quando se pensa em psicopatologia, via modelo de Fairbairn, as defesas que se erguem e que podem conter traços de vários quadros. É comum em locais de internação, ainda mais neste modelo cruel que é mostrado no filme, tão nosso conhecido aqui no Brasil, encontrarmos casos já tão avançados que localizaremos de tudo um pouco, e a sexualidade exposta daquela maneira como narrada no filme. Ao observar aspectos semelhantes em instituições psiquiátricas muitas vezes pensei que aquilo que era visto como algo à ser domado, era na verdade uma das últimas formas daquele sujeito resistir a morte que a institucionalização o chama de forma intensa e persistente. A escrita e a hipersexualidade de Gizella ali, acho que talvez, possa ser vista nessa leitura, era como todo sintoma, também uma tentativa de “cura”, de uma possível saída daquele sofrimento. As propostas avançadas que a anti-psiquiatria trouxe, tão contestada por setores retrógrados aqui no Brasil, traz como uma das principais vertentes exatamente lidar com isso, a partir da perspectiva da capacidade de uma potência de criação, de produção(não confundir com produtividade). Talvez possamos pensar por aí e o filme servir como dispositivo para uma reflexão sobre questões tão atuais que discutem o nosso modelo de tratamento dos transtornos mentais graves. |  |
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