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Verdadeiro ou falso?
Como uma verdadeira aula de Psicanálise, o filme A Origem levanta a questão da importância do sonho, proposta por Freud e nos remete à tênue linha do que é real e do que é imaginário
Por:
Eduardo J. S. Honorato (CRP 01/14074) - Psicólogo e Psicanalista, pós-graduado em Saúde da Família (UFSC) e Docência Superior (UGF). É Psicólogo Perito em Avaliação de Trânsito e Doutorando em Saúde Pública (Fiocruz), atua em consultório particular e docência em Manaus.
Denise Deschamps – (CRP 05/09021) - Psicóloga com formação em Psicanálise, Socio-Análise e Clínica Infantil – IBRAPSI/RJ. Possui Formação em Psicoterapia de grupos. Atua como Supervisora Clínica em Psicanálise e em consultório particular na cidade do Rio de Janeiro, no bairro do Flamengo.

E fomos para o cinema assistir ao filme recentemente trazido às telas, que trouxe a proposta de abordagem o tema de Realidade virtual. Algumas questões existencialistas perpassam pela história da humanidade, se fazendo sempre presentes: Quem eu sou? De onde eu vim? Para onde eu vou? Alguns filmes recentes,como Matrix e outros, nos remetem a questões bastante debatidas pela filosofia: o conceito de Realidade. A questão “Onde estou?” parece ser, cada vez mais questionada nos dias de hoje. E, muito embora a psicanálise não se constitua em uma “visão de mundo”, acaba sendo um caminho para abordar esse sujeito em suas angústias.
Com certeza que a leitura escolhida por esse roteiro remete-nos a algo dito desde 1900 por Sigmund Freud, aquele que acreditou e divulgou a despeito de todo desprezo da comunidade científica à época, seus achados sobre a importância da construção onírica, desvendando muitos dos mecanismos que formarão as imagens e conteúdos deles, retirando o ato de sonhar do terreno do místico, da magia. E o que assistimos na tela ao vermos esse filme, causando-nos até certo sentimento de espanto, foi uma verdadeira aula da metapsicologia freudiana.
Nossa equipe do filme nos ofereceu uma aula sobre os mecanismos que formam o sonho, passo a passo nos levam a visitar suas possíveis formações e importância em nossa vida psíquica. Propõe com isso expandir os limites do que pensamos enquanto aquilo que é real, e aquilo que seria virtual, em tempos de debate acerca dos vínculos formados a partir das relações via rede, a conhecida Internet, essa barreira entre o que é fantasia e o que se inscreve como realidade, mais do que nunca levanta perguntas bastante interessantes.
Ideia inserida
Fala-se no filme em “implantar(ou inserir) uma idéia”. Em teoria freudiana pensamos via a união daquilo que seria um conteúdo(ou representante) afetivo(energia) somado ao seu conteúdo ideativo(idéia). E, para que se consiga essa colocação de uma idéia inexistente nossa equipe terá que buscar um quantum de energia(afeto) que mobilize e dê vida a esse novo pensamento, no filme visto como uma semente que irá ser plantada sem que se possa ter uma noção exata de seu desenvolvimento e conseqüências. O personagem de Di Caprio nos explicará isso de forma contundente. Advertência dada aos arquitetos que trabalharão no cenário onírico: evitem as lembranças e cenários existentes que poderiam levar a quebra da cadeia de representações que irão inserir e a percepção de que estaria sonhando, uma vez que a tarefa consiste em convencer ao sonhador da realidade daquela vivência.
"Qual é o parasita mais resistente? Uma bactéria? Um vírus? Não. Uma idéia! Resistente e altamente contagiosa. Uma vez que uma idéia se apodera da mente, é quase impossível erradicá-la"(Conjectura Dom Coob)
Interessante ressaltar que as “idéias” são comparadas a vírus e bactérias, tanto pela capacidade de destruição quanto pela característica de serem “enraizadas” no psiquismo. Fica mais fácil entender algumas questões sociais que nos remetem a preconceitos.
Suspiramos, então, e lembramo-nos, mais uma vez, das cartas trocadas entre Freud e Einstein. Sabemos de todo avanço que alcançamos a partir das descobertas de Einstein, assim como, de todo mal que elas trouxeram, lembrando-nos neste ano de 2010 os 65 anos passados depois de Hiroshima e Nagasaki. Estaríamos prestes a fazer das descobertas de Freud o mesmo que fizemos com as descobertas da física de Einstein? Loucura e delírio pensar nisso desta forma? Será?
Em genialidade e loucura, tão próximas entre si, nos questionamos se estaríamos assistindo uma suposta tecnologia criada por um gênio ou um surto psicótico. Interessante observar na proposta do filme a formulação da tarefa enquanto algo que só é possível a partir de um grupo, um compartilhar de ideais e metas, e ao longo da película vemos que o mundo psíquico de cada um afetará de forma sempre marcante o caminho de todos envolvidos na tarefa. Esse é um bom lembrete, sempre o será, e tomara que enquanto processo civilizatório possamos entender isso de maneira cada vez mais rápida.
Ficção versus realidade
Muitas das falas ao longo do filme denotam um longo traçado teórico, renderiam muitos debates e conjecturas, não parecem construções feitas a partir de elementos apenas imaginativos e ficcionais, nos dando dessa maneira uma intensa sensação de proximidade, talvez de possível realização mesmo, o que assusta-nos.
Mesmo saindo do tom ficcional esse filme é um “tapa na cara”, porque nos coloca frente a tudo aquilo que nos assombra, o fato de desconhecermos grande parte daquilo que move cada uma de nossas ações, escolhas, investimentos e vínculos. Insere a questão do Inconsciente freudiano de maneira contundente. Joga-nos nos braços da formulação da 1ª Tópica freudiana, a toda formulação da importância de tudo aquilo que, antes de Freud, era visto como um resíduo, lixo a ser descartado. As construções dos mecanismos de defesa, rebaixamento durante o sono, bem como conteúdos existentes no inconsciente (como a criatividade), fazem do filme um excelente material para se exemplificar a teoria freudiana em sala de aula (cinematerapia acadêmica)
O elevador descendo para o subterrâneo do Inconsciente de Dom remete-nos à idéia de profundidade nesse caldeirão do material inconsciente. Podemos pensar ainda nos três níveis do aparelhamento psíquico formulado por Freud nesta 1ª Tópica, com seus conteúdos inconscientes, pré-conscientes e conscientes. Ainda poderemos pensar no mergulho do sono em suas diferentes fases, onde os sonhos se darão sempre em um nível mais profundo. Indo adiante para a formulação da 2ª Tópica, sabemos que durante o sono o Superego mantém sua atividade bem mais baixa por conta da impossibilidade de realização, visto que o pólo motor, em condições normais de sono, estará impedido. Desta maneira o Ego pode relaxar um pouco seus mecanismos de defesa, embora permaneça de alguma maneira ativo o que fornecerá os mecanismos para “deformar”(tornar irreconhecível) o material inconsciente que tenta chegar à consciência. A idéia que não pode ser vista pela consciência que a realizaria em ato(ação no mundo externo).
Sentimento de culpa
Neste momento do filme, veremos também, uma verdadeira aula sobre “Luto e Melancolia”, onde a arquiteta faz um verdadeiro trabalho egóico, flexibilizando as acusações superegóicas que impedem o término do vínculo de Dom com Mal, e, neste momento do filme, quase que “lemos” Freud ali em seu magistral texto. A culpa inconsciente, um dos grandes achados da psicanálise. A culpa, representada ali em Mal, esteve até então impedindo Dom Coob de realizar suas tarefas, chamando-o para a morte.
O filme se encerra sem que possamos afirmar com convicção o que teria sido sonho e o que seria a tal realidade, talvez remetendo-nos ao conceito freudiano ao lidar com questões muito próximas a essa, o de “realidade psíquica”, uma fronteira entre o mundo externo e a fantasia.
Esse filme realmente existiu? Ou poderia ser somente idéia de uma mente fértil? Você tem um Totem? Tem certeza que está lendo essa revista? Lembra como ela chegou até suas mãos? Você pode estar apenas SONHANDO...
Assustador, não é mesmo? Talvez não mais do que uma bem encaminhada sessão de psicanálise.
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