O filme é narrado pela protagonista, uma menina de 14 anos, Susie Salmon, assassinada violentamente por um vizinho e cujo corpo nunca foi encontrado. Roteiro inspirado no livro “Uma Vida Interrompida” de Alice Sebold. Perdida entre o caminho para o paraíso e a vida com seus vínculos afetivos, da qual abruptamente foi retirada, pode acompanhar o desenrolar dos fatos após sua morte e tentar interferir para que seu assassino seja descoberto. Uma tarefa duplamente difícil.
Por que escrever sobre um filme com essa temática dentro de uma coluna sobre temas ligados à Psicologia e Psicanálise? Fizemo-nos essa pergunta ao começar a escrita desse texto. Sobre o que poderíamos falar abstraindo da questão que o filme lança a partir de pressupostos de fé e crença? Não cabe à Psicologia questionar a espiritualidade de ninguém, mas também não cabe dentro da psicologia qualquer leitura que se faça a partir de pressupostos de crenças ligadas à concepções de mundos além vida ou religião e seus dogmas. Qual é a fé do psicólogo? Resposta óbvia: a do paciente.
Esclarecemos então que para iniciarmos uma abordagem sobre esse filme, abstraímos totalmente de qualquer questão ligada a crenças sobre a morte e o que estaria contida nela, nesse após a vida. Abordaremos esse filme a partir das temáticas sobre luto, perda de filhos, à elaboração destas perdas, adolescência e perspectivas, e ainda sobre psicopatia, pedofilia e sadismo.
Antes, queremos deixar uma nota sobre as lindas imagens que esse filme nos apresenta, um sonho maravilhoso que poderemos acompanhar, em todas as suas construções, lindas são as imagens, remetem-nos ao potencial de esperança que um adolescente depositaria no mundo a partir do seu próprio, aquele que fala de sua subjetividade. Embora alguns críticos de cinema as tenham achado exageradas e cansativas, pensamos que acompanhá-las sem tentar entendê-las, apenas deixando-nos levar por sua beleza é em nosso entendimento uma bela forma de nos aproximarmos do adolescente que um dia fomos, e para quem tem filhos, uma bela forma de entrever uma possibilidade de compartilhar suas avassaladoras sensações. Nos remonta, as vezes, ao clássico “Amor Além da Vida”(What Dreams May Come, 1998), um dos primeiros a inovar neste estilo, ganhador de prêmios de efeitos visuais.
Sugerimos que nos trechos ligados ao Paraíso que se tente desligar o botão da censura, o plug do processo secundário e que apenas permitamo-nos mergulhar naquelas imagens, tanto as mais belas e coloridas, quanto àquelas que falam de angústia e destruição, por momentos pensamos estar dormindo e dentro de um sonho. Vimos como muito bem encaminhadas essas seqüências do filme. O que deseja um adolescente, como quer ser visto, quais seriam suas expectativas? Sonhe com as imagens, dirão muito de tudo aquilo que em algum lugar você já sabia antes delas, permita-se que representem o que se encontra em cada um de nós, muitas vezes esquecido em um cantinho que já nem sabemos mais o caminho até a ele. As músicas que acompanham essas seqüências de cenas são bastante inspiradoras, Brian Eno(o mesmo da música do maravilhoso filme “O Quarto do Filho”) é musicalmente brilhante para elas. Nota especial também para a magnífica, como sempre, aparição de Susan Sarandon, sua personagem por si só, já vale um bom debate. Assim como diz a personagem principal, cada um de nós tem uma representação de Paraíso, e este é o de Susie, mas que traz em seu bojo um pouco de cada um de nós, que já passou pela adolescência.
Passeamos por diferentes emoções ao longo do filme, às vezes de maneira abrupta, entre o encantamento e o susto, vamos descobrindo-nos frente a um filme inusitado, um pouco de muitos gêneros, vai da fábula ao criminal, surpreendendo-nos, o diretor de filmes como “O Senhor dos Anéis” e “Almas Gêmeas”, aqui une seus gêneros, de maneira bastante convincente.Por tudo isto pensamos que, talvez, esse filme possa produzir em um grupo de trabalho, conduzindo-o de maneira apropriada em uma sessão de “brainstorming”, um resultado que poderá ser bem interessante e produtivo, se feita essa tarefa logo após o término do filme. Uma livre associação pedida logo após ao seu encerramento, talvez nos dê o encaminhamento de um bom trabalho grupal. Fica aqui sugestão para que isso seja feito.
A marcante presença de imagens, muito condensadas em simbologia, ajudarão de maneira muito rica, acreditamos ser essa uma possibilidade de uso muito instigante a partir do “Um Olhar do Paraíso”.
Em especial nos chama a atenção a cena onde as garrafas contendo os navios, arte desempenhada pelo pai da protagonista e ela, batem contra rochedos, nos remetendo a clara emoção de desproteção e desamparo. Vidros estilhaçados que nomeiam a dor paterna, o luto insuportável. Logo no começo do filme nossa narradora nos conta que o que aconteceu a ela, “foi em um tempo onde não se pensava que coisas assim aconteciam”, remetendo à crença da infância como o tempo e “lugar” da proteção e alegria. O mundo adulto tenta formular modelos de segurança para a infância, mas nem sempre consegue protegê-la dos desvios que também o habitam. A vida ceifada em seu início nos aterroriza, e em tempos de discussão em torno de casos como “Isabella”, esse filme coloca o dedo em uma grande ferida, talvez narcísica no sentido do qual, acreditamos que podemos proteger nossas crianças amadas. O perverso invade nossa paz, remetendo-nos às mais gigantescas sensações de angústia e dor.
Retirada toda e qualquer concepção em relação a crenças a respeito de vida após a morte, o filme toca de maneira profunda e bela na tarefa do desapego como a maneira de realizar o luto, de completar sua tarefa. Remete a raiva contida em todo luto, à culpa como o avesso da raiva, à depressão como seu substrato. Em tempos modernos, de lutos mais que constantes e sem tempo para suas elaborações, fica o aprendizado na sétima arte.
Correndo junto a tudo isso, assistimos de maneira muito próxima a atuação da perversidade, seus ocultamentos e disfarces, nas articulações de um psicopata em atuação. O perigo mora ao lado, disfarçado de jardineiro, planta parasitas e dor. Fotos como revelação ali todo tempo ao alcance dos olhos, representar o impensável. Parte o filme para o modo trailer de suspense, muito bem encaminhado, devemos reconhecer. Sem exageros, sem grande estardalhaço, cumpre bem essa tarefa, criando uma ligação espectador, desenrolar dos fatos. A compulsão constante no ato nos incomoda. Fazemos parte do sofrimento e adentramos no complexo drama das personagens.
Tomemos mais um aspecto abordado pelo filme, aqui em uma leitura absolutamente livre, aspectos de nossas próprias associações e com algum spoiler contido nela. Nossa protagonista levada da vida no auge de suas conquistas, não pode se conformar com tal fato, sua vida cheia de promessas é interrompida pelo ato criminoso. Avista o Paraíso, mas a ele não pode se dirigir, pelo apego a tudo que deixou para trás. E veremos ela tomar emprestado um corpo para realizar o beijo tão sonhado, o amor da adolescente que sonha um mundo encantado pela paixão. Realizado o beijo, ela poderá partir, despedir-se dos pais, depois de existir na dor de sua mãe, essa era outra falta que a impedia de prosseguir. Podemos aqui encarar simbolicamente essa morte como ligada a passagem característica de toda adolescência, onde os pais perdem a(o) filha(o) bebê, deixando-os prosseguirem sua viagem rumo à vida adulta, à autonomia de ações, ao desconhecido que é a vida e a sua própria sexualidade. Sua mãe finalmente entra em seu quarto e chora a ausência, percebe a falta, o luto, a ida da filha. Essa é uma tarefa que sem acidentes ou crimes todos os pais e mães terão que realizar em algum momento, chorar a partida para a vida adulta de seus filhos. No caso do filme a partida da filha para o paraíso. Recado sutil de que caminhar pela vida é sempre um caminhar para a morte, essa que está sempre a assombrar-nos, e como no filme, muitas vezes de forma inesperada.
É realmente um filme muito belo, as imagens nele construídas são convites ao abandono às mais complexas sensações. Vida bela, vida que assusta, segurança e ameaça, tarefas pelas quais nenhum de nós passará incólume, quer no lugar de filhos, quer no lugar de pais. Entre o Paraíso e o Limbo das nossas pulsões, caminhamos, conquistamos, ganhamos e perdemos, sem sabermos nosso prazo, nossa data de validade.
** Artigo Original publicado na revista Psique Ciencia & Vida