Cinematerapia®
Entendendo Conflitos
A Partida

 A Partida -Okuribito (2008)


Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps

Direção: Yojiro Takita
Roteiro: Kundo Koyama

 

Ganhador do Oscar de Melhor Filme estrangeiro.

 

Daigo Kobayashi (Masahiro Motoki) é um violoncelista que se vê frente a dissolução da orquestra onde havia sido recentemente incorporado, a partir desse evento questiona seu talento para a música e decide retornar a sua cidade natal, onde começará uma jornada de reencontro com sua própria história ao mesmo tempo em que lidará com sua nova atividade, emprego buscado sem que tivesse conhecimento do que se tratava, aceito nele, passará a participar da preparação dos mortos para a “última jornada”.

Daigo nos demonstra todo nojo e horror que a morte nos desperta em sua feiúra e ameaça. Enfrenta os conflitos que essa sua nova ocupação o colocará, Já seu chefe, parece ser um homem totalmente absorvido por essa delicada tarefa, que desempenha com dedicação e muito afeto. Daigo percebe esse afeto em todos os cuidados que Ikuei Sasaki (Tsutomu Yamazaki), agora seu mestre, coloca em cada preparação do morto para sua colocação no caixão, a cerimônia evidencia tudo aquilo que de certa forma vemos contemplado nos estudos sobre o luto, onde podemos ver que essas cerimônias de funeral servem para que os vivos possam começar o grande trabalho que representa a vivência do luto e o “desenlutamento” que deverá vir com o tempo. Daigo observa e aos poucos do nojo e horror vão cedendo lugar para um verdadeiro apaixonamento, começará a entender a morte, “a jornada”, como algo que representa, muito, um sublinhar sobre a vida de quem fica, dos vínculos que foram constituídos por aquele que parte, fim de todos nós afinal. A preocupação com a maquilagem que transformará esse cadáver naquilo que foi quando habitado pela energia da vida é um detalhe tocante na confecção do mestre e que Daigo logo se dará conta, minúcia delicadamente abordada nesse filme.


Capturado pela morte, nosso protagonista se volta à vida com uma força até então desconhecida, abraçado ao seu violoncelo utilizado quando era criança, tocará para o grande espaço, descobrindo no prazer de tocar sua grande ligação não somente com a música, mas com sua própria história que fala de um abandono paterno que Daigo ainda não conseguiu processar em sua emoção.  Todos temos tarefas de luto inacabadas, sabemos disso em algum lugar do nosso ser, assim como sabemos que só realizando-as poderemos descobrir a beleza do vínculo que estar vivo representa e a marca que todos nossos afetos deixam depois de passar por nós. Aqui lembramos, por associações possíveis, de uma cena muito forte que tem em outro filme japonês intitulado “Dolls”(Direção Takeshi Kitano – 2002) onde uma jovem tenta se suicidar após ser abandonada por seu noivo, salva da morte, esse noivo passa a andar com ela para toda parte, pulsos amarrados aos seus, com receio de que ela volte a tentar o suicídio(matá-lo dentro de si mesma?). Outro filme sobre o qual vale fazer reflexões sobre vida, morte, culpa, prazer e repetição, elaboração, liberdade e natureza dos vínculos. Representações possíveis acerca da tarefa do luto e “desaprisionamento” da relação acusação/culpa/perdão/desapego/elaboração.


Daigo então visita em memória sua forte e esperançosa relação com o pai, das promessas de afeto e presença que não foram cumpridas e que ele se ressente como se ainda fosse aquele menino de seis anos abandonado, incapaz de resgatar a grande marca de amor que seu pai deixara construído com ele. A pedra como a grande metáfora do amor paterno, do vínculo filial. Retornando à casa dos pais, da mãe depois da partida do pai, ele revê seus próprios fantasmas, como a personagem do filme que citamos, que seguem amarradas a ele, lembranças não elaboradas em soluções possíveis e que foram apenas repetidas em dor e desencorajamento de si mesmo.


Ainda enfrentará todo desdém que o horror a morte provoca nas pessoas em relação a sua nova ocupação, abandonado por sua mulher não pode mais abrir mão do ofício que em colocando-o diante da morte o trouxe de volta à vida e ao amor. Todo a finalização do filme nos levará a importância de lidar com a morte para que a vida possa ter um sentido pleno. Morte em todas suas representações possíveis, que atravessamos ao longo das nossas vidas.


O filme apesar do tema espinhoso tem grandes momentos de um humor agradável, algo meio “clown” que nos arranca sorrisos que nos darão um pouco de forças pra continuar no tema, interessante recurso que não se perde em nenhum momento da difícil tarefa a qual o filme se propõe.


O argumento desse roteiro é forte, contundente, não há como se desviar da rota que nos propõe, pensar a vida a partir da inevitabilidade da morte, investir de libido onde os vãos da pulsão de morte tenta plantar o imobilismo em sua busca de cessar a carga. Mas a vida joga pra ganhar nesse filme, em uma bela homenagem a tudo que nos dá o sentido de viver, em suas inumeráveis possibilidades de visão de mundo e investimento afetivo. Entre o nojo e a paixão terminamos de assistir a esse filme ligados pelos mais sublimes sentimentos e no sentido mais popular de que nossas vidas  se entrelaçam nos mais intrincados vínculos que nem sempre podemos entender que na verdade somos seus senhores, e que as vezes por falta de outro nome, resolvemos chamar de destino. Em determinado momento onde o mestre  ensina a ele o prazer pela vida, representado ali através da comida, irá utilizar uma expressão que resultou de uma beleza que serve para pensarmos como se fosse uma síntese do próprio ato da vida, um belo presente que esse filme generosamente nos deixa: “melancolicamente saborosa”. 


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