Película ganhadora do Oscar 2010 em melhor atriz coadjuvante para Mo’Nique(Mary) e melhor roteiro adaptado (Geoffrey Fletcher). Prêmio do Grande Júri, Júri Especial e Público no Festival de Sundance. Conta a história de uma adolescente negra, pobre, violentada de todas as maneiras, grávida e expulsa da escola regular.
O cotidiano cruel que insidiosamente nos penetra ao longo desse filme traz a angústia do indizível para dentro do espectador. Inicialmente deu-nos a leve impressão de que seria mais uma versão do clássico “Ao Mestre com Carinho”, impressão essa que se dissipa muito rapidamente, conduzida por um hábil roteiro, uma direção(Lee Daniels) precisa e nada afeita ao sentimentalismo, e também pelas fantásticas atuações de Gabourey Sidibe(Precious), Mo'Nique(Mary), Paula Patton(Sra. Rain), Mariah Carey(Sra. Weiss), Lenny Kravitz(enfermeiro John) e todo elenco que participa desse filme.
Que nome nos resulta ao final quando pensamos nesse filme? Com certeza nos remete ao debatido termo emprestado da Física e que tem sido abordado pelo campo psi: “resiliência”. Sem dúvida que a adolescente Precious nos remete a uma pergunta muito difícil de ser respondida: de que são compostos esses seres especiais que enfrentando, desde muito cedo, toda sorte de violência, abuso e maus tratos, esquecidos pela sociedade e varridos para as margens da engrenagem social, mesmo assim encontram dentro de si “amor pra recomeçar”? Se o filme não responde a essa questão, nos deixa com certeza com ela desconstruindo muito do que acreditamos sobre nós mesmos, sobre o psíquico, sobre o entrelaçamento do social e a construção da singularidade. Temos a mais absoluta convicção que em breve essa será mais uma daquelas películas que alunos de psicologia se debruçarão a discutir em inúmeras matérias ao longo de sua formação, assim como provavelmente se dará em outras áreas de saber(ciências sociais, antropologia, sociologia etc) onde poderá ser utilizada com muita propriedade também. São inúmeros os aspectos que poderemos debater a partir de uma leitura sobre a trama que nos é apresentada por cada uma de suas personagens. Qualquer aspecto que se escolha poderá ser abordado com bastante profundidade: exclusão social, sofrimento psíquico, capacidade de resistência, trauma, abuso sexual, incesto, sanidade e loucura, racismo, ditadura da estética, valor da vida humana dado pela inserção social, invisibilidade social etc.
Mas aqui vamos partir do ponto onde Precious ganha a palavra, excluída da escola por estar grávida pela segunda vez, acabará em uma classe especial onde pela primeira vez ganhará através da professora Sra Rain a possibilidade de falar, nomear o que se passa com ela, a personagem nos conta logo em sua primeira aula: “-Eu nunca antes havia falado em uma sala de aula”. A mestre propõe que utilizem um caderninho onde escreverão sobre suas vivências, nossa personagem pensa não ter nada a dizer, mas terá e com isso acompanharemos um ser humano sobrevivendo as mais duras provações e privações de afeto, cuidados e em algum momento até mesmo da alimentação(por excesso ou por falta).
Esse filme suscita, como já dissemos, inúmeras perspectivas de abordagem, mas vamos, aqui nesse texto, permitirmo-nos a uma pequena digressão,abordaremos a partir da nossa protagonista uma análise de um dado muito presente na realidade brasileira, aquilo que se conceitua como analfabetismo funcional. Indivíduos que não são totalmente analfabetos, mas que sofrem de uma leitura e escrita incipiente, apreendendo o mundo das palavras escritas com muita dificuldade. Ao pensar nesse tema lembramo-nos de uma pessoa(ou várias) que conhecemos e que jamais entrou em uma sala de cinema, seu distanciamento com a sétima arte é de absoluto desconhecimento dentro do ambiente mágico de uma sala de cinema. Isso nos remete a total ausência de filmes dublados para o público adulto, restando a eles, quando apreciam, os filmes voltados para o público infantil, quase em sua totalidade composto por desenhos animados.
Dentro dos índices brasileiros isso só se torna compreensível dado um atravessamento com a capacidade financeira desse mesmo público de freqüentar um cinema com seu parco orçamento, gasto em sua totalidade para sobrevivência própria e familiar. Isso os aproxima em muito da nossa personagem principal, nossa Preciosa menina. Fica lançada a pergunta se não haveria a possibilidade da criação de um circuito especial que abrangesse essa necessidade, uma vez que acreditamos que o cinema seja um elemento muito importante na atualidade para construção de cidadania e mesmo de um possível bem estar e reconhecimento de si mesmo.Trabalhamos a partir dessa perspectiva e esse filme nos lançou a essa pergunta e de como nossa abordagem sobre filmes e campo psi, poderá acabar se limitando ao público letrado, quase sempre isso ligado a classes sociais bem específicas. Temos os filmes dublados em algumas emissoras da chamada tv aberta e em poucas da chamada tv por assinatura, filmes esses que são reapresentados com muita freqüência e pouca inovação há nessas listas. Vendo “Precious” que nos remeterá à importante tarefa de “se ver”, “se falar”, entrar em contato com outras histórias para compreender a sua própria, pensamos que esse pode ser um importante aspecto a ser abordado e debatido por muitos setores. Fica lançada a provocação!
Devemos evitar nesse texto muitos spoilers para não corrermos o risco de atenuar o grande fator de desconstrução que encontraremos como ponto alto nesse filme. Sofremos essa desconstrução-construção acompanhando Preciosa em sua trajetória. Impossível que não alimentemos no início do filme, a espera na transformação, inclusive física, de nossa personagem que cutuca com maestria alguns preconceitos bastante presentes na construção social. Ela diz: “Queria ser magra, branca, loira”; e assim ela em determinado momento do filme ela se verá frente ao espelho, nos apresentando ao sua imagem idealizada. Preciosa foge da sua dura realidade através de sua potencia criativa, se refugia em devaneios onde de alguma maneira consegue energia para lidar com uma dura realidade que chega a ela sempre de maneira bastante agressiva.
O que protegeu essa menina de não se refugiar para sempre dentro desse mundo mágico? Que força de ego podemos pensar construída nela que mesmo diante de tanto sofrimento causado por uma das suas mais importantes fontes(Freud): o mundo externo, a realidade; não a fez se refugiar em uma construção permanente de outra realidade, uma imaginária, enlouquecendo-a?
O que leva Preciosa a interromper a continuidade do ciclo de violência familiar? Talvez uma tênue ligação com uma avó amorosa que nos é apresentada muito sutilmente, amor que a Sra. Rain resgatará através da linguagem, da possibilidade de nomear e construir um reconhecimento de sua história de vida, apoiando esse resgate nos vínculos que naquela classe especial terão um valor de sanidade não somente para nossa protagonista, mas também para todas aquelas outras meninas, suas colegas de classe e de infortúnios. Essa história que só nos será apresentada, já quase ao final do filme, em uma sessão realizada entre ela, Mary(mãe) e a assistente social, o argumento seria um pedido por uma tentativa de resgate do vínculo parasitário materno, onde essa assistente social, Sra Weiss(Mariah Carey), acabará por promover que sua mãe(Mary Mo’Nique) narre nesse encontro, as lacunas de compreensão sobre aquilo que a construiu enquanto sua sucessão de traumas.
Devemos dizer que o horror que se vê na personagem de Mariah Carey toca profundamente aquilo que nós mesmos, diante da temática do filme, teremos dificuldade de acessar, boa atuação de Mariah Carey, nos dá a clara dimensão de que algumas coisas não possuem palavra possível, traduzindo-se em silêncio, horror e lágrimas. Ali, nesse encontro, já nos momentos finais do filme, nossa personagem constrói uma alteridade possível diante de tantas falhas que suportou ao longo de sua vida(breve) até ali. A sua própria maternidade, de alguma maneira, resgatará essa menina-mulher, dará sopro de vida onde havia antes somente angústia de morte, onde nem a palavra era possível, porque algumas dores quando nomeadas dilaceram e esgotam todas as reservas psíquicas. Preciosa sobrevive inclusive a isso, a vida que agora mais do nunca está marcada pela morte, mas que ainda é a possibilidade que deseja, onde se lança com força e vínculo.
Ao o que esse título do filme nos lança ao final dele? O que é a palavra que corresponderia a “Preciosa”? Seria linguagem, seria esperança, seria alteridade, seria liberdade? Qual seria esse nome que resgata nossa personagem?
Denso filme, realidade a ser encarada, soco no estomago e convite à profundas reflexões e transformações. Preciosa é a vida assim como ela é ou pode ser,escolhas que nem sempre podem ser feitas, mas podem ser transformadas, em uma química que nos parece tocar o quase impossível.