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A Prova[1] (Proof, 2005)

Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps


Apesar de ser um filme lançado em 2005 nos cinemas, “A Prova” chegou sem muito alarde às locadoras brasileiras. Indicado para diversos prêmios (Incluindo o Globo de Ouro - Melhor Atriz em drama - Gwyneth Paltrow), este filme não teve o mesmo impacto junto ao público brasileiro.

Talvez não tenha também grande impacto nas locadoras, pois a leitura da sinopse nos remonta ao já tão conhecido Uma mente brilhante ( A Beautiful Mind, 2001) . O elenco por si só já vende o produto e espero, sinceramente, que isto seja o suficiente para atrair espectadores, pois o filme traz contribuições interessantes sobre Transtornos mentais, que podem ser úteis tanto para profissionais e estudantes, como para os leigos.

A adaptação da peça de teatro (original) para a tela grande já surpreende desde o começo, já se percebe que o filme traz um pouco mais de conteúdo do que os demais. Catherine (Gwyneth Paltrow) conversa com seu pai Robert (Anthony Hopkins), um momento totalmente familiar que passaria despercebido em uma cena simples. Temos então uma reviravolta inicial que para nós, profissionais psi, pode ser de grande utilidade.

A cena em questão traz o questionamento de que “os loucos não se perguntam se estão loucos”, o que nos remete aos conteúdos teóricos de Egossintonia e Egodistonia, um dos princípios diferenciadores das estruturas neurótica e psicótica. Na mesma cena, temos questionamentos sobre a hereditariedade ou não da Esquizofrenia, bem como dados estatísticos sobre o seu aparecimento.

Qualquer leitura de Manual de diagnóstico CID-10 ou DSM-IV-TR, poderá trazer mais luz a esta cena, onde se encontram informações sobre a incidência genética e a interação ambiental e suas influências no aparecimento da Esquizofrenia. Acho ainda interessante terem utilizado a idade “27 anos”, pois muitos autores afirmam que os esquizofrênicos normalmente têm seu primeiro episódio psicótico até esta idade, sendo raros os casos posteriores.

Pronto, então temos uma protagonista psicótica? Não necessariamente. A alteração na sensopercepção que ela tem no início do filme jamais poderia ser interpretada como um surto psicótico. Ao longo da trama, percebe-se que Catherine está passando por um momento de alto nível de estresse e que nessas situações é aceitável que um paciente possa se comportar de maneira intensa e um tanto fragmentada. Assim, podemos entender essa situação como apenas um “episódio”, pois não temos informações de uma anamnese mais detalhada para saber se estaríamos lidando com um surto. É importante que o leitor assista às cenas “extras” do DVD, pois acreditamos que uma delas tenha sido cortada justamente por este motivo. Nesta, Catherine aparece no banheiro conversando com seu pai, levando então, o espectador, a confirmar possíveis suspeitas de que ela, teria “herdado”, a doença dele (reparem que nesta cena ela usa uma expressão matemática para dizer que seu pai  – alucinação visual e auditiva – não é “real”).

O filme tem como tema central o eterno debate entre “Genialidade x Loucura”. Muitos gênios da humanidade foram chamados de loucos, pois suas idéias e criações não eram consideradas aplicáveis, pelo menos naquele tempo. Existem diversas teorias hoje que aproximam estes dois pólos, separados apenas por um corte. Podemos hoje talvez colocar a hipótese de que muitos gênios criam uma tensão muito significativa com seu meio-ambiente até pela forma intensa como percebem tudo que vivem, mas a relação genialidade e loucura, tem sido, muito mais amiúde, descartada como única possibilidade. Encontra-se alguma relação entre artistas e quadros de sofrimento psíquico do que o fato para cientistas e distúrbios psíquicos. Isso foi estudado por Felix Post que se debruçou sobre a biografia de 291 homens geniais.

Entretanto o filme “A prova” não traz somente esta questão. Vemos aí o lado familiar da doença, e em como o conjunto todo sofre com uma única pessoa doente. Sua irmã Claire (Hope Davis) é encarada por muitos como uma vilã ou como o anti-herói quando, na verdade, é mais uma das que sofreu e sofre com as conseqüências de um quadro complexo como era o de seu pai. Poderíamos pensar que cada uma das duas irmãs desenvolveu toda uma estratégia psíquica para lidar com a relação difícil com esse pai. Claire talvez tenha erguido toda uma defesa bastante evidenciada por um apelo excessivo para a obediência às normas, em algo próximo ao que poderíamos pensar como uma “normose”. As desconfianças de que a irmã seria esquizofrênica incentivam ainda mais o medo de Catherine de ter herdado algo de seu pai (O personagem de Claire, apesar de pequeno, também nos traz informações que poderiam gerar debates e interessantes inferências psicodinâmicas de uma possível estrutura limítrofe).

E onde entra o personagem Hal (Jake Gyllenhaal)? O filme não se trata de uma “prova” matemática (como o nome sugere). Muito menos de uma “prova” de amor, como sugere a produtora. Trata-se de uma “prova” pessoal de Catherine, de vencer seus medos, e começar uma vida baseada na confiança de um relacionamento. Uma prova pela qual teve que passar para provar, não só para a irmã e o namorado, mas, para si mesma, que não era “louca” e que poderia levar uma vida normal após o término da relação “íntima, instintiva e simbiótica” que mantinha com seu pai, sem com isso ter que negar a grande vocação que herdara dele para a matemática. Assistimos ao longo do filme toda uma batalha que travará essa personagem entre uma sanidade defendida e uma atuação em direção as suas múltiplas possibilidades. De certa maneira pensamos que ao empreender essa aventura nossa personagem nos apontará para um resgate de traços de identificação que até então eram negados por fortes mecanismos de defesa, medo subjacente: o de enlouquecer.

De certa maneira o filme nos apontará para o quanto de revelações profundas pode conter um surto psicótico e no quanto de loucura poderá existir em uma vida neuroticamente “normalizada” enquanto algum conteúdo por demais banido ou recalcado, na relação mais direta com que Freud aponta em textos como “Mal Estar na Civilização” ou “Moral Sexual Civilizada e Doença Nervosa Moderna”. Sem cair no risco de transformar a loucura em um algo idealizado, porque não deixa de nos mostrar de forma bem crua o sofrimento que inegavelmente existe nesses quadros, por outro não a destitui de sua capacidade de revelar muito do que nos constrói e nos enlouquece em nossa neurótica sanidade. Indicamos aqui também a leitura da atualíssima obra de Joel Birman  a “Mal Estar na Atualidade”, fundamental para que pensemos o que se pontua como “loucura” nos dias de hoje, um outro pêndulo nesse traçado da psiquiatria e as doenças do cérebro nos demarcam com muita força hoje.

Catherine em sua luta nos mostrará todo o traçado da hoje chamada “teoria do afeto”, onde parte do movimento psicanalítico tenta trazer de volta uma questão importante para a sustentação do saber psicanalítico nos dias atuais,  e que Joel Birman descreverá dessa forma:

“Conferir ao corpo e ao afeto um lugar crucial na leitura da subjetividade é também considerar que a prática analítica não é apenas uma escuta do psiquismo, mas uma modalidade de ação. (...). A dita cura psicanalítica implica, pois uma teoria da ação (...)". Enquanto um dos destinos do desejo, a noção de sublimação - "pelas vias da ação sublime e da sublime ação (...)" - deve-se articular às de corpo-sujeito e afeto. Assim é que "a categoria de social se inscreve no discurso psicanalítico e se encontra no horizonte de sua experiência, marcando mesmo o desenvolvimento teórico daquele” (pp. 21/2).(Citado link A)

Podemos pensar em vários gênios artistas que via sua visão nos mostraram uma beleza escondida por padrões aceitáveis de comportamento, não podemos deixar de citar o inigualável Ernest Hemingway, cuja a escrita muitas vezes nos coloca no meio do furacão do pensamento que passeia pelas mais profundas entradas do psiquismo humano. Vale muito a pena ler sua obra póstuma(publicada depois de seu suicídio) “A Ilha das Correntes”.  Outros tantos aqui poderiam ser citados, como o fabuloso artista Amedeo Modigliani, cuja vida foi belamente apresentada em um filme protagonizado por Andy Garcia(vale conferir – “Modigliani: Paixão pela Vida”) ou a própria avareza incomum de Pablo Picasso(também retratado em filme e apontado no filme sobre Modigliani). Citamos apenas alguns exemplos entre muitos outros, alguns até mais conhecidos como o caso de Van Gogh ou ainda do matemático John Nash já citado aqui nesse texto.

A loucura nos remete ao medo, mas há algo nela que também nos fascina, pelas vias da sua capacidade irromper, modificar, que diga nosso documentário belíssimo sobre “Estamira”(ainda escreveremos sobre ele).

“A Prova” filme belo, comovente, com mais uma das brilhantes atuações de Anthony Hopkins, nos leva a refletir sobre todo o caminho que Catherine buscará como resgate desse afeto que traz a marca da identificação com seu pai e com partes dela mesma, capazes de amar, de trazer para sua vida tudo aquilo que a paixão significa como uma “desarrumação”, tanto na paixão por seu pai, como pelo novo vínculo que inaugura com o amor de parceria e, tanto quanto, pelo seu dom matemático. Belo filme, convite a um resgate que cada um de nós, com certeza, tem um pouco a fazer.

 

Link citado:

A - http://www2.uol.com.br/percurso/main/pcs25/psicanaliseilusao.htm

 

 


[1] Artigo Publicado originalmente na Revista Psiquê Ciência e Vida, Editora Escala.

 
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