Ps Eu Te Amo (Ps I Love You, 2008)
Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps
Prepare uma bacia imensa de pipocas e um refrigerante de dois litros. Com certeza você vai precisar se hidratar durante o filme. Não esqueça também de uma caixinha básica de lenços de papel, pois você terá pelo menos 1h40 de choro durante esse filme.
O que é um filme classificado como “Comédia romântica”? É um filme engraçado que tem cenas de amor ou uma historia de amor com cenas engraçadas? São tantos os filmes água-com-açucar que são classificados como deste gênero que fica difícil definir.
Ps Eu te amo é um filme diferente. O elenco, por si só, já atrai o público. Hilary Swank, vencedora de DOIS prêmios Oscar interpreta Holly Kennedy, uma heroína romântica, mostrando sua versatilidade como atriz consagrada em papéis fortes e sofredores. Acompanhada por Kate Bates (Patrícia) como sua mãe e Gerry Butler, o bruto Rei Leônicas do filme 300, mostrando seu lado cômico e romântico como Gerry Kennedy, marido de Holly.
Nossa heroína, Holly, já começa o filme em um surto de raiva e agressividade, se mostrando bastante incompreendida e confusa, em uma briga, que no senso comum, seria chamada de “sem pé nem cabeça”. Sua inconsistência emocional, eterna queixa de incompreensão, dificuldade de expressar seus sentimentos e sua compulsividade por sapatos poderiam nos trazer indícios de traços de personalidade limítrofe (leia-se TRAÇOS). Inferindo sobre nossa heroína, poderíamos levantar a hipótese de que a perda do pai, em idade não bem definida no filme, possa ter sido o “trauma psíquico precoce”, possível desorganizador da sua estrutura de personalidade. (Bergeret).
Entretanto, o ponto mais importante no filme está em nossa heroína sim, mas não na sua possível estrutura, ou anestrutura, e sim, em como o luto é elaborado durante o filme. Sim.....Luto! Não estamos aqui divulgando o final do filme, ou algo que uma simples leitura da sinopse não informa: o filme fala sobre o sofrimento de Holly, que perde seu amado marido após 10 minutos de filme. E é aí então que voce precisará do seu pacotinho de lenços de papel, conforme indicamos lá no início.
Vamos pensar um pouco sobre a família de Holly. Sua mãe fora abandonada pelo marido quando as filhas eram ainda jovens. Se mostra uma mulher “durona” e chefe de família, mas isso não impede sua irmã mais jovem de ir morar no exterior, distante, não só fisicamente, mas também dos conflitos familiares, afinal, libertar-se da autoridade dos pais, nesse caso da mãe, é, além de doloroso, necessário (Freud). Apesar disso podemos notar uma dependência afetiva mútua entre elas, item básico na vida familiar. Com o “desaparecimento” do pai, Patrícia assumiu o papel masculino da família, em um acordo inconsciente de papéis (Meyer)
Holly esta em processo de elaboração de luto, que, obviamente, é um processo doloroso e dispendioso de energia psíquica. Porém, este, pode, em vários casos, se tornar um quadro melancólico, conforme preconizou Freud, no século passado.
Gerry morreu, porem, sua imagem continua presente. Seu cheiro, suas roupas, seus objetos...tudo no presente a faz lembrar constantemente que seu amado esposo um dia ali estivera. Holly faz diversos testes da realidade para se certificar que seu objeto amado não está mais presente (Galvan). É claro que seria fácil “entender” (conscientemente) que seu objeto amado não estava mais “presente”(vivo), porém, o difícil se torna “retirar toda a libido das ligações com aquele objeto”(Freud), para que este processo se finalize e sua libido possa ser investida em novos objetos.
Além dessas presenças físicas constantes, temos no filme a presença das cartas que Gerry deixou para ela, talvez já imaginando, por conhecer a esposa, do trabalho difícil que seria superar a morte dele.
As cartas começam a chegar logo no seu aniversário de 30 anos, uma idade bastante conflituosa para algumas mulheres. Holly está nitidamente entrando em um quadro de melancolia, lutando sozinha contra seus próprios fantasmas. Porém, estes envelopes começam a comandar sua vida, sempre na espera de um outro sinal de seu amado esposo e assim, começam a incomodar sua mãe, Patrícia. Esta alerta para o fato de sua filha estar negando a morte do marido, como se ele ainda estivesse vivo e se comunicando com ela. Talvez Patrícia não soubesse que são essas cartas que salvariam sua filha de entrar em um processo de luto patológico ou melancolia. É através das cartas que Holly consegue fortalecer seu então fragilizado Ego para continuar sua vida.
E é neste cenário que nossa heroína passa por um processo de auto-conhecimento, descobrindo em si mesma pontos fortes e pontos passíveis de fortalecimento que antes desconhecia. Estes estavam encobertos pela dependência afetiva que mantinha em seu relacionamento, com fortes características edípicas, que tinha com Gerry. O objeto amado se fora “novamente”, porem, desta vez, diferente de seu pai, fora bem elaborado, possibilitando assim, o fechamento de um luto real e um luto “fantasioso” (pai).
Referências Bibliográficas
FREUD, Sigmund. Luto e Melancolia. Vol XIV (1914-1915) in: A historia do movimento psicanalítico e artigos sobre a metapsicologia e outros trabalhos. RJ: Imago, 1996
FREUD, Sigmund. Romances Familiares. Vol IX (1909[1908]). RJ: Imago, 1996
MEYER, Luiz. A Família do ponto de vista psicanalítico, in: SANCHEZ, Maria (Org.) Família: conflitos, reflexões e intervenções. SP: Editora Casa do Psicólogo, 2002
GALVAN, Alda. Os mecanismos de defesa na obra de Melanie Klein e Sigmund Freud. Anotações em sala de aula. Ulbra-AM: 2004.
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