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A Educação de Charles Banks
Amor em Tempo de Cólera
A Letra Escarlate
Sem vestígios (Untraceable – 2008)


Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps
 

Filme de suspense policial neste aspecto sem grandes inovações. Como ponto alto dele, iremos encontrar em seu argumento e nos aspectos que podem sublinhar para debates em áreas onde a Psicologia e Informática tentam, juntas, lançar um olhar, naquilo que muitos teóricos nomeiam de cibercultura. Direção de Gregory Hoblit e história e roteiro de Mark Brinker, Robert Fyvolent e Allison Burnett(apenas roteiro).

 
Mais um filme sobre assassinato em série com suas características assinaturas. O que logo chama a atenção é o fato de que teremos que nos perguntar, assim como dentro da lógica da argumentação perversa, quem realmente estaria assassinando as vítimas.



Esse constrangimento de vermo-nos de alguma maneira inseridos na trama e voltando-nos a uma pergunta inescapável: como agiríamos em uma situação como aquela? Em um sentido mais amplo poderíamos até entender sentimentos e identificações encontrados nos movimentos de massa que aconteceram em fatos históricos como o nazismo e outros genocídios que nos assombram ainda hoje ao serem lembrados. Remete à antiga questão que diz de uma participação indireta, de um ver-se apenas como uma parte sem grande importância no desencadear da violência, no filme representado por um simples clique no mouse.



Diane Lane vem bastante diferente de sua personagem no romântico e belíssimo filme “Sob o Sol de Toscana”,  em “Sem Vestígios”, aparece como a agente Jennifer Marsh  que conduzirá o fio dessa história dando a temperatura da tensão crescente que há nesta trama. Entre aquela que olha de fora, investiga para dentro da própria trama, Jennifer nos faz olhar para a complexa teia que o assassino constrói, implicando a todos e plantando perguntas oriundas de uma visão flácida acerca dos ditames morais que sustentam nossos laços sociais.



Jenifer é uma agente do FBI, especializada em crimes virtuais. Seu trabalho é desejado por muitos geeks e jovens usuários de tecnologia nos dias de hoje. Ela tem acesso a muitas tecnologias modernas. Claro que outras agências possuem outros, seu “simples” equipamento gera inveja dos mais digitalizados. Representa o lado positivo da força lutando contra o lado obscuro e sedutor do mundo virtual. Eterno dualismo cinematográfico representando o ideal humano de bem contra o mal, processo de civilização e barbárie.



Toda nossa trama gira em torno do já cliché enredo de crimes virtuais, e uma policial que, colocando em risco a vida de seus entes queridos, resolve medir forças com um criminoso que utiliza a net como válvula de escape de suas perversões. História que você talvez já tenha lido ou assistido em outra roupagem, mas que traz uma questão importante de resgate histórico de comportamento online.


 
Em cibercultura, dez anos são uma eternidade. Tanto se evoluiu tecnologicamente em uma década que historicamente vivemos em cibertempos diferentes. No início percebeu-se uma necessidade de interação social, pautada por uma pulsão inerente ao homem, o de ser social[1]. Os programas mais cobiçados nos anos 90 e início dos anos 2000 eram aqueles que focavam na interação, passando por anonimato e posteriormente pela identificação. Todos passamos a ter “@” e termos representatividade nesse cibermundo, que deixou de ser paralelo há muitos anos. Hoje fala-se em inclusão digital.



Sim, porque no início o virtual até foi paralelo ao real, mas com o passar dos anos, ambos fundiram-se de tal maneira que deixaram de ser entendidos como dois planos distintos com pequenas conexões. Hoje se fundem em um terceiro plano com uma constante dinâmica de comunicação. Não há mais como separar o que é real do que é virtual, on-line ou off-line, presencial do não presencial.



Da mesma forma que os crimes mais antigos da internet estavam relacionados a essa pulsão social dominante, e com isso tínhamos espaço para os perversos atuarem neste ambiente como palco[2].



No ano de 2006 apresentamos em um encontro em São Paulo chamado Psicoinfo, uma iniciativa de discutir temas ligados ao encontro entre Psicologia e Informática, um trabalho sobre um tipo específico de atuação dentro das comunidades psis do Orkut. Observamos alguns manejos com traços muito ligados aos traços perversos, e a utilização de muitos perfis por um único usuário nessa dinâmica entre esses perfis, o objetivo era variado, desde criar tumulto(trollagem) até ao objetivo de atrair pessoas para as mais diversas formas de manipulação, com finalidades múltiplas, desde atuação anônima de intervenções não autorizadas pelo CFP até outros objetivos mais pessoais de controle e assédio.



Nossa policial e sua equipe se mostram cada vez mais rápidos e perspicazes. Se o anti-social é dotado de uma inteligência acima do comum, nossa força tarefa também é, sempre com profissionais altamente qualificados e capazes de medir forças intelectuais com aqueles que resolvem burlar as leis. Neste tipo de batalha o campo de atuação é mais cognitivo do que físico. Traçam perfis e tentam antecipar a ação do criminoso.



O que chama a atenção é que assim como ainda se faz nos dias de hoja, a SEXUALIDADE é utilizada como moeda, como isca, como algo que faz com que esses perversos tenham espaço de atuação nessa esfera virtual. Muito sutil, este filme nos mostra que todas as vítimas desse sociopata foram atraídas, de maneira ou outra, por questões relacionadas com sexualidade. Isso nos remete a fenômenos virtuais tão recentes que merecem ser citados e ainda mais profundamente pesquisados.



Nos dias de hoje, bombardeados pela mídia e pelo desejo de reconhecimento imediato, seja de talento, seja da sua sexualidade, há uma busca frenética por aquilo que se almeja. Todos querem os famosos minutos de fama, custe o que custar. Essa busca pela saída do anonimato é encarada dentro do contemporâneo como quase a própria existência ou inexistência do ser. Pasteurizados por um social que busca cada vez mais anular as diferenças, as singularidades, talvez se encontre nessa busca uma quebra dessa tendência. O virtual é o palco onde essa luta vem se realizando de maneira cada vez mais avassaladora.



Esse desejo quase que coletivo leva a situações expositivas ao extremo, como a que presenciamos esporadicamente em reality shows e campanhas publicitárias. Todos querem ser vistos e há uma satisfação tanto naquele que se mostra, como naquele que se vê no que é exibido. Nosso filme abordará estas questões, gerando uma crítica pesada sobre aqueles que detêm as decisões sobre os veículos de comunicação. Censura jamais, mas responsabilidade em veiculação de notícias sim.



Chegaremos em breve aos dias onde transmissões de assassinatos hediondos serão feitas ao vivo? Abrimos espaço para uma pulsão escópica perversa que nao terá mais limites?



Temos hoje uma pulsão que move esses internautas, e não parece ser mais aquela de cunho social. O narcisismo toma conta do virtual e ser visto é mais importante do que trocar e interagir. As mídias sociais em grande crescimento incentivam o se “mostrar”. Criou-se o termo “webcelebridade”.


 
Estamos muito mais próximos do cenário perverso proposto pelo filme do que podemos imaginar.  Sites como chatroulette, 4cam e twitcam incentivam seus usuários a se exporem, das mais diversas maneiras possíveis. Desde exposições eróticas até uma simples brincadeira entre adolescentes que se mostram na webcam, sem terem consciência do poder de alcance que aquelas imagens podem ter. Recentemente tivemos alguns problemas legais no país, quando dois jovens simulavam sexo online para alguns usuários do twitter. As consequências legais mobilizarem a web por diversos dias, levantando a polêmica sobre o que os adolescentes fazem nos dias de hoje. Também poderíamos citar episódios que envolveram bullying e ciberbullying, onde a capacidade gigantesca da internet foi utilizada para ataques e divulgação de conteúdo cujo único objetivo era atacar quem aparecia nesses vídeos. Alguns outros, a partir de fenômeno espontâneo, onde vídeos de situações específicas acabam ganhando esse contorno de ironia, não temos dados sobre os prejuízos ou benefícios que podem ter trazido para a vida dos envolvidos(ex: “aham Cláudia, senta lá”, “fala, Sonia” e outros). Tudo isso se espalha de forma muito rápida pela rede invadindo o mundo off-line.



Nosso perverso do filme é fruto daquilo que o move. Vítima dessa busca midiática por audiência constante, acaba por utilizar a mesma para expandir sua perversão, moldando uma argumentação onde sua perversidade quer assumir um contorno de denúncia. Ao final, se torna  “apenas mais um” no meio de tantos que ainda estão por vir. Na cena final do filme, preste atenção na ultima fras, onde se lê “Onde posso baixar esse vídeo? “, que nos remete a idéia de que a perversão online ainda tem muitas facetas e veio para ficar, cabendo as autoridades encontrarem melhores maneiras de lidar com elas e nós profissionais, a identificarmos maneira de nos protegermos destes. Cabendo também uma reflexão permanente em nosso mundo fora da rede: somos peixes ou predadores, compartilhamos com qual sentido, qual é a meta?


A violência da qual o humano é capaz, mais uma vez invade o progresso ao qual alcança. A grande selva que sempre foi o mundo, faz-se representar com vigor no chamado de “mundo virtual”....



Mas, como tudo mais que diz respeito ao processo humano, cabe ainda alguma esperança, afinal a conectividade veio para ficar, diminuindo a distância e tornando o planeta bem menor em termos de troca de informações. A grande rede tem também sido utilizada para fenômenos bastante produtivos e positivos, como sempre, cabe a cada um de nós, escolher pelo clique que mundo queremos. Esse filme é sem dúvida nenhuma uma reflexão acerca disso.


 

 

 

 


[1] Pesquisa sobre o Orkut, publicado em 2006

[2] Artigos sobre perversos no Orkut - http://www.cinematerapia.psc.br/perversoorkut.html
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