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| Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps
As cores do sentimento
O filme Séraphine narra a história de uma pintora francesa que acaba sucumbindo à loucura depois que seus quadros não puderam ser expostos, face à Depressão econômica temporal
Filme ganhador do César 2009 que na França corresponde em importância ao Oscar americano. Direção de Martin Provost, trazendo no elenco Geneviève Mnich, Yolande Moreau (Séraphine), Anne Bennent, Ulrich Tukur(Wilhelm Uhde), como principais personagens. Estreou em França no ano de 2008. Narra a vida da francesa Séraphine de Senlis (1864-1942), que trabalhava como faxineira para sobreviver e comprar material para pintar suas telas. O filme passa contemporâneo ao sucesso de Picasso e nos leva a quem teria sido um dos seus primeiros compradores, o Marchand, colecionador e crítico de arte Wilhelm Uhde, apaixonado por artistas com novas potencialidades. Colecionador dos quadros de cubistas como Picasso e Braque, refugia-se em um momento de crise em uma casa de campo, onde Séraphine trabalha fazendo faxina e ao acaso vem a conhecer uma pintura que ela havia feito e deixado com sua patroa e locadora de Uhde nessa casa. Essa obra que o levará ao encantamento e curiosidade em relação àquela estranha criada que pintava flores, frutas e a natureza, em um estilo que foi considerado arte naif, mas que o personagem de Wilhelm Uhde nos diz no filme preferir chamar de pintura primitiva. Informações mostram-nos que em 1928, o colecionador e teórico alemão Wilhelm Uhde (1874 - 1947), co-protagonista nesse filme, organizou uma exposição de arte naïf em Paris, reunindo obras de Rousseau, Luis Vivin (1861 - 1936), Séraphine de Senlis (1864 - 1942), André Bauchant (1837 - 1938) e Camille Bombois (1883 - 1910).Séraphine é uma personagem dona de uma personalidade entre servil e absolutamente indomável que convida-nos à caminhar com ela, explodindo finalmente nossas sensações com a visão de suas telas. Nos leva a questionamentos sobre a arte não somente como talento, mas como algo artesanal, trabalhoso, exigindo dedicação desde o seu preparo. Mas vamos deter-nos um pouco em aspectos que poderiam interessar-nos a partir do humano, não diremos somente da psicologia, porque aqui até nossas noções do campo psi precisarão ser desmontadas para que possamos acessar nossa personagem. Fácil seria fazer a conhecida ponte entre loucura e genialidade, mas diante de Séraphie isso resultaria no mínimo em mediocridade e mesquinharia. Essa mulher que conquistou o mundo sem sair do seu “lugar”, que amplia espaço e conhece a liberdade do pensar sem arredar pé do seu lugarejo, apenas enfeitará seu modo de vida, igualmente a como a amplidão que suas telas ganharão no correr dos anos. Dois metros, ela pede que tenham suas telas, ao retomar seus contatos com Wilhelm Uhde no pós Primeira Grande Guerra, onde até então, seus contatos com Uhde haviam sido interrompidos. A arte é liberdade, existe um pensamento que se solta e é livre, essencialmente livre. Sua arte é livre como os pensamentos oriundos de um inconsciente sem barreiras. Vem à tona de maneira direta, sem entraves. Sentimento de abandono Séraphine busca a saída do desamparo pela apreciação da sua produção, pede que digam se gostam ou não de seus quadros, esse detalhe, pensamos que seja importante sublinhar, ela em nenhum momento pergunta se a arte dela é boa, pergunta se o outro gosta e nós aqui do outro lado da tela, espectadores da sua arte que invade-nos despertando uma forte e vívida emoção, avassaladora mesmo, entendemos de alguma maneira essa pergunta que ecoa em todos nós, nossas marcas pelo mundo. Quando Wilhelm tem que partir rapidamente por conta dos avanços da guerra que chegariam em breve ali naquela região, tudo que Séraphie pode pensar ao sentir o abandono é dito: “-Você não gosta mais das minhas pinturas?”. Esse caminho da arte como o caminho da comunicação das almas, um encontro que transcende os indicadores sociais, culturais, de classe ou até de línguas. A arte como o caminho para o encontro com algo da possibilidade humana que cada um de nós “encerra” dentro de si mesmo. Caminho esquecido e que são tocados quando nos impactamos frente a uma grande obra de arte. Séraphie tem essa capacidade de “chave”, e o filme que Martin Provost apresenta-nos, traz em si esse encantamento, essa possibilidade de suspender por um bom tempo nossa racionalidade e remeter-nos à emoções profundas, misturadas, belas e potentes. O roteiro desse filme é também assinado por Marc Abdelnour, além de Provost. Teremos poucas informações sobre nossa personagem antes daquele período, ela apenas repete que não tem ninguém, e conta que quando trabalhava em um convento “um anjo da guarda lhe apareceu e a mandou pôr-se a pintar”, hábito que desenvolve sem saber o porquê, nessa necessidade quase visceral de representar algo ali em suas telas repletas de cores e formas, orgânicas até pela maneira como prepara suas tintas, detalhe que o filme nos mostra com sutileza e beleza. Abate-se sobre a tela seu caldeirão pulsional. Há uma cena no filme onde isso se faz representar em imagem, linda passagem, ela adormece em torno da obra que completa, exausta e plena. E vem a Depressão, no filme atravessa dois sentidos, a loucura de Séraphie que evolui em uma bela metáfora, espera realizar sua arte, torná-la pública, representa esse desejo pelo ritualístico do casamento, onde anjos prometeram-lhe comparecer. A crise econômica impede que essa exposição onde seus quadros seriam apresentados possa logo realizar-se, e impedida de assinar-se ao mundo, não resta à Séraphie outro caminho que não seja o intenso retorno pulsional, o enlouquecimento que a joga, mansamente, em um manicômio onde viverá até a sua morte. Sua voz calada transforma-se em seu sofrimento, seu choro, sua raiva que podemos remeter a uma passagem onde quando soube da primeira partida de Uhde e que enfurecida fala a ele e este ordena que ela não utilize aquele tom com ele, ao que ela responde: “-Em que tom julga que me falam desde que nasci?”. A mulher, órfã, pobre, louca, esse era seu lugar do qual irrompe com sua arte. Mulheres de tempo Mais do que uma obra biográfica o filme encaminha-nos a pensar sobre a vida, suspensa mesmo do tempo cronológico e inscrita no devir que marca a todos nós. Existiu uma mulher que durante vinte anos se relacionou com o colecionador Wilhelm Uhde e pintou telas da chamada arte Naif de um valor reconhecido ainda na atualidade. De outra forma podemos também dizer que existiu um ser, mulher, no início do século passado, marcada pela opressão, abandono e pobreza, que elevou-se, acima de sua insígnia social invadindo o mundo com cores e formas impossíveis de não serem vistas, como se passasse o marcador por cima do texto da vida mostrando o quanto deixamos de ver ao não vê-la, a retornar a vida para tão somente o que é consciência, praticidade e cartão social. Sua loucura, nossa loucura, dores quando não podemos representá-las, isso marcará o desaparecimento de Séraphie que não entendeu que sua linguagem estava no devir, que ali para sempre haverá um lugar para ela, não mais invisível, não mais apenas vivendo da marca do seu desamparo. Talvez possamos pensar que em todo enlouquecimento há essa escolha, essa possibilidade que Séraphie chegou a tocar, a inundar com alegria nossas vidas, que cegos a ela, a deixamos em seu desamparo, em sua dor e angústia, em seu abandono e silenciar. É preciso que tudo seja dito, é preciso representar. Escutar as vozes dos anjos. Belíssimo filme, não precisa ser útil ou indicado para nada, assim como a poesia, a pintura, a escultura etc não devem ser a princípio útil para coisa alguma, assim é esse filme, arte, representação. Encantamento! O FILMETítulo original - SéraphineGênero – Drama Direção - Martin ProvostDuração – 2h05minAno de lançamento - 2008Distribuidora - Atalanta |  |
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