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| O sexo e a cidadePor Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps Os filmes Sex and the City levaram ao cinema a complexidade do olhar feminino, do ser mulher e das relações entre gêneros, mais que isso, levantaram reflexões sobre a amizade e amor entre as mulheres Sapatos com os formatos estranhos, roupas coloridas, cabelos muito bem escovados, maquilagem perfeita, independência financeira, neuroses, futuro e conflitos. Tudo isso mesclado gerou a receita que deu origem ao livro de Candace Bushnell e também manteve “Sex and the City” no ar por várias temporadas no formato de seriado. O figurino é deslumbrante e ousadamente fascinante. Uma verdadeira propaganda de marcas que remetem ao status quo dentro da estrutura social que retrata e que nos marca a todos no intricado jogo de papéis, classe e busca de lugar. Iniciamos nosso texto sobre esses filmes a partir da constatação de que seria interessante sermos uma mulher e um homem escrevendo sobre roteiro e personagens que trazem como meta abordar o universo feminino. Obviamente que trata tanto a série como os filmes feitos a partir dela, de um recorte muito particular desse universo, abordar-se-á neles mulheres novaiorquinas, cidade que sabemos que tem predominantemente uma característica de passagem, será muito bem destacado esse aspecto no primeiro filme, através da personagem coadjuvante, a assistente pessoal contratada por Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker). Nova York com suas características de cidade de trabalho, onde de alguma forma seus moradores buscam maneiras em grupo de sair da solidão, isto também é indicado em muitos momentos ao longo da película. A questão da amizade amarra tanto o seriado quanto os filmes de uma forma esperançosa, embora deixe de apontar conflitos que marcam também, dentro do universo feminino, a relação de intimidade, quase sempre também investida por uma rivalidade sutil.O que veremos nessas personagens ficará marcado por algo muito próximo de estereótipos, mas que por meio dessa intenção, levantará reflexões sobre o papel dessa mulher no mundo a partir de relações bastante contemporâneas. Porém, diríamos que muitos dos temas expostos extrapolam a questão de gênero, como os que remetem à solidão e dificuldade das relações na atualidade. Pensamos que o espanto frente às modificações que essa relação sofreu no século XX intriga tanto o mundo masculino, quanto o feminino, que buscam ainda encontrar-se entre as velhas e antigas expectativas e toda gama de possibilidades que foram conquistadas.Podemos pensar que a mulher passa a ter sua autonomia mais marcante a partir do momento que toma conta da sexualidade, que a entende como algo que a constitui e sobre a qual tem direito. As mudanças econômicas e a chamada do mercado de trabalho para sua inserção colaboram para todas as modificações que marcam as mudanças de papéis de gênero. A subordinação do feminino ao masculino, sofre então, importantes modificações.As personagens e seus vínculosApesar da estereotipia das personagens, há momentos nos filmes onde algumas cutucadas importantes são dadas e que falam da relação entre os gêneros. O casal principal do primeiro filme, Carrie e Mr Big, leva-nos a refletir sobre o amor que se rende às expectativas que remontam bem mais à solicitações do social e construção de imagem do que propriamente as necessidades dos vínculos amorosos. O quanto também em algum momento, para que uma relação amadureça terá que perdoar ao outro por não ser àquele que se encaixa em expectativas projetadas.Nossas quatro personagens remetem a diferentes vínculos, diversas possibilidades de investimento da libido e da importância dos vínculos de amizade que as sustenta todo tempo no atravessamento de suas crises vivenciais.Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker) é o sonho de muitas adolescentes modernas. É a mulher de sucesso que investiu em sua carreira. Cada investimento deste trouxe também, claro, conflitos, adaptados a esta modernidade de seu cotidiano. Exerce a catarse na sua coluna, onde milhares de leitoras se identificam. É a líder do grupo, ou, do seriado e dos filmes. Aparentemente mais estável afetivamente, apesar de suas eternas compulsões.Charlotte York (Kristin Davis) É a mais recatada verbalmente. Seus ideais e sonhos são diferentes, ainda românticos. Podemos dizer que é mais recatada do que as demais, e tem esperanças quase como “pollyana”. E como sonha esta personagem! Esta talvez fosse analisada por Freud, e, por manter ainda algumas questões tão enraizadas na neurose, seria uma boa candidata. Precisa proteger sua vivência de perfeição, tem medo de doenças, contaminações etc, não chega a se constituir em sintoma, mas como traço de caráter fica sempre ali no limite.Miranda Hobbes é conflito! Aparentemente é a que vivencia mais conflitos, quando na verdade é a que os mais os externaliza, verbaliza e representa com mais clareza. É rígida, congelada, neurotizada por um predominante funcionamento do superego. Não se permite muitas coisas e também encena os aspectos mais superegoicos do grupo.Samantha (Kim Cattrall) seria a modelo idealmente analisada por Freud. Seria o gozo do bom velhinho! Libido pura e sem superego ou permissiva. Samantha é puro desejo, se assume como tal e paga seu preço. É dominada pelo seu funcionamento pulsional que remete aos impulsos do Id, mas não em uma maneira psicótica, e sim concretamente sexualizada. É a expressão da libido pura, que busca a satisfação sem muita capacidade de adiamento ou sublimação, com um superego flácido, mas não perverso. Faz o que deseja sempre. E como deseja!Talvez esta personagem fosse a que mais proporcionaria material para análises, visto que não tem nenhum pudor em realizar e verbalizar todas as suas fantasias. Ao mesmo tempo nos remete a possibilidade da mulher aproximar sua sexualidade do ideário masculino. Ao fazer isso restará sempre a pergunta se isso seria algo satisfatório ou apenas um rito de passagem. Ao término do primeiro filme, saindo da uma relação de quase seis anos, ela nos brinda com algo que suplanta, mais uma vez, questões de gênero, mas que as evidencia fortemente por ser pronunciada pela boca de uma mulher, diz ela: “Não é que eu não te ame, eu amo, mas acontece que eu amo mais a mim e é comigo que convivo há 49 anos”.Passo importanteDe tudo se falou um pouco nesse seriado ou nesses filmes. Quase todas as fantasias, manias, pavores e medos, anseios, dificuldades, questionamentos, posicionamentos. Muito próximo da complexidade da psique feminina e por isso tantos episódios e tanta resposta positiva durante anos.Interessante observar o movimento que o filme trouxe das telas para as salas de cinema. Houve um regaste social neste momento do que é a “amizade entre mulheres”, em uma maneira saudável para todas. Muitos grupos de amigas se deram a possibilidade de viver um momento “girlie” simaultaneamente no cinema e na vida real. O que as feministas mais radicais diriam deste filme? Camile Paglia, feminista atual, declarou algumas vezes ser favorável a alguns episódios ou personagens, e reconheceu a importância desse seriado-filmes. Nem tudo são Flores no reino de Carrie. Até porque, independente da visão estereotipada e fragmentada do universo da mulher, ousou ao tentar falar e compreender algo que poucos diretores se aventuram, somente os mais conhecidos como cults puderam cometer tal ousadia em clássicos como “La Belle de Jour”, as complexas personagens de Almodóvar, o consagrado Bergman com “Gritos e Sussurros” e alguns outros tantos.Esse seriado e filmes trazem uma tentativa reconhecidamente ousada ao terem como demanda de público a fala da mulher atual, contextualizada, então de alguma maneira, cumprirão sua meta. Tanto para as mais adaptadas ou conservadoras, quanto para as mais questionadoras ou feministas, há uma possibilidade de reflexão. E conseguem comover e fazer sorrir.A questão da amizade amarra tanto o seriado quanto os filmes de uma forma esperançosa, quase sempre também investida por uma rivalidade sutilPodemos pensar que a mulher passa a ter sua autonomia mais marcante a partir do momento que toma conta da sexualidade, que a entende como algo que a constitui e sobre a qual tem direito“A mulher só tem essas duas opções? Bruxa ou gata sexy?”(Fala a personagem Miranda à Sarah na loja de fantasias para Halloween) |  |
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