Cinematerapia®
Entendendo Conflitos
Sicko

SICKO[1]

(Sicko, 2007)

Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps

Sinopse

Trailer

A cada ano milhares de profissionais deixam  os Centros Universitários pelo país, sedentos por um espaço no mercado de trabalho. Você ou já passou por isso, ou passará. O tão almejado diploma está nas suas mãos...e agora, onde trabalhar?

Se você é estudante de Psicologia ou de outro curso da área de saúde, provavelmente passou 4, 5 ou 6 anos na universidade, sonhando com o término do curso. Porém, quantos de nós estão preparados para atuar no Sistema Único de Saúde? Muitos sonham com o “consultório dourado”, cheio de pacientes e muito trabalho. Mas a realidade é diferente e “corta” esse sonho.

Muitos fazem concursos, e, ao iniciarem as atividades, se deparam com algo “novo”. E agora, o que fazer? Como atuar numa área tão diferente da qual fomos preparados? Os hospitais não se parecem com os dos programas de TV, os atendimentos nos corredores de hospitais muitas vezes não atendem os requisitos básicos aprendidos na faculdade. Muitos medicamentos, equipamentos e instrumentos não são providos, ou estão “em falta” (eterna). A população urge por atendimento, e os profissionais por melhorias nas condições de salário. Que panorama mais caótico!!!!

Entramos aqui em uma questão então de Saúde Pública. Sim, atuar nesta área exisge conhecimentos específicos e muito...mas muito “jogo de cintura”. Além dos conhecimentos teóricos você deve estar preparado para adentrar em um campo no qual nao estudamos em saúde: politica. E entenda aqui por política no sentido comum, mas também de políticas públicas, politicagem, jogo político e muitas vezes “sujeira”. Você, estudante ou profissional de saúde, sabe como funciona o SUS? Tem conhecimentos sobre a política de saúde nacional?

A resposta da grande maioria será “não”. Somos todos, então, preparados para atuar onde? Não há espaço no mercado de trabalho para tantos consultórios particulares. O que acontece com um profissional quando adentra um sistema de saúde do qual não tem o menor conhecimento do funcionamento? A resposta, todos nós conhecemos. Se você acha que está preparado para o mercado de trabalho, sem este conhecimento, você está enganado.

Em pesquisa recente, acessamos todos os sites de instituições autorizadas pelo MEC, a oferecer o curso de Psicologia, nas suas mais variadas formatações (Licenciatura, Bacharelado e Formação). Felizmente, muitas universidades, principalmente particulares, incluíram disciplinas de Saúde Coletiva, Saúde Pública e outras direcionadas para atuação no Serviço Público. Como este não era o foco da minha pesquisa, esses dados não foram tabulados quantitativamente, mas dá pra notar uma mudança neste panorama.

É bem provável que você, leitor deste, tenha plano de saúde particular, coletivo, federal, ou qualquer serviço de assistência médica. Correto? É bem provável também, que já tenha utilizado este serviço. O que achou? Teve dificuldades? Necessitou de “aprovação” prévia para uma simples consulta médica, por exemplo? Conhece alguém que utilize o Sistema Único de Saúde? Já foi a um “postinho” em busca de atendimento? Como foi tratado?

Este artigo é que o que denimonamos “Cinameterapia Reflexiva” e tem como objetivo gerar questionamentos e proporcionar material para debates, seja entre alunos, entre profissionais ou mesmo em sala de aula. Perguntamos:

O que você acha do NOSSO sistema de Saúde?

Você, cidadão ou profissional,  precisa entender que Saúde Pública é Saúde Coletiva, entender de Saúde e Gênero,  entender sobre “direito sanitário”, além de entender um pouco mais de políticas públicas. Este conhecimento serve tanta para que possa buscar seus direitos quanto para a atuação profissional. Já dá para perceber que “passar no concurso” público é apenas o começo de uma longa jornada de aprendizagem.

Comece a se interessar pela questão pública e pergunte a um usuário do SUS o que ele pensa do Sistema, e você se surpreenderá. Vá até um posto de saúde da comunidade mais próxima e verifique se, aqueles que deixam o posto, estão satisfeitos. Faça o mesmo em um hospital público. Você verá que as respostas variam de acordo com o local onde o serviço foi prestado. Não se surpreenda também, se aqueles atendidos pela Estratégia de Saúde da Família não souberem que esta faz parte do SUS. Sim....virou quase que uma constante brasileira falar “a saúde está ruim”, mas a ESF têm mudado alguns conceitos, sem, muitas vezes, ser percebida como parte desse Sistema. Acostumamos com coisas mal providas e quanto temos melhorias fica difícil associar ambas.

Estes usuários não serão “apenas” seus pacientes, mas sim, colaboradores. Trabalhar em saúde pública vai muito além do “simples” diagnostico, intervenção e prognóstico. Este trabalho envolve prevenção e desenvolvimento de autonomia[2] dessas pessoas. Seu trabalho não será “restrito” a uma salinha no posto de saúde ou em um hospital. Você precisará se envolver mais, se doar mais, participar ativamente daquela comunidade. Você assumirá um papel social importante, e não “meramente” um cargo de trabalho. Se sua formação foi totalmente focada nas questões instrumentais médicas, voce terá que “se virar em dois” e resgatar muito do seu lado humano e social. Ler bastante sobre psicologia social (independente da carreira). Converse, e  muito com os assistentes sociais, psicólogos comunitários e sociais. Estes podem te dar importantes dicas que como trabalhar com esta população. Você vai precisar também conversar com pedagogos. Sim, são eles que entendem de educação, e atenção primária também é uma questão educacional. Logo, será preciso “descer do salto alto do modelo medicocêntrico” (isso vale para todas as profissões) e interagir  com outras áreas do conhecimento humano.

Quando uma pessoa é empregada numa empresa privada, uma das informações que é repassada logo no início são aquelas questões bem organizacionais: “missão”, “visão”, “valores” e “princípios”. Muito bonitos e teóricos, mas e na Saúde Pública? Quais a missão e visão?

Como surgiu esse sistema todo? O SUS completou 20 anos em 2008, mas quem criou? Como criou? Porque criou? Como era antes? Para isso, você precisa recorrer a “Sociologia da Saúde”[3] e entender todo o movimento social que deu origem a este sistema no formato atual. Aproveite para estudar o histórico da saúde coletiva[4] que não é tão “recente” assim. Talvez você não tenha vivenciado, pela idade, os movimentos históricos ocorridos no Brasil no século passado e ficará muito mais fácil entender o “hoje”, sabendo como foi o “ontem”. A história é essencial para uma análise crítica do presente.

Supondo que seu interesse continua, imagine um cenário diferente. Você paga mensalmente por um plano de saúde privado e, infelizmente, apresenta complicações de saúde e precisa utilizar o serviço.  Você é levado desacordado a um hospital particular, credenciado ao seu convênio. Após ser atendido e internado, você passa por uma cirurgia. Depois de alguns dias de internação você é liberado e vai para casa se recuperar. Para sua surpresa, alguns dias depois, quando você necessita, por orientação médica, ficar em casa e descansar, você recebe uma carta ou um telefone, informal, avisando que a conta do hospital, de milhares de reais, não será paga pelo seu seguro, e o problema é “seu”. A desculpa utilizada é a mais absurda do mundo, com dezenas de alegações infundadas. E agora? Como pagar?

E se você não tiver plano de saúde, o que irá acontecer? Nos EUA, a resposta é simples: você morrerá!

Esta é também a realidade de milhões de americanos, que pagam mensalmente por um serviço que jamais poderão utilizar. Quando mais precisam, têm seus pedidos negados. Os que não podem pagar,  ficam a mercê da própria sorte. (salvos alguns poucos casos cobertos pelo sistema chamado Medcare, que não têm cobertura total).

E se você estiver não Reino Unido, França ou no Canadá, o que acontecerá? Michael Moore nós dá a resposta: você receberá atendimento integral, em todos os níveis. E quanto você pagará por isso tudo? Nada! Se você estiver de férias nos EUA e passar mal, talvez seja mais barato você voltar ao Brasil, do que ser atendido por lá.

Qual a diferença entre o SUS e estes serviços? O que é público e o que é privado? Como podemos comparar estes dois? Como saber qual deles tráz melhores resultados? A literatura específica pode te dar a resposta.[5]

E aqui? Como anda a nossa “Saúde”? O que é provido pelo Estado e o que é fornecido pela iniciativa privada? Quanto é gasto e saúde, no nosso país, por cada cidadão? Como estamos comparados aos demais países?

O cineasta Michael Moore dá mais um “soco” no ponto fraco de centenas de políticos americanos, ao apresentar ao mundo o caos em que se encontra a situação da saúde no seu país. Com seu histórico de documentários polêmicos, ele presta mais um serviço a sociedade americana, ao mostrar para o mundo algo que todos os cidadãos deste país já sabem: o sistema de saúde está caótico. Hillary Clinton tentou, mas foi derrotada pela estratégica política mais comum nos EUA: o medo do “socialismo”. Quem sabe Michael consiga vencer agora...

E para os demais países, qual a utilidade deste documentário? Ao apresentar o sistema de saúde americano, comparando com os sistemas Britânico, Francês e Canadense, Michael nos apresenta duas possibilidades, e proporciona a reflexão: Onde NÓS queremos chegar?

Citamos aqui M.Testa, que faz referência a Alice nos País das Maravilhas, de Lewes Carrol, quando esta conversa com o Gato:

“Podes dizer-me, por favor, que caminho devo seguir para sair daqui?

  Isso depende muito de para onde queres ir - respondeu o gato.

  Preocupa-me pouco aonde ir - disse Alice.

  Nesse caso, pouco importa o caminho que sigas - replicou o gato”

Em 10, 15 ou 20 anos, se você, ou alguém próximo, precisar de auxilio médico, que tipo de atendimento você quer que esta pessoa receba? O Americano ou o Britânico? Aqui fica a pergunta: onde você, cidadão e profissional de saúde, quer que o seu Sistema de Saúde chegue? É hora então, de por a mão na massa e tomar conta de algo que é seu.Temos um Sistema de Saúde inovador, mas precisamos saber usá-lo, e antes de tudo, exigir que ele seja cumprido!

 

Sugestão de leitura:

CAMPOS, G.W. de S. Tratado de Saúde Coletiva. RJ: Hucitec, 2008.

 

Sugestão de atividade (para professores):

Questione seus alunos sobre a utilização do serviço público. Instigue eles a refletirem sobre a frase “O SUS é GRATUITO”. Quem paga a conta gerada pelo nosso serviço de saúde? Promova uma aula de recapitulação sobre assuntos trabalhados em outras disciplinas relativos a saúde coletiva, da família ou saúde pública. Promova um “Brainstorm” sobre o SUS e seus componentes, bem como sua criação.

Apresente as Leis Orgânicas Lei 8080/90 e Lei 8142/90 e debate sobre o momento histórico no qual o SUS foi criado. Identifique o que os alunos sabem sobre a atuação direcionada a estes usuários. Polemize sobre o tratamento e a relação existente entre profissional e cliente-paciente nos ambientes privados e públicos. Instigue a reflexão sobre a postura profissional correta.

Procure, dentre os estudantes, aqueles que vivenciaram o período “pré-sus” e peça para que relatem aos mais jovens como era a saúde nas décadas de 70 e 80. Depois, distribua os mais variados textos da obra mencionada nas referências e divida entre grupos de 3 ou 4 alunos. Sorteie o temas, desde Saúde Mental até Epidemiologia. Promova uma aula de Estudo Dirigido, com posterior debate.

 



[1] Texto publicado originalmente na Revista Psique Ciencia e Vida da Editora Escala

[2] CAMPOS, R, CAMPOS, G. Co-construção de Autonomia: O Sujeito em Questão. In: CAMPOS, G eta all, Tratado de Saúde Coletiva. Rio de Janeiro: Ed. FioCruz, 2006

[3] NUNES,E. Sociologia da Saúde. In: CAMPOS, G eta all, Tratado de Saúde Coletiva. Rio de Janeiro: Ed. FioCruz, 2006

[4] NUNES,E. Saúde Coletiva: Uma histõria Recente de um passado remoto. In: CAMPOS, G eta all, Tratado de Saúde Coletiva. Rio de Janeiro: Ed. FioCruz, 2006

[5] CONIL,E. Sistemas Comparados de Saúde. In: CAMPOS, G eta all, Tratado de Saúde Coletiva. Rio de Janeiro: Ed. FioCruz, 2006