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Tropa de Elite 2 (2010)



Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps
 
 
Eu não posso negar eu gosto de guerra. Pra mim só vive em paz quem aprende a lutar(Capitão Nascimento)

 

****

 

Depois do sucesso de público do filme Tropa de Elite, retorna às telas o Capitão Nascimento, agora na continuação dessa saga. Despido da farda irá nos apresentar aos bastidores do poder que formulam as políticas de segurança pública.

 

Veremos o filme com o mesmo olhar cheio de dúvidas que retrata o personagem do filho do Capitão Nascimento, dividido entre os conceitos trazidos a ele pelos dois opostos que se depositam nas posturas de Fraga, defensor dos Direitos Humanos, novo marido de sua mãe e Nascimento, seu pai, ex comandante das tropas do BOPE e agora sub secretário encarregado do setor de Inteligência. Crescemos com ele ao longo do filme, partindo da velha divisão bem contra o mal  e chegando ao fim perplexos pela dificuldade que os fatos trazidos ao longo da película, levam-nos em incertezas, para a dura tarefa de localizarmos um ou outro.

 

O que pensar de um Estado cujo símbolo da polícia é uma caveira, morte?

(fala do personagem  Diogo Fraga defensor dos Direitos Humanos que negocia com os presos)


O filme que poderia ser colocado entre o chamado de filmes de ação, vem de tal maneira emaranhado com fatos reais do noticiário razoavelmente recente que chega a ser quase um documentário, não fosse a dramaticidade dos personagens talvez víssemos como a um telejornal.

Quase que em sua totalidade as cenas são duras, destituídas de qualquer busca de beleza, nua e crua realidade que se esconde por detrás de muros, de onde as classes mais favorecidas só recebem notícias distantes pelo noticiário local ou por seus empregados. Entramos no mundo das comunidades menos favorecidas da periferia do Rio e das favelas no alto dos seus inúmeros morros.

O filme nos mostra toda uma mudança importante que se deu na estrutura do crime na última década na maravilhosa cidade do Rio de Janeiro, cartão postal que evita olhar para suas paisagens menos belas, não sendo isso muito distante do que faz o restante do Brasil com sua realidade que tenta esconder em discursos de legitimação da segregação e exclusão social. A paz reina, sentada em um barril de pólvora, sempre prestes a explodir. Qualquer tentativa de diminuir essa tensão é tomada como ameaça por uma elite acostumada a ver como natural uma gama de privilégios sem fim. O que foge e por identificação busca o capital, encontra como caminho a supervia do crime organizado. Os cidadãos de bem se fecham em verdades inventadas e repete-se então, o bordão, dito por Nascimento:


O que acontece é que para a população bandido bom é bandido morto.


O sangue dos excluídos é transparente nesse Brasil quase líder mundial em desigualdades e distribuição de renda. Varre vassourinha, lavou e tudo volta ao seu lugar.

Os moradores da periferia e favelas convivem com a violência do cotidiano, tentam proteger-se e a seus filhos, atraídos para a morte pelo trabalho no narcotráfico. A população jovem pobre que morre por violência ultrapassa a outros países em estado de guerra.

Cercados por grades e câmeras de segurança a classe média se esquiva no meio desta guerra. E é isso que esse filme nos mostra sem piedade, que estamos em meio a uma guerra sem nome, ainda com fronteiras definidas para seus ataques. Até quando? Não sabemos, embora possamos sentir seus sinais de aproximação nos pequenos crimes cometidos ao longo de toda a cidade, de todo o Brasil. Sentimos sua força nos inúmeros dependentes químicos que encontraremos, quase toda família com pelo menos um para ter que lidar, como no filme o próprio filho de Nascimento irá nos mostrar. A juventude é cooptada como consumidor e vendedor.
 

Estima-se segundo dados que 77% da população jovem do Rio de Janeiro usa ou já usou algum tipo de droga lícita ou ilícita(Revista Brasileira de Psiquiatria vol 22), este não é um dado que possamos desprezar, alimenta o narcotráfico que tanto no Brasil, como no restante do mundo, faz frente a índices de lucro dos mais rentáveis empreendimentos do setor financeiro.

Segundo a Polícia Civil, 80% dos crimes do Rio, excluindo os passionais, têm raízes no tráfico de drogas.(fonte revista Isto É edição 1803/2004)


Os dados que pelo roteiro nos vão sendo apresentados são aterradores vistos ali na telinha. A projeção estatística que Diogo Fraga faz por brincadeira logo no início do filme em uma de suas aulas, aterroriza, e dá o tom do filme. Avisa-nos: aos que não querem chocar-se ou de estômagos delicados,  melhor que abandonem a sala de cinema, voltem para casa em seus carros blindados, com seus vidros fechados e protejam-se atrás de suas grades. Para a população desvalida que provavelmente verá o filme em uma cópia pirata de péssima qualidade, parecerá apenas um retrato do seu dia a dia, sem grandes novidades.


Não é definitivamente um filme para entretenimento, pelo menos não para o cidadão carioca, que vê ali diante de si a cidade com a qual convive ou a que teima em não ver, dependendo da classe social a qual pertença o espectador. Sai do estupor de notícias fragmentadas que leu nos últimos anos.


Talvez o que explique o grande sucesso desse filme seja justamente a tendência que todo sujeito tem de procurar nomear sua realidade. A do carioca(ou de todos os brasileiros) cheia de não ditos, de dados camuflados e escondidos sob uma aparente paz e normalidade social. Notícias nas quais não podem confiar, instituições onde a população espera proteção, mas ela não vem e nas comunidades carentes vira meio de extorsão, na mais justa alusão aos piratas. Assim como Nascimento acreditava que a polícia estaria ali para proteger, juntando fatos e filme, o espectador, antes de tudo, cidadão, passa a duvidar.


O sistema é pautado pela política e a política só respeita a mídia.

(Capitão Nascimento)


O filme mostra a face mais feia da cidade Maravilhosa, mas a pergunta que fica será a de que se toda essa rede diz respeito apenas a ela ou outros filmes mostrariam outras faces de outros grandes centros brasileiros?

Capitão fala todo tempo no “Sistema”, algo abrangente, cheio de braços e nuances, muito maior que uma banda podre da polícia, muito maior que políticos corruptos, algo que toma a forma de uma força quase independente, maior, que atravessa a tudo e a todos no tecido social, cada um contribuindo um pouco e se imaginando apenas uma gotinha, quando, tornar-se-á com seu ato, todo o oceano.


Estivemos recentemente discutindo projeto para o Brasil, decidindo no voto o que fazer para tentar colocar esse grande país em um rumo menos desorganizado e injusto, cuidar de nossas desigualdades, dos nossos bolsões de miséria, do nosso atraso e do abandono que grande parte da população vem sendo jogada há tanto tempo que não podemos precisar.

O Sistema tenta sempre encontrar espaço para sobreviver, muda a cara, compõe novas fórmulas, adquire novas faces, controla a mídia.

No filme a questão das milícias coloca o dedo na ferida.

O voto é a mercadoria mais valiosa da favela.

(fala do personagem Capitão Nascimento)

Há toda uma malha que faz funcionar isso que o filme denuncia. Entrelace sobre o qual todo cidadão é responsável, porque faz parte das instituições, porque é eleitor, porque faz parte com seu trabalho e sua vida disso que chamamos de nação, conjunto de pessoas e instituições que caminham nessa nossa terra tão vilipendiada desde a chegada das caravelas.


Policial não puxa esse gatilho sozinho


O filho de Nascimento ali encerrando o filme entre a vida e a morte, traz-nos a convicção de que todos nós adoecemos um pouco após esse filme, ou ainda, em uma visão mais esperançosa, talvez possamos sair do nosso coma profundo e passar a enxergar a complexidade do que nos cerca. Com certeza aquele dinheirinho na carteira pra tentar burlar a lei seca, o estacionamento proibido, o avanço de sinal e tantas mais, pequenas infrações, não parecerão mais tão sem importância.

Indicamos esse filme para debates acerca de cidadania, exclusão e responsabilidade social, até mesmo para pensarmos a psicologia ajudando em situações de emergência, porque talvez possamos pensar que grande parte do cotidiano de enorme parcela da população brasileira é o de uma situação equiparável a outros recantos do planeta que vemos como estado de calamidade.

Inserir a psicologia e todo campo psi no debate acerca de um sujeito que sofre e que esse sofrimento vai para o muito além das questões do seu universo de vínculos afetivos se inscrevendo em um campo social que impossibilita suas duas grandes tarefas de vida e bem estar, seu trabalho e seu amor com seus laços familiares. Onde a ameaça vem de todos os lados e onde aprende a perceber sua vida como algo que vale menos.

Alerta-nos Nascimento:

 

Ainda vai morrer muito inocente.

 
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