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Tudo Pode Dar Certo (Whatever Works – 2009)

 

Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps

 

"Você quer saber da minha história, vou contar-lhes"

" E vocês que estão aí nos olhando?"

 

Direção de Woody Allen. Trazendo no elenco Larry David , Evan Rachel Wood , Ed Begley Jr. , Henry Cavill , Patricia Clarkson.

 

Viveremos junto a Boris Yellnikoff (Larry David) suas aventuras e desventuras em um roteiro delicioso, repleto de passagens que nos levarão, entre outros aspectos, a risos e algumas reflexões acerca do nosso cotidiano, expectativas, sonhos, projetos, visão de mundo. Ex-professor da Universidade de Columbia, ele traz um estilo irascível e como professor de xadrez costuma criar situações com seus alunos de pura impaciência, chegando a ofendê-los, assim como a sofrer represálias por conta de suas atitudes.  Leva-nos a pensar nas relações de um distímico com o mundo ao seu redor.

 

Boris conhecerá Melodie St. Ann Celestine (Evan Rachel Wood) que nos será apresentada como a outra ponta, de uma jovem extremamente ingênua, confiante, radiante diante dos fatos da vida. A própria representação do “pensar positivo”. Pura euforia.

 

Acompanhando esse par nos veremos às voltas com questões que, em algum momento, já atravessaram nossas variações de humor e posicionamentos frente à demanda que o ato de viver cria em nosso cotidiano. O título no Brasil, em nossa análise, “força” um pouco para a conclusão de uma visão mais “perfumada” sobre a vida, porém em seu original o título faz-nos pensar dubiedade tão nossa conhecida quando pensamos na direção de Woody Allen, porque remeterá a algo mais próximo ao conceito sobre algo que “funcione” ou que na verdade tanto faz se pudermos imprimir algum sentido ao que é experimentado, que será parte então, de uma elaboração, antes de qualquer outra coisa, interna, portanto, singular.

 

Pensar em Boris durante toda a trajetória do filme será como refletir sobre manejos bastante obsessivos, o toque(spoiler) sobre o seu escovar dentes deixa isso bem claro. Ele esteriliza tudo aquilo que deveria ser tomado pelo afeto, sua visão sobre os atos de vida passeia entre a desafetação e até mesmo uma certa dose de esquizoidia. O irascível dele nos parece muito mais com aqueles apelos construídos na tentativa de sentir algo, alfinetar esperando a grande estocada que devolverá o sentir, como o seu (spoiler) pulo da janela que o máximo que fará será deixá-lo manco de uma das pernas.

Mais do que estar ligado àquele sentimento, podemos inferir que ele provoca-os ao outro na tentativa de que o façam sentir algo. No início do filme quando Allen escolhe fazer o protagonista buscar pelas mãos o espectador, falando-nos diretamente, pensamos que demonstra a intenção de todo o roteiro: tocar, fazer sentir, cutucar.  A apatia de Boris frente a tudo que acontece em sua vida nos remete ao tédio contemporâneo que muitos experimentamos, aprisionados pelas múltiplas facetas das escolhas livres as quais temos acesso, e pelas quais não nos encontramos com coragem de pagar o preço. Sentados confortavelmente esperamos que a vida nos toque, como fará nossa outra personagem, Melodie, na vida de Boris e de todos que deles se aproximarem. Mudanças deliciosas, principalmente as que acontecerão com os pais de Melodie, remetendo aos questionamentos múltiplos aos quais os velhos instituídos sociais estão hoje atravessados, de certa forma, até por isso, elevando a angústia do homem frente a multiplicidade de papéis que pode escolher desempenhar, pagando, obviamente, o preço por suas escolhas. Esperamos a mágica, ou nossa Melodie, acreditando que a felicidade existe enquanto realização eufórica, e que nos alcançará se tomarmos o caminho onde “tudo pode dar certo”. Pensamento mágico infantil que carregamos traços dele vida afora, “Somewhere Over the Rainbow”, como desamparo básico que espera o seio que sacia completamente. Mal que a modernidade irá trabalhar com suas drogas lícitas e ilícitas, no sentido de fingir que isso pode ser alcançado ou apenas em sua tentativa de anestesiar a angústia da frustração que perpassa todo ato de viver. Falamos muito em princípio de prazer e esquecemos de outro conceito tão caro a ele, o de “adiamento da satisfação” ou ainda no de sublimação, tão caro não ao mal estar, mas sim à civilização. Nunca fomos tão livres, e nunca fomos, paradoxalmente, tão prisioneiros. Boris nos lembrará disso todo o filme, com aquele traço tão Woddy, uma aparente desafetação, quase irritante em sua verborragia.

Podemos pensar o mundo, mas também podemos realizá-lo, retomando a importante temática da “realização”, tão meta quando pensamos freudianamente sobre qualquer que seja a questão. Boris realiza? Deixamos nosso leitor com essa pergunta na tentativa de que o filme cumpra a tarefa tão importante das representações cinematográficas, a de “desconstruir” arraigadas certezas, quebrando elos em nossas representações e assim possibilitando que possamos formar outras, talvez diferentes.

Boris e Melodie, vínculo tão fotograficamente apresentado nessa película, vida e não vida, Eros e Thanatos, impulso e repressão(desvio de meta). Quem somos frente a tudo isso, ao que damos mais predominância na fusão e desfusão? Qual a tendência da vida? A morte é certa, como conclui Boris, mas enquanto ela não vem, tudo pode ganhar algum sentido, caso assim possamos traçar nossos investimentos. Boris representa a própria defesa contra a grande bagunça que a vida promove, sempre tão repleta dos seus inesperados, mesmo que eles nos espreitem em nossas próprias portas, como Melodie o fará com Boris.

-“Tenho fome!”.

Podemos ver beleza nos atos da vida, como Melodie pode representar no filme ser a garota bonita, ou ficarmos com a feiúra e angústia que o sentido da vida pode tomar se olhamos apenas para a inevitabilidade da finitude humana, vendo no filme nossa personagem como apenas uma garota intelectualmente limitada e magrela.

A paixão sem dúvida incendeia a vida, promove ligação, mas em sua retirada é uma das piores dores vivenciada pelo sujeito, promovendo a desorganização pulsional a qual todos estamos fadados a experimentar frente a ausência do objeto, Boris mais uma vez nos lembrará disso. Mas, resilientes, continuaremos nossa caminhada, como mais uma vez, nosso personagem fará, tocado e modificado pela passagem de Melodie, da brisa de Eros em sua experimentação. Entra em cena o místico em seu próximo vínculo, a lembrar-nos que, de uma forma ou outra, sempre o chamamos de volta como o mistério do qual não conseguimos abrir mão frente ao ininteligível da vida(e da morte).

Alguns teóricos já nos disseram que não há passado ou presente, tudo que podemos contar é com o devir, sempre será no à posteriori que nossos atos de vida, nossos entrelaçados, farão de nós quem somos, mais realisticamente falando, quem fomos, nessa página em branco na qual escrevemos cotidianamente nossa história. Boris se despede, mais uma vez falando diretamente a nós, espectadores, outro dos dois únicos momentos do filme no tempo “presente”.

Se pensarmos que o filme finaliza na velha fórmula da “felicidade é possível”, retornaremos à questão que abordamos anteriormente, dessa felicidade como a promessa que buscamos alcançar. O que mais nos chama a atenção nesse filme é justamente a capacidade de Boris de banalizar tudo, até sua suposta tentativa de suicídio é banal, e o final do filme não trai essa direção. Tudo mudou no círculo de Boris, sua vida deu cambalhotas, ele, no entanto, permanecerá o mesmo, porque não podemos fugir daquilo que somos, no máximo seguir as marés aproveitando as ondas. Nossa infância já nos escreveu, mas podemos mudar um pouco nosso olhar sobre ela e assim sobre aquilo que escrevemos para o futuro, “As Horas”(outro grande filme!).

Se tudo não der certo, já deu, já foi, Whatever Works. Limpe as lentes, ação...

 

 

 

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